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“E se sua mãe tivesse te abortado?”

por Djamila Ribeiro publicado 21/12/2015 14h25, última modificação 21/12/2015 14h34
Quando eu tinha 16 anos, minha mãe dividiu comigo a culpa de ter tentado me abortar
J.K. Califf / Creative Commons / Flickr
gravidez

Em novembro, juntamente com outras feministas, escrevi um manifesto feminista para uma revista de moda de grande circulação. Logo na capa, nossos nomes anunciavam o que defendíamos para as mulheres.Houve uma grande repercussão, e com isso, comentários negativos surgiram.

Nada de novo. Como feminista, já estou habituada a isso e nem me incomoda. Infelizmente, criou-se um mito negativo entorno do feminismo e muitas pessoas o assimilam sem ter o conhecimento real do que se trata o movimento. Porém, uma pessoa revoltada pelo fato de a revista que ela assinava abordar um tema de “assassinas”, segundo ela, me mandou uma mensagem revoltada.

Na mensagem, ela me questionava sobre meus posicionamentos políticos; criticou nossa pauta pela descriminalização do aborto e fez a inveterada questão que costumam fazer às feministas: “e se sua mãe tivesse te abortado?”

Essa pergunta é tão sem noção que só me ocorreu pensar: ora, eu não existiria e não seria obrigada a ler uma mensagem como essa. Não respondi a ela – nunca respondo a esse tipo de mensagem acrítica -, mas neste texto escrevo a resposta: minha mãe tentou me abortar.

Eu sou a caçula de três irmãos e uma irmã. Quando eu tinha 16 anos, minha mãe me chamou para uma conversa. Lembro como se fosse hoje, eu estava varrendo a casa e quando cheguei ao quarto dela, ela estava sentada na cama com um olhar preocupado.

Eu segui varrendo com má vontade - não gostava -, até que ela me pediu para sentar. Começou dizendo que me amava muito e que eu era seu bebê, da alegria de ser minha mãe, até que disse: “Espero que você não me odeie depois do que vou te contar. Quando soube que estava grávida de você, eu entrei em desespero. Seus irmãos ainda eram bebês, eu tinha acabado de ter sua irmã, e não soube o que fazer. Então, procurei um homem que vendia chás. Expliquei a ele a situação e comprei uma erva. Tomei o chá e aguardei. Depois de um tempo comecei a ficar preocupada porque não fez efeito algum. Voltei a casa do homem e ele disse que além do chá precisava fazer uma simpatia. Fiz e nada. Não adiantou, você quis nascer e não teve jeito, e hoje é meu bebê.”

Eu fiquei sem reação na hora. Ela seguiu dizendo do medo que sentiu de eu nascer com algum problema em decorrência do chá, da culpa que sentiu. Eu olhei em seus olhos e disse: mãe, fica tranquila. Eu te amo e você me ama. Ela me abraçou e chorou muito. 

Minha mãe nasceu em 1950 numa família rígida. Começou a trabalhar ainda criança no interior de São Paulo e saiu de casa aos 18 para morar e trabalhar na capital paulista em casa de família. Passou por situações de assédio de patrões, de violências, até conhecer e se casar com meu pai. Minha mãe soube desde cedo o que era violência institucional.

À época que ela me contou, eu tinha só 16 anos e não soube elaborar muito bem o que dizer a ela, mas minha mãe se libertou depois daquela conversa e passamos a ser mais amigas depois daquilo até sua morte, quando eu tinha 21.

Mas hoje, eu também sendo mãe, se pudesse diria mais coisas. Que eu entendia o medo dela de ter mais uma filha com diferença de um ano para a última; que apesar de amar meu pai e ele ter sido ótimo pra mim, eu entendia hoje o quanto ele foi machista com ela. Diria que vivemos em um país onde o Estado controla os corpos das mulheres e justamente por isso elas precisam passar por situações de descaso e desespero. E, que apesar da criminalização do aborto, mulheres realizam o procedimento e mulheres como ela, negras, são as que mais morrem em decorrência disso.

Falaria que mulheres negras são as maiores vítimas de mortalidade materna; que o racismo institucional na área de saúde mata mulheres como ela diariamente. A abraçaria de novo para tentar extirpar todo o medo e a angústia que ela sentiu durante minha gestação, a culpa que ela carregou por 16 anos sozinha. 

Talvez este texto também pudesse se chamar: "Carta póstuma à minha mãe". Acima de tudo, eu a olharia com ternura nos olhos e diria: "Mãe, não há o que perdoar. O Estado sabe muito bem o que faz."

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