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Vale-Cultura para videogames

por Piero Locatelli — publicado 26/02/2013 09h10, última modificação 26/02/2013 11h58
Ministra da cultura defende benefício para revista de fofoca, mas não quer deixar brasileiro gastar em jogos

Em março deste ano, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, terá sua primeira exposição sobre videogames. Farão parte da mostra 14 jogos adquiridos pelo museu, produzidos entre 1980 e 2009. Neste mês de fevereiro, a ministra da Cultura Marta Suplicy se mostrava alheia às discussões geradas pela decisão do museu norte-americano. Enquanto a repercussão gira em torno da legitimação do videogame como arte, a ministra afirma: “eu não acho que jogos digitais sejam cultura”. A declaração foi feita em audiência pública na última terça-feira 19 em São Paulo.

No evento, a ministra dizia que, a princípio, o Vale-Cultura não poderia ser usado para a compra de jogos digitais. Promessa de campanha de Dilma Rousseff, o programa dará 50 reais, 45 desses bancados pelo governo, para o trabalhador gastar naquilo que a ministra acredita ser cultura. Para os críticos, o benefício é uma forma de o governo se abster  em criar uma diretriz cultural e financiar quem não precisa de mais apoio estatal, como os espetáculos do Cirque du Soleil, filmes do Daniel Filho e musicais de Miguel Falabella.

 

“O que nós temos acesso não credencia o jogo como cultura. (...) Pode desenvolver raciocínio, pode deixar a criança quieta, pode trazer lazer para o adulto, mas cultura não é,” disse a ministra.

A ministra, portanto, entende como cultura revista de fofoca, mas não videogames. Em carta ao ministério, o presidente da Abragames (Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Jogos Digitais), Ale McHaddo, disse que a discussão sobre os jogos eletrônicos no campo artístico é antiga, mas não vê precedentes na fala da ministra. “Confesso que jamais havia ouvido um comentário questionando se jogos eletrônicos são cultura,” escreveu Ale.

Sob uma perspectiva econômica, o faturamento dessa indústria já supera a do cinema em diversos países, como a Inglaterra. Além disso, as inovações da última década permitiram a alguns desenvolvedores questionarem a linguagem dos jogos e testar seus limites. São jogos autorais, vendidos a preços módicos por desenvolvedores independentes, em contraposição aos preços estratosféricos cobrados pelos grandes produtores.

 

Duas ideias, mesmo ministério. Na mesma semana em que a ministra mostrava o que achava dos jogos digitais, o ministério deu um sinal oposto para os produtores de videogame. Em uma decisão inédita, os desenvolvedores do estúdio gaúcho Swordtales foram autorizados a captar 370 mil reais pela Lei Rouanet para a pós-produção do jogo Toren.

Em seu favor, Marta se disse aberta ao diálogo e pediu para que levassem exemplos ao ministério. Com os inúmeros casos que possam ser apresentados, espera-se que a ministra possa perceber nos jogos algum valor cultural. A própria Marta Suplicy já falou que o Vale-Cultura pode ser usado para comprar até “revista porcaria”. Que deixe, então, os trabalhadores comprarem videogames porcaria se bem entenderem.

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