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Os médicos e as Olimpíadas

por Riad Younes publicado 30/07/2012 11h18, última modificação 30/07/2012 11h20
O lado médico dos jogos tem duas grandes preocupações: as confusas regras antidoping e o patrocínio oficial de redes de fast food

Estamos vivendo um dos eventos esportivos mais disputados, mais globais, mais transmitidos no mundo: os Jogos Olímpicos em Londres. A imagem de milhares de atletas chegando, se instalando, passeando, treinando e, logo, competindo é formidável. Do lado médico, além de cuidar da saúde dos atletas, prevenindo e tratando lesões e complicações diversas, os especialistas estão preocupados com dois assuntos capazes de influenciar muito além dos competidores, pois podem mudar o comportamento de milhões de jovens, e dos não tão jovens, em todo o mundo. São os fenômenos do fast-food e do doping.

Um grupo de médicos deixou clara sua indignação com a intensiva propaganda de marcas associadas com o excesso de ingestão de calorias. Alguns dos mais importantes patrocínios deste evento esportivo incluem produtos da Coca-Cola, o fast-food da rede McDonald’s e os chocolates da Cadbury. Ora, se os Jogos têm como lema central a promoção da vida saudável através da prática do esporte, e tendo em vista a alarmante epidemia de obesidade nos jovens ao redor do mundo, seria, no mínimo, incompreensível permitir que os responsáveis diretos pela nítida piora da saúde global tenham acesso a tão nobre transmissão. A Academia Inglesa das Faculdades Reais de Medicina (Academy of Medical Royal Colleges) afirmou que a presença do McDonald’s e da Coca-Cola nestas Olimpíadas transmite uma falsa mensagem às crianças e jovens nos países onde essas empresas atuam.

O que mais indignou os médicos e acadêmicos foi ouvir a resposta do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, quando declarou, a respeito dos patrocínios do McDonald’s e da Coca-Cola: “Estamos orgulhosos de trabalhar com ambos... com contratos válidos até 2020”. A obesidade pode esperar para bem depois das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Outro assunto que também ocupa as manchetes é a eliminação de atletas por doping. À primeira vista, parece justo promover o fair play. Os médicos, no entanto, acham curiosa a desproporção entre a sofisticação dos testes para a detecção do doping e a falta de evidência científica comprovando que tais substâncias dosadas realmente melhoram a performance dos competidores. Tomamos como exemplo os esteroides, largamente usados e abusados por muitos atletas. Cientificamente, está mais do que provado que a administração de esteroides em pessoas com deficiência desses hormônios melhora substancialmente a capacidade e a qualidade de vida. No entanto, não há estudos científicos que confirmem que o uso de anabolizantes por atletas de ponta do sexo masculino, competidores em Olimpíadas, melhora o já otimizado conjunto de órgãos de seus corpos atléticos e a já privilegiada herança genética desses indivíduos.

Mais intrigante para os especialistas são as variáveis que definem uma substância como doping. A Wada, agência mundial antidoping, criou regras para ela muito claras. Se um método ou uma substância apresentam pelo menos duas das seguintes características, eles seriam considerados doping: devem melhorar o desempenho, ser nocivos à saúde e ser contra o vago conceito do “espírito esportivo”. Com essa definição, são banidas substâncias mesmo que não tenham nenhum efeito sobre a performance do atleta. Fumar maconha é um exemplo.

Por outro lado, substâncias que somente melhoram o desempenho esportivo podem não ser banidas. Exemplo clássico é a estimulante cafeína que é permitida sem problemas. Por sinal, os pesquisadores confirmam que a permitida cafeína é tão eficiente quanto as banidas anfetaminas e a efedrina. Mais curioso: recentemente, o presidente da Wada demonstrou preocupação em relação aos atletas estarem tomando cafeína na forma de pílulas. Isso pode ser revisto e eventualmente classificado como doping, afirmou John Fahey. A cafeína na xícara, tudo bem. Em comprimido, nem pensar. Vai entender essa.

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