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A escadaria da fumaça

por Redação Carta Capital — publicado 31/10/2012 15h35, última modificação 01/11/2012 13h05
Nos 215 degraus mais famosos da Lapa carioca, a maconha é consumida livremente. Por José Eduardo Rondon
lapa escadaria

Última ponta. O lugar virou ponto de encontro de turistas e boêmios em noites de festa. Foto: Jocemir Ferreira

por José Eduardo Rondon

No alto de uma escadaria no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, a figura de um homem com camisa vermelha, calça jeans e chinelos chama a atenção de turistas alemães e ingleses.

A turma de estrangeiros olha tudo com atenção. Enquanto isso, o pintor e artista plástico chileno Jorge Selarón continua seu trabalho diário: limpar e cuidar dos 215 degraus da escadaria entre a Rua Joaquim Silva e a Ladeira de Santa Teresa. Decorada com azulejos e pinturas que ganham fama mundial, a escadaria já foi utilizada para filmagens de clipes de Michael Jackson e da banda irlandesa U2.

 

 

O local tornou-se um dos principais pontos turísticos do boêmio e polêmico bairro carioca. Desperta cada vez mais o interesse de turistas estrangeiros e brasileiros que visitam a escadaria diariamente. Nela há cerca de 2 mil azulejos de várias partes do mundo. Alguns chegam a valer mais de 2 mil reais, conta o chileno, sem interromper seu trabalho diário.

Nas noites de sexta e sábado, a escadaria ganha outro tipo de público: jovens boêmios em busca de um lugar sossegado para ouvir música, cantar, beber e fumar maconha. As madrugadas na escadaria de Selarón lembram o antigo Posto 9, em Ipanema, que ficou célebre no fim dos anos 70.

Naquela época, imagens históricas como Leila Diniz grávida e Fernando Gabeira de sunga foram registradas nas areias. Virou quase um reduto obrigatório da vanguarda carioca. Naquele tempo, um apito servia de alarme para avisar aos usuários de maconha sobre a chegada da polícia. Hoje, quem passa à noite pela escadaria na Lapa tem a impressão de que surge ali, como nas areias de Ipanema há mais de 30 anos, um espaço da contracultura, frequentado por escritores, jornalistas e artistas que, embalados por muita música, cantoria e uso livre de droga, derrubam a divisão de tribos comum em outros lugares da cidade.

O novo Posto 9 fica no bairro onde a vida noturna parece mais intensa no Rio de Janeiro. À margem do movimento, a Rua Joaquim Silva é quase um mundo à parte da badalação. Ela começa ao lado dos Arcos da Lapa e se encerra pouco após a escadaria.

Nos fins de semana, o meio da rua se transforma numa espécie de Babel cultural, com a mistura de rap, funk, salsa, rock e reggae. Caminhar pela Joaquim Silva é tarefa difícil, pois ela fica tomada por uma multidão que, por toda a madrugada, esquece as atuais divisões entre tribos das noites das capitais do País e se integra numa mistura desafiadora e criativa.

A primeira impressão que se tem ao chegar à escadaria na madrugada é a de que, com a anuência da polícia, ali o consumo de drogas está liberado no Rio de Janeiro. Poucos metros separam um carro da Polícia Militar de cerca de 400 frequentadores. Muitos fumavam livremente.

Sob a condição de ter o nome trocado para preservar sua identidade, um grupo de frequentadores da escadaria aceitou conversar com a reportagem. Parte das entrevistas foi ao ar em um programa especial sobre o bairro da Lapa exibido na Band no jornalístico A Liga. Para a jornalista Marcela, o que ocorre na escadaria serve para se discutir a liberação do uso de maconha no País. “Aqui é um espaço pequeno e, da maneira que está, funciona, não há brigas, não há confusão, todo mundo respeita o espaço do outro.” Ao passar a madrugada ali, a reportagem percebe que as palavras de Marcela não são apenas parte de um discurso a favor do uso liberado da maconha. Em meio a uma multidão não se vê nem sombra de confusão.

Até uma equipe de um candidato a vereador do Rio, com grandes cartazes com o símbolo da maconha, faz campanha nos degraus da atração turística.

“Aqui tem de tudo, música, poesia, rolam saraus, apresentações que surgem só da vontade dos frequentadores em -realizá-las”, diz o músico Evandro.

Para Heloisa Buarque de Hollanda, professora titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, há similaridades entre os dois locais. “Na escadaria da Lapa o que move é a cultura, como no Posto 9. Tem uma geração de artistas criando um movimento cultural.”

Mas para o chileno que revitalizou aquele espaço, as “baladas” na escadaria são uma espécie de infortúnio. “Sobre isso não falo”, diz ele, ao ser questionado sobre o público que frequenta o local nas noites dos fins de semana. “Isso é um problema para a polícia”, conclui Selarón, que prefere falar sobre sua obra. Desde que começou seu trabalho, na década de 1990, o pintor e artista plástico reformou a escadaria por iniciativa própria e apoio de turistas, que lhe enviam de várias partes do mundo os azulejos utilizados para a decoração. Não teve nenhum auxílio do poder público. Em 2005, a escadaria foi tombada e o chileno recebeu o título de cidadão honorário do Rio de Janeiro.

Ao visitar a escadaria, chama a atenção na obra do artista a constante presença da figura de uma mulher grávida em suas pinturas. “Memórias de minha vida”, diz ele, sem jamais entrar em detalhes. Nem sobre a vida nem sobre a obra.