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O seio materno

por Redação Carta Capital — publicado 25/11/2012 11h47, última modificação 25/11/2012 11h47
A amamentação e a boa nutrição das gestantes são essenciais para evitar doenças e favorecer o pleno desenvolvimento dos bebês
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Bebefício. O leite materno reduz o risco de diarreia e outras infecções. Foto: Photo.com

Por Drauzio Varella

Deficiências nutricionais durante a vida fetal têm consequências mais duradouras do que sonha nossa vã filosofia. Experimentos naturais, como a epidemia de fome dos invernos de 1944 e 1945 na Holanda em guerra e os jejuns religiosos, deram origem aos primeiros estudos sobre o tema. Os efeitos tardios da “Fome do Inverno Holandês” incluem a obesidade dos homens ao atingir 19 anos, as características da deposição de gordura no corpo das mulheres e o aumento da incidência de esquizofrenia e hipertensão arterial.

Inquéritos epidemiológicos mostram que a exposição pré-natal ao prolongado jejum diurno, praticado pela mulher grávida no Ramadã, aumenta em 20% a incidência de problemas de saúde em adultos muçulmanos de Uganda e Iraque.

Há muito se sabe que a deficiência de iodo durante a gravidez pode provocar rebaixamento do QI. Antes da adição de iodo ao sal de cozinha, essa era a principal causa de retardo mental infantil passível de prevenção. Num trabalho feito na Tanzânia, meninas nascidas de grávidas que receberam suplementação de iodo apresentaram seis meses a mais de escolaridade do que os irmãos sem esse cuidado pré-natal.

Observações desse teor sempre foram vistas com reservas, porque as deficiências nutricionais durante a vida intrauterina e a primeira infância dependem do tipo, da intensidade e do período em que ocorreram, da dieta na primeira infância, da atividade física, das condições familiares, econômico-sociais e da predisposição genética.

Apesar das ressalvas, a literatura especializada acumulou evidências sólidas de que a subnutrição do feto está associada a diversas enfermidades crônicas na vida adulta. Hipertensão, doença coronariana, câncer e diabetes, são algumas delas.

Um levantamento conduzido no Brasil, Guatemala, Índia, África do Sul e Filipinas mostrou que o tamanho do bebê ao nascer e o ganho de peso nos 48 meses seguintes guardam relação com a resistência à insulina, distúrbio metabólico associado ao risco de diabetes na vida adulta.

Amamentar o bebê por pelo menos seis meses traz benefícios que vão além da redução do risco de diarreia e outras infecções. Um estudo randomizado revelou aumento de 6 pontos no QI das crianças amamentadas exclusivamente no peito, em relação às que não mamaram. Outros encontraram aumentos menores: da ordem de 1 a 3 pontos.

Além do ganho em inteligência, a amamentação oferece a vantagem de retardar a ovulação e as menstruações por períodos que vão além dos seis meses, evitando gestações muito próximas, responsáveis pelo aumento da mortalidade infantil e materna.

A amamentação nos níveis atuais, comparada com a falta dela, evita o nascimento de 53 milhões de crianças por ano, principalmente nos lugares mais pobres. Se todos os países reforçassem a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de amamentar exclusivamente no peito, pelo menos, durante seis meses, deixariam de nascer mais 12 milhões.

A amamentação reduz o impacto de enfermidades degenerativas, como hipertensão, diabetes, doença pulmonar obstrutivo-crônica, eventos cardiovasculares e obesidade, que consumiram globalmente 863 bilhões de dólares em assistência médica e perda de horas no trabalho em 2010.  Mulheres que amamentam seus filhos correm menos risco de câncer de mama antes da menopausa, e de câncer de ovário.

Em 1996, uma pesquisa sobre as políticas públicas para promover a amamentação, com o objetivo de reduzir a mortalidade infantil na América Latina, publicada na revista Health Policy Plan, demonstrou que basta investir 150 dólares para evitar uma morte por diarreia. A estimativa coloca a estratégia entre as ações mais eficazes para a sobrevivência das crianças.

Esse cálculo não leva em consideração os ganhos de QI nem a redução da incidência de doenças degenerativas, que consomem boa parte dos recursos da saúde, mesmo em países mais pobres.