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Uma semana de ‘Occupy’ de direita na Avenida Paulista

por Deutsche Welle publicado 24/03/2016 19h03, última modificação 25/03/2016 02h17
Acampamento contra o governo Dilma completa uma semana. Manifestantes dizem que só sairão quando Dilma deixar o Planalto
Mariana Estarque / DW
Barracas

Segundo organizadores, há cerca de 40 barracas na Avenida Paulista

Por Mariana Estarque

Eles não estão em Wall Street, mas em um dos principais centros financeiros de São Paulo. Não lutam contra as desigualdades sociais e econômicas – aqui o que vale é a meritocracia. Protestam, sim, contra o governo. Ao contrário dos movimentos Occupy de esquerda, os manifestantes acampados na Paulista são de direita e, segundo organizadores, não vão arredar pé da avenida até que a presidente faça o mesmo do Planalto.

A ocupação, que completou uma semana na quinta-feira 24, tem hoje quase 40 barracas instaladas na calçada da avenida, em frente ao prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). De acordo com os organizadores, há pelo menos 40 pessoas dormindo no local e centenas que se revezam no acampamento durante o dia. Os manifestantes têm pautas diversas, mas concordam que o mais urgente é tirar o PT do poder e apoiar a Operação Lava Jato.

Além do costumeiro pato inflável da Fiesp, há dezenas de cartazes e bandeiras do Brasil nas barracas do acampamento, que se autodenominou "Resistência Paulista". "Lula vá para Cuba", "Rico quando rouba vira ministro" e "Lula na cadeia" são alguns exemplos de cartazes.

O grupo também pendurou um boneco do ex-presidente, com uma cachaça na mão e uma faixa de "ministro da casa caiu". Ao lado, uma placa convida quem passa na avenida a se juntar à "malhação do Lula" no sábado. Próximo dali, um menino treinava socos em um boneco de Dilma, estimulado pelos gritos de "vagabunda" e "ladra" dos adultos ao redor.

Os elogios ao juiz Sérgio Moro também são recorrentes nas faixas da ocupação. "Mexeu com Moro, mexeu com a nação", dizia uma. Um cartaz gigante, com um buraco no meio, permite que as pessoas coloquem a própria cabeça no corpo de um agente da Polícia Federal e tirem fotos ao lado da imagem do juiz.

O display se tornou um ponto popular para turistas e paulistanos na avenida. "Ele é o cara", afirma Maria Custódio, de 46 anos, que caminhava pela rua quando decidiu parar uns minutos e posar com o Moro de papel. Nas grades da ciclovia, manifestantes colaram cartazes pedindo que os condutores buzinem em apoio à Lava Jato. A adesão dos motoristas, somada aos apitos e cornetas dos acampados, tornou a ocupação um local de barulho incessante.

Os momentos de maior euforia, entretanto, são quando carros da Policia Federal passam pelo acampamento. Em uma das ocasiões, agentes cruzaram a Paulista com os vidros baixos e fizeram um tímido 'joinha' com as mãos. "Você viu? Foi a PF!", comemoraram os manifestantes.

Desde que se instalaram na avenida, não faltaram doações. A Fiesp "acolheu" o protesto, como informa um dos cartazes no local, oferecendo banheiros e até almoço, segundo relatos dos manifestantes (a federação afirma que só representantes de movimentos ligados à entidade foram convidados para a refeição).

No dia em que a reportagem visitou a ocupação, o cardápio foi arroz, macarrão, frango e estrogonofe. De acordo com os organizadores, as quentinhas foram enviadas por simpatizantes – o acampamento não aceita doações em dinheiro.

Essa e outras regras de convivência, que incluem a proibição do consumo de bebida alcoólica e a delimitação de áreas onde é permitido fumar, estão afixadas em uma grade. Os manifestantes afirmam que as normas foram acordadas entre eles logo nos primeiros dias. Ficou decidido então que os participantes deveriam se cadastrar e que a ocupação seria "independente de movimentos ou partidos".

Além das quentinhas, o grupo recebeu mesas, cadeiras, tendas, lonas, colchonetes, edredons, sacos de dormir, um armário e até uma geladeira. Na terça-feira, pelo menos duas pessoas se aproximaram com a intenção de ajudar o acampamento. "Vim para saber o que eles estão precisando. Vou fazer um mutirão na minha rua e trazer doações de capas de chuva e frutas", afirma a psicóloga Lilian Zamith, de 66 anos.

Foto Pato Gigante
Um dos cartazes na ocupação defende o extermínio do PT

Enquanto isso, uma das organizadoras, a advogada e assistente social Carmem Lutti, de 65 anos, recolhe as roupas sujas. "Levo na minha casa para lavar e volto", diz ela, para quem a população tem dado "apoio incondicional" ao acampamento.

"Teve uma senhora japonesa que trouxe uma bandeja de sushi, foi muito lindo", conta ela, que se reveza na ocupação com os dois filhos. "Sou aposentada e trabalho como autônoma, mas, com a crise, estou com poucos clientes", afirma.

A história de Lutti é comum no acampamento. Muitos ali foram fortemente impactados pela crise econômica. É o caso do analista de sistemas Murilo Nunes, de 27 anos, que veio de Florianópolis para integrar a ocupação. "Vendo softwares, mas agora ninguém mais quer comprar. Está muito ruim, então decidi vir para cá", explica.

Considerado o idealizador do acampamento, o empresário Renato Tamaio, de 49 anos, também teve prejuízos com a crise econômica. "Cheguei a ter trinta funcionários, hoje são sete", afirma Tamaio, cuja esposa o ajuda na administração da empresa, enquanto ele se dedica ao protesto.

Apesar de não faltar comida, viver na ocupação não é exatamente confortável. "Estou tomando banho há dias com lenços umedecidos. Agora uma pessoa me cedeu o apartamento, aqui perto, para eu poder tomar uma ducha", conta Nunes.

Isabela Trevisana, de 19 anos, veio de São Vicente, no litoral paulista, e tem tomado banho na casa da avó, que mora em São Paulo. Apesar de ter as maçãs do rosto e os olhos pintados em tons vibrantes de verde e amarelo, ela tem as pálpebras pesadas de sono. "Estou muito cansada, não aguento mais. Aqui quase não consigo dormir, pelo barulho", confessa. Mas logo se corrige: "tudo bem, não estamos aqui para descansar".

O protesto começou na última quarta-feira, horas após o anúncio da nomeação do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil. Com a divulgação dos grampos por Moro, contendo conversas entre Dilma e Lula, a manifestação cresceu. No início da madrugada, a maior parte das pessoas havia deixado o local, mas outras decidiram manter o protesto.

Na quinta-feira, segundo o mentor da ocupação, as primeiras tendas foram instaladas. Tamaio já tinha experiência com ocupações em Brasília - ficou dois meses em um "Acampamento Patriótico" - e trouxe algumas das suas 250 barracas para a Paulista.

No início, o grupo se fixou na avenida, que ficou fechada durante quase 40 horas. A manifestação foi dispersa pela polícia militar na sexta-feira com jatos d'água, quando um protesto pró-governo estava marcado no mesmo local. Na mesma noite, alguns integrantes retornaram e reergueram o acampamento, dessa vez na calçada da Fiesp.

Apesar de ser chamado por alguns de Occupy Paulista, Tamaio nega que o grupo tenha se inspirado no movimento, que surgiu nos Estados Unidos em 2011, na esteira da Primavera Árabe e das manifestações na Espanha. "Nós, da direita, estamos usando as ferramentas da esquerda, mas de maneira civilizada. Na verdade, a ideia veio das manifestações na Ucrânia", diz.

Uma das organizadoras, Patrícia Bueno, de 35 anos, do movimento Endireita Brasil, rechaça o termo ocupação. "Estamos em um local público, não estamos fazendo expropriação, ocupando propriedade particular. É um acampamento horizontal e espontâneo, de resistência pacífica", afirma ela, que faz doutorado em Ciências Sociais.

Os manifestantes têm diferentes posições políticas e origens sociais, algo que eles gostam de enfatizar. Tamaio, do movimento Pátria Amada, fala espontaneamente e com naturalidade de uma intervenção militar.

Preocupado com a forma como o acampamento seria retratado, Nunes se aproxima para ressaltar que não concorda com Tamaio. "Há muitos intervencionistas aqui. Mas eu sou contra. Nesse momento, isso seria muito radical. As instituições ainda estão funcionando. Só que o PT está nos deixando sem outras opções", afirma.

Para Isabela, que faz parte do movimento Mobilização Brasil, a intervenção militar não é uma possibilidade. "Já pedi muito isso, mas temos muitos oficiais no meu grupo, e eles me dizem que não vai acontecer. Infelizmente, as Forças Armadas já não são as mesmas de 1964. Muita gente que veste a farda hoje não é patriota", afirma. A jovem é a favor de retirar Dilma e o vice, Michel Temer (PMDB), para convocar novas eleições.

Já para uma das principais organizadoras, Patrícia Bueno, uma intervenção militar seria um absurdo. "Pelo amor de Deus, nem pensar nisso", diz. A estudante defende que a presidente renuncie, para abreviar a crise. "Seria o mais prático."

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