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Opinião

A crise, o patriarcado e tons de surrealismo

por Joanna Burigo publicado 25/05/2016 18h38
O desenrolar novelesco da narrativa política e o comportamento de torcida de futebol dos seus espectadores caracterizam a surrealpolitik patriarcal
Beto Barata / PR
Michel Temer

Michel Temer: ao seu redor, homens brancos

Venho há algumas colunas usando a política nacional como alegoria para que o conceito do patriarcado possa ser observado no real, e é impressionante como, à medida que o enredo se colore em tons chocantemente surreais, seu caráter patriarcal vem mais e mais à tona. 

Ontem mesmo, assistindo o Entre Aspas na GloboNews, observei que na edição de imagens do dia, em Brasília, apareciam somente homens brancos de ternos cinzas. Esta constatação só confirma o que já sabemos por ser visível: os mais altos cargos do poder nacional estão quase que exclusivamente nas mãos de homens. 

Hoje estamos digerindo os significados e consequências da mais nova fornada de áudios vazados, desta vez entre o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Na conversa, Calheiros e Machado implicam que os homens do governo estão “perdendo a condição política” diante da impossibilidade de “negociar a transição” de uma mulher que “não está abatida e tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável”. 

Não posso nem quero especular a respeito de todos os desdobramentos destes diálogos, tampouco usá-los como prova cabal da culpa ou idoneidade de ninguém – até porque julgamentos deste porte estão fora da minha alçada. Mas os trechos da conversa aqui citados corroboram com uma averiguação que é, sim, da competência feminista: a asserção de que mulher é “sexo frágil” é uma grandessíssima falácia...

É certo que a presença de homens brancos em espaços de poder é um padrão global e histórico: isto calha de ser uma síntese dos motivos pelos quais se aplica, em análises feministas e de gênero, o conceito do patriarcado (conjunto de dispositivos que permitem que o poder permaneça nas mãos de algumas poucas pessoas que são, em sua maioria, homens). 

No quadro político, especialmente desde o dia 13 de maio, a manifestação deste conceito é tão evidente que a palavra pode ser deslocada da abstração teórica e linguística com mera observação: nas imagens do governo interino, não se vê mulheres. Não se vê ninguém além de homens brancos. Em 2016. 

É surreal. E ainda assim, é a nossa realidade. 

Em outra coluna propus um desdobramento do termo realpolitik para aplicação no cenário nacional: surrealpolitik, que comentei brevemente aludindo ao seu caráter patriarcal. Quero estender este raciocínio usando aspectos da teoria de gênero para ilumina-lo.   

O termo realpolitik define políticas pragmáticas e não ideológicas, mas é praxe usá-lo de forma pejorativa para apontar políticas coercitivas e imorais. Venho usando o termo surrealpolitik para descrever o quadro nacional de forma puramente descritiva, no entanto; basta acompanhar as notícias para que o caráter flagrantemente surreal e patriarcal da nossa política se revele. 

Surrealismo talvez remeta ao revolucionário movimento cultural que influenciou a arte e a literatura no começo do século XX, mas ao empregar o termo surrealpolitik não me refiro a um modo de pensar e agir que vise transcender interpretações vigentes da realidade no afã de expandir sua compreensão. 

Pelo contrário, a raiz é a palavra “surreal” que, independentemente das conotações filosóficas, denota aquilo que se encontra para além do real, o que é uma transgressão da verdade ou da razão, e que existe no domínio do sonho, da imaginação e do absurdo. 

É absurdo o que está acontecendo. E, para mulheres, um pesadelo nada imaginário que independe de inclinações políticas. 

É sabido que o discurso político simplifica argumentos complexos que podem mascarar a realidade para reduzir nossa capacidade de compreensão dela, mas a política brasileira recente – e o debate público acerca dela – extrapolaram esta noção.

Estamos imersas, de mãos atadas, e assistindo com ansiedade crescente o desenrolar de uma narrativa verdadeiramente novelesca, que fomenta polarizações e a criação e derrubada de mocinhos e bandidos intercambiáveis. Surreal.

É surreal no alto escalão, e o surrealismo respinga e se reflete no debate público, pois nem mesmo as surpreendentes reviravoltas no enredo dão conta de diminuir a hostilidade entre quem adere de forma não crítica às falsas dicotomias da narrativa.

Na aparente impossibilidade de diálogo – quem dirá entendimento – entre coxinhas e petralhas (ou governistas e golpistas, ou quaisquer outras dualidades que tenham sido empregadas para revelar disputas baseadas em coisas como cor de camisa), a discussão política parece acontecer entre torcedores fanáticos de times de futebol. Surreal.

A fixação em binários opostos no debate político acaba por fazer com que conceitos não relacionados sejam aglutinados em dicotomias simbólicas, e quaisquer comentários ou análises são dragados para um ou para o outro campo. No modus operandi da polarização a nuance não encontra espaço, e não há lugar para a pluralidade vocal.

No cenário atual, os binários opostos vêm variando de acordo com o período e contexto, mas a fixação com esta forma de pensar é a mesma sempre. A teoria de gênero não rejeita a existência do “masculino” e do “feminino” como binários opostos, mas se caracteriza por indicar que a representação dogmática deste binário não pode ser a única forma de categorizar as pessoas.

No que diz respeito ao debate político no País, pensar de formas críticas sobre ele não significa uma rejeição da existência do petralha ou da coxinha, mas sim um questionamento deste dualismo como a única forma de categorizar o povo brasileiro.

A tal surrealpolitik patriarcal a que me refiro é assinalada por uma narrativa de novela cujos espectadores se comportam da forma binária típica de torcida de futebol, na qual os conflitos se dão entre a imposição de valores patriarcais de repressão e valores libertários de inclusão. 

Foram surreais e patriarcais as justificativas de cunho pessoal, por parte daqueles que supostamente representam o povo, usadas na votação de um processo que, em teoria, tinha razões econômicas de interesse nacional.

Foi surreal a retórica da comissão especial do impeachment no Senado, que apesar de menos assustadora do que a verificada no Congresso, apresentava discrepâncias interpretativas de conceitos como “democracia” e “golpe”, denotando que certas palavras são esvaziadas de significado para receberem múltiplas significações, de acordo com o freguês.

Surreal foi aquele capítulo no qual o impedimento do impedimento foi impedido por seu impedidor, e poucas imagens foram tão surreais quanto a de Fernando Collor votando a favor de outro impeachment, meros 14 anos depois de ter renunciado à Presidência antes do final do seu próprio processo de impeachment.  

Surreal foi ser direcionado, a respeito da crise econômica (que é real, dramática, e a pauta mais recorrente dos últimos anos, em par com a corrupção) a não mais se pense.

É surreal que o ministro da Justiça sugira que os movimentos sociais são criminosos, foi surreal assistir o fim e recomeço do Ministério da Cultura, e é inacreditavelmente surreal ver Alexandre Frota discutindo os planos de educação no MEC.

Mas o mais surreal, e indelevelmente patriarcal, foi que passamos anos testemunhando uma profusão de misoginia disfarçada de crítica política dirigida à Dilma Rousseff, e na segunda semana de críticas legítimas ao seu governo nem tanto, Michel Temer reclamou de estar sofrendo pressão psicológica.

É decisivamente patriarcal a nossa surrealpolitik.

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