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Sociedade

Violência doméstica

Amelinha Teles cancela ida a evento após tema ditadura ser barrado

por Tory Oliveira publicado 16/09/2016 11h42, última modificação 16/09/2016 11h57
Integrante da Comissão da Verdade, ela falaria sobre crimes cometidos contra mulheres por agentes da repressão, em congresso na Bahia
Reprodução

Militante feminista e expoente nas denúncias sobre os crimes ocorridos durante a ditadura civil-militar brasileira, Amelinha Teles cancelou sua participação no 1º Congresso Internacional Científico sobre Violência Doméstica após um pedido da coordenação para que ela não abordasse em sua fala os crimes cometidos contra as mulheres no período, “devido ao apoio dos militares” ao evento.

Em carta aberta, Amelinha explicou os motivos do cancelamento às vésperas sua participação do evento que começa nesta sexta-feira 16, em Salvador. “Achei a proposta absurda e, claro, a recusei. Decidi, então, cancelar minha participação pois sequer foram levados em conta os princípios democráticos que garantem a plena liberdade de expressão”, escreveu ela, que integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e é assessora da Comissão da Verdade no Estado de São Paulo - Rubens Paiva.

À reportagem de CartaCapital, a militante disse que, ao ouvir as justificativas dos coordenadores do evento, sentiu-se vivendo novamente em um momento de repressão.

“Eu me senti voltando para a ditadura. São poucas as que falam sobre mulheres e ditadura e eu falo de algo que eu vivi e vi outras companheiras vivendo. Então, ao não poder falar sobre isso, a primeira sensação foi que o Brasil não é mais democrático”.

Segundo Amelinha, a proposta inicial seria abordar o tema "feminismos, sexualidades e gênero". No decorrer da preparação do evento, porém, foi sugerido que o conteúdo fosse mudado para "Verdade e gênero", que abarcaria os crimes sexuais contra as mulheres praticados por agentes militares e policiais na ditadura.

"Há poucos dias do Congresso, me procuraram para mudar de tema, porque ele não ia ficar bem com os militares que estavam apoiando o evento na Bahia. E aí eu pedi o cancelamento e fiz a carta", afirmou Amelinha.  

Por e-mail, o coordenador do evento, Jamilton Vasconcelos, afirmou que não foi pedido para que Amelinha mudasse de tema, mas, sim que "abordasse pontos mais próximos ao evento". "Este evento busca o enfrentamento de questões de violência doméstica e não especificamente violência de gênero. Dentre as abordagens por ela sugerida, uma foi escolhida, porém, infelizmente, ela não concordou". 

Para Amelinha, a violência doméstica não está desvinculada de atos violentos contra a mulher, já que a violência de gênero é um elemento estruturante do Estado e da sociedade brasileira, incorporado em diversas instituições. "Quando o Estado deixa de ser democrático e passa a ser autoritário, usa-se essa condição para cometer violências contra as mulheres", conta, ressaltando que a atuação dos agentes da repressão sobre o corpo das mulheres não foi apurado de forma satisfatória.

O evento, que se encerra em 18 de setembro, é organizado pela empresa MindPsi Eventos. Em sua descrição no Facebook, a empresa diz que sua atuação “consiste na aplicação do conhecimento psicológico aos assuntos relacionados à saúde mental”, “dando ênfase às principais abordagens da Psicologia”. O valor dos ingressos varia entre R$150 para estudantes e R$ 874 para não-estudantes, incluindo três diárias para hospedagem no local.

Participam do encontro, além de pesquisadores, políticos e representantes da Polícia Militar da Bahia e do Amazonas. No primeiro dia, o coral da Polícia Militar participará do evento cultural de abertura e estarão presentes na conferência a deputada Tia Eron (PRB-BA) e o candidato a prefeito em Salvador ACM Neto (DEM-BA). 

Um dos painéis temáticos, marcado para o domingo 18, enfocará no enfrentamento à violência contra a mulher realizado pela Polícia Militar do Estado da Bahia e será mediado pelo Major Honorato. Outros temas abordados serão a relação do sistema de Justiça com a violência contra a mulher e a dificuldade da aplicação da Lei Maria da Penha.

"A Polícia Militar é um dos apoiadores do evento, precisamos de união de forças nessa luta e não há qualquer óbice para que fossem convidados. Muitos casos são atendidos primeiro pelos policiais militares, e a experiência deles muito enriquecerá o conhecimento dos ouvintes do Congresso", justificou Jamilton.