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Política

Entrevista

"Uma política diferente é possível e necessária", diz Marcelo Freixo (PSOL)

por claudiobernabucci — publicado 07/11/2012 13h21, última modificação 07/11/2012 13h25
Candidato derrotado à Prefeitura do Rio de Janeiro diz que seu maior desafio é manter a ativa a mobilização popular que sustentou sua campanha
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Candidato à prefeitura do Rio, Freixo foi quem mais arrecadou na internet. Foto: Luisa Côrtes / Divulgação

Os guarda-costas o seguem como sombras silenciosas em qualquer momento da sua jornada, mas não parecem perturbar a aparente normalidade da vida do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Além disso, o que mais surpreende é a serenidade que emana da sua alma. A força interior que demostra o ex-candidato a prefeito do Rio de Janeiro só pode ser explicada por uma paixão ideal incomum, que ele confirma a cada passo da entrevista. Resistir à pressão desumana das ameaças de morte por parte da "milícia" carioca - sem abrir mão do próprio compromisso político e dos deveres de família - denota virtudes raras, que ele disfarça atrás da modéstia do anti-herói. Recém derrotado por Eduardo Paes (PMDB) na disputa pela Prefeitura, Freixo analisa com CartaCapital o significado deste revés "vitorioso" e outras questões nacionais, denotando uma estatura política que vai alem das fronteiras estaduais.

CartaCapital: Qual é o significado de quase um milhão de votos que você conquistou no Rio de Janeiro? 

Marcelo Freixo: Perdemos uma reeleição, não uma simples eleição. Perdemos para uma máquina poderosa, verdadeiro laboratório do capital brasileiro, à luz de todos os investimentos em curso, onde - não por acaso -  a maior diferença de votos se deu nos lugares onde foram feitas obras. Lutamos contra uma aliança de 20 partidos, tendo só 1 minuto e 22 segundos de televisão (contra os 16 minutos de Paes), mas compensamos esta desvantagem com uma militância apaixonada e uma intensa participação da sociedade. Conseguimos os nossos votos - 28% - também em áreas tradicionalmente difíceis para os movimentos sociais - como a zona norte e oeste - e nos consolidamos como uma nova alternativa de esquerda.

CC: Quais as razões da sua satisfação na derrota?

MF: O fato de ter aberto um diálogo permanente com a sociedade, que se ampliou graças às redes sociais. A nossa foi uma campanha vitoriosa também pelos métodos participativos. Conseguimos reafirmar que é possível e necessária uma politica diferente, em contraste com a lógica da governabilidade entre as cúpulas partidárias. “Não ganho um real, estou na rua por ideal” estava escrito nas camisetas dos nossos militantes. Os nossos resultados se explicam também com essa escolha de puro voluntariado, única no Brasil: surgiram autonomamente mais de 100 comités de cidadãos, arrecadamos pela internet contribuições que nem Marina (Silva) e Dilma (Rousseff) conseguiram nas campanhas presidenciais. O grande desafio será de manter essa mobilização de forma permanente. Trabalharemos para que os vários comitês de cidadãos (sobre moradia, economia, ambiente, esporte, etc.) se transformem em estruturas permanentes, imprimindo jornais, elaborando propostas pela cidade, em plena autonomia.

CC: Personagens importantes da cultura declararam que Marcelo Freixo representa a nova política brasileira. Você se identifica com essa definição?

MF: Nós queremos representar e construir exatamente isso. Veja os outros partidos: todos aparecem só durante a campanha eleitoral e, infelizmente, isso acontece também com o PT, que está recolhendo os frutos do que plantou. No Rio, em particular, virou um satélite do PMDB. Tomara que eles entendam e mudem daqui para frente. Alám disso, a participação que caracterizou o nosso movimento teve o mérito de reduzir a personificação da política brasileira. Essas são as diferenças entre nós e os outros partidos. Mais do que partidos, existem muitas siglas no Brasil. O PSOL sai diferente desta eleição, ao lado de um movimento que é maior do que o partido; o que determinará uma recíproca contaminação.

CC: Como projetar um governo futuro sem alianças com os partidos, digamos, tradicionais?

MF: O processo de participação da sociedade não acabou no dia 7 de outubro. Naquela data teve um novo início, para acumular mais força nos anos futuros. Esta é logica da "primavera carioca", como foi chamada pelos jovens.  Estou disposto a repetir o desafio da eleição em 2016, mas a questão central é consolidar a aliança com a sociedade civil, construir uma oposição de  qualidade, que não faça só criticas, mas que proponha alternativas qualificadas. Eventuais alianças em 2016 devem ser o fruto deste trabalho de quatro anos na sociedade, através da elaboração de propostas dos diferentes núcleos e comitês. Queremos chegar assim a uma nova correlação de forças, evitando qualquer compromisso de cúpula. Em perspectiva, PT e PDT, por exemplo, que podem ter uma concepção de cidade próxima à nossa, serão bem-vindos em uma aliança para a mudança. Com PMDB e PSDB temos uma concepção de cidade diferente e alternativa: com eles não será possível.

CC: Inevitável refletir nesses dias sobre o “mensalão”. Qual é a sua posição à respeito?

MF: Me assusta um pouco, hoje,  a postura do PT em relação ao mensalão. Erra de novo quando afirma que o julgamento é um grande golpe, que não respeita o passado das pessoas. Acho que o melhor caminho para o PT seria admitir o inevitável: o mensalão existiu, é um fato. O julgamento está sendo feito pelo Supremo e não pela Rede Globo. Se defender com a argumentação que foi só caixa dois, eu considero a pior saída. Independentemente da postura da mídia - que todos sabemos não poderia ser diferente - acho que o PT deveria tratar de dar uma virada de página importante, e se - como parece - tem gente que está pensando nisso, eu acho ótimo. O PT é importante pela democracia no país. Ao mesmo tempo, me entristece o Lula - pelo qual eu tenho um afeto gigantesco - apoiando Eduardo Paes ou apertando a mão do (deputado federal Paulo) Maluf. Agora, tem que ser claro que o PT não vai acabar com o mensalão. Certa prática de governo, baseada na corrupção, sempre existiu e, antes do PT, foi o instrumento de governo do PSDB, do DEM e de todos eles. O problema se acentuou quando também o PT quis repetir aquelas práticas, olhando pela governabilidade da mesma forma como os outros partidos sempre olharam. Não me interessa que os fins eram diferentes se os meios foram iguais.

De qualquer forma, me preocupa que, entre tantos comentários, ninguém fala que sem uma reforma politica o mensalão nunca será divisor de águas na política brasileira, como já se notou aqui no Rio na eleição marcada por todos os problemas que geraram os mensalões. Se o poder econômico e o financiamento privado continuarão determinantes para a política, é uma bobagem pensar que a justiça vai favorecer uma nova política. Não estou com isso dizendo que o julgamento do mensalão não seja importante; mais do que isso, acho que ele é justo. Agora, este julgamento não nos dá outra política nem outro Judiciário. A ideia de que o Judiciário é o espaço salvífico da politica é um equivoco.

CC: Os equilíbrios internos da Justiça mudaram com a evolução da democracia brasileira? A Justiça é agora mais independente e com maior autoridade? 

MF: Não vejo isso. Nos tribunais, pelo menos, não. A atuação e imagem do Supremo não se reflete na Justiça brasileira. Acho extraordinário um Joaquim Barbosa virar presidente do Supremo. Os símbolos não são detalhes. Agora, com todas as suas contradições, este Supremo é mais avançado do que a Justiça  brasileira.

CC: Me parece que tampouco se fala muito de novas medidas para combater a corrupção....

MF:  Corrupção não é questão de comportamento individual, mas problema estrutural brasileiro. É evidente para todos que tem compra de deputados através das emendas. À politica, eu digo: queremos continuar ou parar?

CC: Então chegamos ã questão da reforma política......

MF: Só é possível pensar em reforma política através de uma Constituinte. Este Congresso não tem a menor condição de fazer uma reforma política, porque não tem vontade de eliminar os próprios instrumentos de poder. Não vai cortar na própria carne. Portanto, é necessária uma ruptura no sistema eleitoral brasileiro, mas não vejo ainda as condições: a correlação de forças é desfavorável. Essa batalha tem que começar e acumular força para um  novo começo republicano, para que se realize um sistema onde quem ganha uma eleição tenha a possibilidade de governar, acabando com os governos engessados.

CC: Vamos concluir a nossa conversa com os problemas da sua segurança: as ameaças de morte não se repetiram recentemente. Você se sente mais tranquilo?

MF: Não tenho tranquilidade nenhuma. Estou pagando a CPI da milícia que resultou em 700 prisões e dezenas de ameaças de morte. A decisão da candidatura e a campanha eleitoral aumentaram minha visibilidade e proteção, mas o período que se abre agora é mais perigoso. Em 2008 eu declarei que a milícia era um problema do Rio, que se não fosse combatido viraria problema nacional. Infelizmente é o que aconteceu. A milícia está presente em vários pontos do Brasil, como Bahia e Nordeste. Candidata homens a deputado e vereador. Ela tem um projeto de ocupação do território para a ocupação de poder. A milícia é uma mafia e, por consequência, quando a tensão esfria aumenta a sua influência e é mais perigosa.