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Saúde

Entrevista - Jonas Schmidt-Chanasit

"Zika não pode ser comparado ao HIV"

Para o virologista, hipótese de o vírus ser transmissível sexualmente não é o que mais preocupa especialistas
por Deutsche Welle publicado 27/01/2016 05h55
Cristine Rochol / PMPA
Zika vírus

Técnicos aplicam inseticida no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre, em 19 de janeiro

Por Carla Bleiker

A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou nesta segunda-feira (25/01) que o zika foi isolado no sêmen humano e que foi relatado um caso de possível transmissão sexual. No entanto, são necessárias mais evidências para confirmar se o contato sexual é de fato uma forma de contágio, disse a entidade.

Em entrevista à Deutsche Welle, o médico e virologista Jonas Schmidt-Chanasit, do Instituto Bernhard Nocht de Medicina Tropical em Hamburgo, afirma que há a possibilidade de o zika ser transmitido pelo leite materno, pelo sangue ou pelo contato sexual.

Schmidt-Chanasit destaca, no entanto, que o zika não é, de forma alguma, um novo HIV, adaptado ao homem. Trata-se de um "vírus de mosquito".

DW: O vírus zika está se disseminando pelas Américas do Sul e do Norte. As pessoas podem se infectar mutuamente?

Jonas Schmidt-Chanasit: O vírus se espalha principalmente por meio de mosquitos. Há também a possibilidade de que ele seja sexualmente transmissível, mas isso é algo secundário. O perigo está principalmente no seguinte: a maioria das pessoas infectadas pelo zika não adoece e, portanto, não sabe que está contaminada. Isso torna uma transmissão sexual um pouco mais fácil.

DW: E na relação social cotidiana?

JSC: Transmissões como no caso do ebola – através de gotículas de secreções, pelo toque ou pelo beijo – não são possíveis. O vírus zika não deve ser comparado, de forma alguma, ao ebola ou ao HIV. Isso poderia levar às teorias mais estapafúrdias – com alguém dizendo que se trata do novo HIV.

O vírus, no entanto, é claramente um "vírus de mosquito". Ele se adequou a esse pequeno inseto e, normalmente, não tem nada a ver com o ser humano – ali, no lugar de onde ele vem, ou seja, da selva. Não se trata de nenhum agente patogênico como o HIV, que se adaptou relativamente bem ao homem e que também pode ser transmitido de pessoa para pessoa.

Jonas Schmidt-Chanasit
Para Schmidt-Chanasit, há possibilidade de transmissão sexual, mas não se trata da principal forma de contágio
DW: O vírus pode ser transmitido pelo sangue?

JSC: Uma transmissão através de transfusões de sangue é possível – como no caso da dengue, cujo vírus é parente do zika. Para que isso seja evitado, é claro que agora produtos derivados do sangue devem ser testados em regiões de alto risco. O zika também pode ser transmitido através do leite de mães infectadas. Mas essa não é a principal via [de transmissão], que afeta milhões de pessoas.

DW: A transmissão direta, de pessoa para pessoa, tem importância na disseminação do vírus?

JSC: Quanto maior for o número de casos, mais interessantes se tornam essas vias de transmissão, que normalmente desempenham um papel secundário. Se há milhões de casos, isso não deve ser negligenciado. Isso é objeto da pesquisa atual. Temos que continuar investigando: com que frequência isso acontece, por quanto tempo o vírus pode ser detectado no sêmen e assim por diante.

DW: Essas vias de transmissão direta são motivo de preocupação?

JSC: A possível transmissão sexual é um aspecto, mas certamente não é o que mais traz dor de cabeça para mim e outros colegas, mas sim a questão de como proteger a mulher grávida, de como suprimir a propagação do vírus e de como combater o mosquito.

DW: O quão perigoso é o vírus zika?

JSC: No geral, trata-se de uma situação inesperada. O zika é, falando em sentido figurado, um vírus selvagem e que nos assusta e amedronta. Especialmente as malformações em recém-nascidos são dramáticas. Isso me preocupa, assim como as lesões neurológicas em adultos associadas à infecção.

Deutsche-Welle

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