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Sociedade

Crônica

A cruzada de Almeidinha pelo direito hetero

por Matheus Pichonelli publicado 11/01/2013 12h59, última modificação 06/06/2015 18h23
Almeidinha achou graça na piada de Danilo Gentili e abriu fogo contra a "vulnerabilidade hetero"
peter

O Almeidinha não tem "nada contra, mas..."

Almeidinha entrou no Twitter e está encantado com a capacidade de Danilo Gentili (seu humorista-filósofo-apresentador-ator-escritor favorito) fazer pensar com humor leve, seco e de forma instigante.

Ontem, ao ler que, no Brasil, um gay era assassinato a cada 26 horas, Almeidinha ficou curioso e correu ao Google para digitar as seguintes tags: “pessoas” + “assassinadas” + “por hora” + “Brasil”.

Bingo.

Ele acabara de descobrir que, no Brasil, seis pessoas são assassinadas por hora. Concluiu assim que pessoas “comuns”, caso dele, eram muito mais vulneráveis à barbárie do que a comunidade gay.

Os motivos eram óbvios. Ele, que é machão, não pode sair às ruas com bandeiras de orgulho “hetero” nem fazer passeata em nome da sua comunidade. Pelo contrário, se fizer piada sobre gays, quem vai preso é ele. O Almeidinha pensa que privilégio tem lado, cor e orientação sexual.

Cansado de ser chamado de “ogro” pela cunhada que largou o marido para dividir o apartamento com a amiga (“aí tem”, diz ele todo santo dia), Almeidinha usou a prova dos nove colhida no Google para “denunciar” que hoje, no Brasil, é mais negócio ser gay do que “hetero”. A diferença, diz, é que uns são mais barulhentos e outros, discretos.

Mas teve dificuldade para juntar tanta informação numa caixa de apenas 140 caracteres. Pensou, cortou palavras, calculou mil abreviações. Quando estava desistindo, foi resgatado pelo ídolo piadista, que acabara de chegar à mesma conclusão e usava a rede social para pedir a algum voluntário a gentileza de sodomizá-lo para se proteger da violência estatística. “Só por segurança”, frisou.

Almeidinha riu. Mas riu demais. Ele riu tanto que até caiu da cadeira.

Chegou a engasgar com a piada-verdade-denúncia e chegou à conclusão que só um retweet não bastava (foram 1.105 ao longo do dia) para expor a verdade. Era preciso dizer o quanto o humorista-filósofo-apresentador-ator-escritor encarnava, em 140 caracteres, a genialidade pura do brasileiro sem preconceito, aberto a novas ideias, e disposto a fazer pensar por meio da piada.

Almeidinha retwitou o Gentili.

Fez loas ao ídolo.

E esperou.

Não deu um minuto e a patrulha politicamente correta, armada pela cunhada, emendou o primeiro petardo. “Larga de ser bronco: as pessoas, nestes casos, não morrem por serem quem elas são, mas por diversos fatores. ‘Crime de ódio’ é outro campo”. E mais: “as pessoas não vão te assaltar por você ser hetero ou gay, mas porque tem algo a ser roubado. Mas gays morrem ‘SÓ’ por serem gays”. E outro: “O hetero não está livre da violência, mas ela não será movida por sua forma de andar, falar, se relacionar. A discriminação mata. ENTENDE?”.

E por fim recebeu no rosto o desenho de um cartunista que ele só conhece por se vestir como mulher. Algo como: “Hetero é considerado insulto? Hetero é ridicularizado por ser hetero? Então não venha dizer que ‘crime é crime’ porque ‘não dá no mesmo’”.

Era tanta arroba e tanta palavra difícil (“fatores”, "campo", “crimes de ódio”, “discriminação”...) que o Almeidinha não demorou a perceber por que intelectuais tinham dificuldades em matemática. Para ele era tudo “papo de intelectual” que cria conceitos para esconder a verdade – e a verdade era matemática como dois e dois: mais "heteros" morrem (ele diz “gente comum”), mais perigo para "heteros". Era a matemática do mimimi contra o chamado “politicamente incorreto”: meia dúzia de queixas e apoio à censura contra milhares de retweets de quem superou preconceitos com leveza, humor inteligente, liberdade de expressão e lâmpadas fosforescentes.

A mesma leveza devia valer para todos, pensou ele, e quem fica de mimimi manifesta um preconceito contra ele mesmo. Se fossem discretos, se se respeitassem para serem respeitados e não fizessem questão de dar “amassos” e andar de mãos dadas pelas ruas, não haveria tanto crime de ódio, pensa ele – agora sem coragem de expor. Para não deixar barato, pensa que a “feminista lésbica” da cunhada não entenderia se respondesse com ironia. Volta ao Google e procura alguma frase-pronta com as palavras “tratar” + “iguais” + “os desiguais”. E começa a cavar a trincheira em 140 caracteres: “Olha, não tenho nada contra gays, até tenho amigo gays, mas...”

 

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