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A caixa-preta do corpo humano

por Gabriel Bonis publicado 31/01/2012 14h22, última modificação 31/01/2012 19h26
Pesquisador canadense diz que compreensão limitada do sistema imunológico atrasa a vacina contra o HIV
Alan Bernstein

"Precisamos ter uma eficiência de 60% a 70% para considerar o uso de uma vacina na população", afirma Alan Bernstein. Foto: Gabriel Bonis

De San Diego*

Em um auditório no centro de convenções de San Diego, nos Estados Unidos, um renomado médico aponta para um slide. O mapa mostra as regiões do planeta que mais investem no tratamento do HIV. “Os gastos contra o vírus da Aids estão concentrados nos países ricos, enquanto os mais pobres, principalmente na África, carecem de apoio e concentram o maior número de infectados pela doença no mundo”, diz com ênfase Alan Bernstein, ex-diretor-executivo da Global HIV Vaccine Enterprise, na 53ª reunião anual da Sociedade Americana de Hematologia, pouco mais de uma semana após o Dia Mundial de Combate à Aids, em 1º de dezembro.

Após chamar os países ricos, que cortaram em 10% suas doações para o combate à Aids em 2010, a contribuir mais com a prevenção e o tratamento da doença, Bernstein comenta a dificuldade para desenvolver uma vacina eficaz contra o HIV (a RV 144, iniciativa mais promissora até o momento, garante apenas 31% de proteção). “Não sabemos como o sistema imunológico funciona, é uma caixa-preta na qual confiamos sem saber o que acontece lá dentro, e esperamos que a fórmula de uma vacina qualquer nos proteja.”

Ao longo desta entrevista, Bernstein, premiado pela Royal Society of Canada, importante entidade científica do país, elogia o sistema de tratamento gratuito do Brasil para portadores do vírus. “Precisamos de mais modelos como esse.” E destaca o sistema operacional da entidade de pesquisa que comandou, formada em 2003 pelos 24 líderes globais em vacinas do HIV e que hoje abriga organizações e pesquisadores de todo o mundo para acelerar o desenvolvimento de uma imunização contra o vírus. “É uma espécie de comunidade internacional de cientistas, na qual todos trabalham em conjunto”, diz.

CartaCapital: O senhor mencionou que os cientistas criam vacinas sem saber como elas funcionam no sistema imunológico humano. Como isso é possível?
Alan Bernstein: O desenvolvimento de vacinas tem sido extremamente bem-sucedido e quase tudo funcionou. Não tivemos necessidade de entender como essas vacinas oferecem proteção contra infecções virais ou bacterianas. Mas agora lidamos com patogêneses muito mais desafiadoras, como o HIV, e precisamos entender o que se passa no sistema imunológico quando usamos uma vacina teste. Assim, podemos melhorar sua eficácia ou saber por que não funciona.

CC: E como estamos no caminho para compreender melhor o sistema imunológico?
AB: Nos últimos anos, houve um grande progresso, mas o sistema imunológico é surpreendentemente complexo. Ele tem a difícil tarefa de reconhecer patogêneses nunca antes vistas e, ao mesmo tempo, garantir que não ataquem o nosso corpo. Estamos começando a entender esse tipo de comportamento, mas tudo isso é muito desafiador.

CC: A vacina mais promissora contra o HIV tem apenas 31% de eficácia. O que isso significa como avanço científico?
AB: Se um grupo de cem pessoas tivesse recebido a vacina, apenas 70 seriam contaminadas pelo vírus. Essa proporção é provocante, significantemente maior que zero, mas não é elevada o bastante para se considerar o uso na população. Mas o que seria aceitável? Pouco após os resultados da vacina, a Global HIV Vaccine Enterprise realizou um encontro com oficiais de saúde, representantes de governos e vacinologistas, entre outros profissionais, para avaliar isso. É consenso que esse valor é muito baixo, mas, se chegássemos a 60% ou 70% de eficiência e a uma proteção por um tempo prolongado, poderíamos considerar seu uso como uma vacina. A proteção de uma vacina contra a gripe, por exemplo, fica entre 80% e 90%.

CC: Desde os anos 80, quando o HIV surgiu, tivemos diversos estudos e testes clínicos, mas ainda não há uma vacina. Por que chegar a uma vacina é tão complexo?
AB: O HIV é muito diferente de outros vírus e bactérias com os quais lidamos no passado. Ele muda o seu código com muita frequência, diária ou semanalmente, enquanto o vírus da gripe o faz apenas uma vez ao ano. O HIV destrói células do nosso sistema imunológico e o torna incapaz de se defender de qualquer invasor. Por isso, uma vacina precisa agir rápido, antes que o vírus se estabeleça e comece a matar essas células. Mas isso não é simples, porque o vírus se esconde em meio a moléculas de carboidrato para ficar imperceptível ao sistema de defesa do corpo. Além disso, o HIV integra o seu próprio DNA, ou genoma, aos nossos cromossomos. Quando isso acontece, o nosso sistema imunológico, se tivermos uma vacina, pode matar o vírus. Por outro lado, se o vírus entrar em estado de dormência, pode permanecer assim por anos sem ser identificado antes de atacar novamente.

CC: Com esse panorama, em quanto tempo teremos uma vacina eficaz contra o HIV?
AB: Levará alguns anos, pois é um processo complexo. Quando se realiza um teste de prevenção, são necessárias entre mil e 2 mil pessoas integrantes do grupo de risco de contágio, devido ao seu estilo de vida. Aplicamos a vacina e observamos os voluntários por cerca de três anos. Logo, cada teste leva pelo menos esse tempo e mais dois anos de análise.

CC: Há outras iniciativas de prevenção ao HIV em teste, como o uso de antirretrovirais por uma pessoa não infectada antes de relações sexuais com um portador do vírus. Como o senhor analisa esse tipo de teste?
AB: Os testes mostraram que o uso do antirretroviral pelo indivíduo não contaminado impede o HIV de se estabelecer e se multiplicar em seu organismo. Mas o uso dessa medida como ação de saúde pública global precisaria considerar o alto valor dessas drogas, que seriam distribuídas para milhões de indivíduos saudáveis. Além disso, esses medicamentos apresentam efeitos colaterais sérios. Atualmente, não temos drogas nem dinheiro suficiente para fornecer o medicamento a quem já está infectado e morrendo de Aids. Por outro lado, esses testes mostraram ser possível -bloquear a transmissão do vírus.

CC: O tratamento gratuito fornecido aos portadores do HIV no Brasil é visto por muitos países como uma referência. É possível reproduzi-lo em escala global?
AB: Precisamos de mais modelos como os do Brasil, onde governos e comunidades trabalham em parceria para garantir a terapia antirretroviral a quem precisa e o monitoramento dessas pessoas para verificar como reagem aos remédios. Estamos vendo o avanço desse modelo para a África, onde tal ação é realmente necessária. No continente, há cerca de dez países onde mais de 80% dos infectados pelo HIV já estão conseguindo acesso à terapia antirretroviral. Basicamente, isso pode ser considerado acesso universal. Essas são histórias de sucesso importantes na África e na América do Sul, nas quais precisamos nos espelhar.

CC: O senhor acredita que o modelo de agrupamento de organizações e pesquisadores internacionais sob uma mesma instituição, como a Global HIV Vaccine Enterprise, aumentará as chances de descobrir uma vacina contra o HIV?
AB: No planeta, enfrentamos diversos desafios globais, desde infecções por HIV até o aquecimento global. A comunidade científica precisa encontrar maneiras de não abordar esses problemas de forma isolada, precisamos trabalhar juntos. A ciência é um esforço internacional e a Global HIV Vaccine Enterprise é um experimento interessante, que permite a entidades financiadas por governos, setor privado ou doações, trabalhar juntas de maneira maximizada e eficaz. É uma espécie de comunidade internacional de cientistas.

CC: O senhor defende ser possível ter zero de infecções por HIV em uma geração. Como chegar a esse resultado?
AB: Certamente, precisaremos usar diversas abordagens. Temos de considerar circuncisões, camisinha, parceiros sexuais limitados, vacinas ou microbicidas e educação infantil, entre outras medidas, para não termos mais infecções por HIV. É um objetivo possível e, se assumirmos o compromisso, nos esforçaremos mais para atingi-lo. Isso requer, porém, comprometimento, trabalho em conjunto e recursos dos países ricos para ajudar não apenas a sua população, mas também as pessoas de nações menos desenvolvidas.

CC: O acesso à informação é essencial para se alcançar esse objetivo, mas como levá-la de forma eficiente às pessoas?
AB: Cada público precisa de um tipo de mensagem diferente. O recado para atingir um usuário de droga intravenosa é completamente diferente do utilizado para uma jovem de 13 anos na África do Sul. Estive em muitos locais na África Subsaariana, por exemplo, onde pessoas jovens estão bem conscientes do perigo de sexo sem proteção e agora começam a tomar uma atitude. Mas os desafios são os problemas culturais locais e a maneira como lidar com esses conflitos. Os governos precisam trabalhar com educadores regionais para nos ajudar a entregar essa mensagem de forma efetiva.

CC: No Brasil, algumas cidades chegaram a considerar a distribuição de seringas a usuários de drogas como forma de evitar o contágio pelo HIV. Como o senhor enxerga esse tipo de ação?
AB: Por um lado, pode parecer uma mensagem a favor do uso de drogas, mas vejo que um governo tem duas escolhas: fornecer seringas limpas e evitar que o HIV se espalhe de um indivíduo para o outro, ou não fazer nada e ver o avanço do vírus da Aids. Sabe-se que no Leste Europeu e também no Canadá, a leste de Vancouver, a incidência de contaminação pelo vírus da Aids por uso de agulhas sujas é elevadíssimo e segue em crescimento. Estudos estão sendo feitos para identificar se oferecer agulhas limpas encoraja o uso de drogas. Mas creio que a resposta é não. Por outro lado, a distribuição de seringas limpas absolutamente diminui a propagação do vírus. É uma decisão de política pública difícil, mas fornecer as agulhas é uma forma efetiva de os governos conterem a transmissão do vírus.

*O repórter viajou a convite da International Myeloma Foundation.

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