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Sociedade

Crônica

A deturpação da mulher-macho

por Redação Carta Capital — publicado 22/02/2012 12h24, última modificação 22/02/2012 13h22
O acúmulo de músculos e de um respeitável acervo de próteses de silicone não garante a ninguém o adjetivo de saudável
musculosa

Propagar a idéia de que uma grande quantidade músculos e de força combinados à posse de grandes próteses de silicone são a expressão máxima da beleza é uma ofensa à inteligência, à lógica. Foto: Galeria de Zaqarbal/Flickr

Por Aurélio Munhoz*

 

O título deste artigo não guarda nenhuma analogia com a letra do clássico do forró e símbolo da tenacidade da mulher nordestina, forjado pelo gênio de Luiz Gonzaga, que conta a história da corajosa paraibana em sua luta contra a seca no sertão. Tratamos de um tema que, às portas do Dia Internacional da Mulher, nada tem a ver com a tragédia da estiagem: o atual padrão de beleza feminina que desfila, com desenvoltura, pela mídia brasileira.

Mas atenção: este texto não é um arrazoado contra a onda de cirurgias plásticas que, por força da ascendente situação econômica de um generoso quinhão da sociedade, percorre o País. Pelo contrário. Desde que com bom senso e respeito aos limites impostos pela saúde do corpo, é até louvável que seja assim.

Na intenção de melhorar sua autoestima, todo mundo tem o direito de fazer concessões ao ego, redefinindo a própria aparência. E é preciso coragem para se render ao bisturi.

Nosso foco é outro. Interessa-nos tratar da massificação, imposta sobretudo pela grande  mídia, de um modelo de beleza feminina baseado no culto ao exagero das formas e, sobretudo, dos músculos. É a “masculinização” da mulher. Neste novo estereótipo alavancado pelos experts em futilidades que operam nos veículos de comunicação, o belo já não são mais as formas suaves da mulher brasileira nos anos 60 e 70, com sua cinturinha fina. Nem as curvas femininas delineadas pelo bisturi e pela lipoescultura que ganharam as ruas a partir dos anos 80 e, com muito mais frequência, nos anos 90. Muita coisa mudou, nestes 50 anos.

Reza a mídia que a suprema expressão do belo, de alguns anos para cá, são mulheres dotadas de corpos hipertrofiados pelas academias e pelas mãos dos cirurgiões plásticos megalômanos. Neste modelo, já não importa mais ter peitos e bundas siliconados, como nos anos 90. É preciso que sejam exageradamente siliconados, ostensivos, escancarados. Já não importa mais ter corpos bem delineados pelos aparelhos de ginástica, mas músculos de fisiculturistas. O padrão Vênus de Milo foi substituído pelo de Lara Croft, nos traços do cartunista Adam Hughes.

Este padrão de beleza já foi consagrado pela mídia e ganha mais visibilidade na nudez de algumas das principais estrelas dos desfiles na semana do Carnaval - expressão maior da cultura popular brasileira e maior promotor de beldades femininas. Não por outro motivo, as celebridades instantâneas que propagam este novo modelo de beleza ocupam generosos espaços na mídia, explicando como conseguiram a façanha de modelar seus corpos até o limite do possível. “No pain, no gain”, justificam, revelando um certo jeito Augusto Cury de pensar.

Mas a questão vai muito além da estética e do esforço físico desenvolvido por esta gente para se enquadrar ao novo padrão de beleza. Esforço físico digno de respeito, aliás, porque não é nada fácil fazer o que estas mulheres fazem. Não merece condenação quem se empenha para buscar o que julga melhor para si. O problema são os excessos, embora até eles sejam admissíveis quando localizados no plano estritamente individual. Cada um, enfim, sabe o que faz com seu nariz.

Problema mesmo é a irresponsabilidade de quem age - como os inventores de perfumarias da grande mídia - sabendo que pode formar opiniões contrárias ao bom senso, criando estereótipos e padrões de comportamento equivocados. E, o que é ainda mais grave: divulgado mentiras, tomando-as por verdades; a ignorância, tomando-a por conhecimento.

É o que a mídia faz quando, com uma frequência incrivelmente comum, cita as adeptas deste novo padrão estético de beleza feminina - como de resto faz em relação a muitos fisiculturistas homens - como os exemplos mais acabados de beleza, força (física, mesmo) e, ainda, de saúde. Perdoe-me por dizer o óbvio, mas se é verdade que gosto não se discute, também é verdade que o acúmulo de músculos e de um respeitável acervo de próteses de silicone não garante a ninguém o adjetivo de saudável. Feixes de músculos bem trabalhados podem ser produto de anabolizantes. Academia em excesso pode gerar graves problemas de saúde; idem as próteses de silicone tamanho GG.

Não é só no campo da cultura popular, portanto, que a quase totalidade da grande mídia brasileira tem prestado um desserviço ao Brasil. Os meios de comunicação de massa também reverenciam a indigência intelectual quando criam, estimulam e reforçam estereótipos. É preciso muito mais cuidado e responsabilidade com o que se divulga.

Propagar a idéia de que uma grande quantidade músculos e de força combinados à posse de grandes próteses de silicone são a expressão máxima da beleza é uma ofensa à inteligência, à lógica. Às mulheres que, enfim, pensam (e são) diferentes. É uma espécie de reinvenção do conceito de mulher-macho que, ao invés de renová-lo, torna-o pior porque deturpa o significado da verdadeira essência feminina, situando-o em um plano meramente físico - e equivocado.

A mulher pode ser bonita e sedutora de qualquer jeito. Com e sem implantes de silicone. Com e sem horas acumuladas em academias. Pode ser bonita até sem se mostrar - justamente a maior das seduções femininas. “Uma mulher nua seria menos perigosa do que é uma saia habilmente exibida, que cobre tudo e, ao mesmo tempo, deixa tudo à vista” (Honoré de Balzac, em A mulher de 30 anos).

 

*Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor em Comunicação e presidente da ONG Pense Bicho. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná.

 

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