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Política

Eleições 2012

Tudo, menos a coerência

por Matheus Pichonelli publicado 20/01/2012 12h20, última modificação 06/06/2015 18h15
Se aceitar aproximação de Kassab, PT ganha uma máquina poderosa para a eleição. O custo é a contradição aos olhos do eleitor

O que o prefeito Gilberto Kassab oferece ao PT parece tentador. Em troca de um vice, o líder do PSD promete reunir outras siglas em torno de Fernando Haddad, apoio dos vereadores kassabistas e a interlocução com líderes religiosos.

O sonho de consumo do PT é encontrar para Haddad um novo José Alencar. Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e recém-filiado ao PSD, poderia ser o nome.

Como Alencar na chapa de Lula em 2002, Meirelles ajudaria a acalmar os ânimos da classe média ainda resistente ao PT, sobretudo em São Paulo. Kassab, ao que consta, prefere outros nomes. E tem seu plano A: lançar Guilherme Afif, vice-governador de São Paulo, em uma cabeça de chapa, ou indicar um vice para José Serra, caso o tucano decida se lançar candidato.

No PT, tudo parece negociável, e, apesar da gritaria ensaiada pelo diretório paulistano, a ideia de se aliar ao prefeito parece agradar muita gente no partido. Sabendo disso, Kassab foi direto à rainha do xadrez: Luiz Inácio Lula da Silva.

Nessa época do ano, tempo extra na propaganda de tevê e apoio nas bases eleitorais costumam falar mais alto do que a coerência. Falta combinar com o candidato, aparentemente o mais cauteloso sobre o andamento da negociação.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Haddad classificou como “um gesto de generosidade” o elogio do prefeito ao PT, mas avisou: “não podemos deixar de ter clareza de que o projeto que está em curso não é esse”. E lembrou que a conversa com o PSD ainda é “muito nova e precária”.

Faltou dizer que é perigosa. Kassab, em seu penúltimo ano como prefeito, praticamente mais cuidou do seu PSD do que dos problemas de sua cidade, como a presepada na cracolândia, as promessas não cumpridas (e as áreas verdes? e os corredores de ônibus?), os absurdos das leis de zoneamento, a moralização da vida noturna por asfixia, a militarização das subprefeituras, as suspeitas na inspeção veicular ambiental e uma implosão malsucedida – que ele negou ser malsucedida.

Chega à reta final mal avaliado e sem ter conseguido mostrar ao eleitor outra marca sua a não ser a habilidade em costurar acordos políticos (é amigo dos tucanos em São Paulo, e dos petistas, no governo federal) e a Lei Cidade Limpa, que já data da gestão passada.

Não por outro motivo, vê sua popularidade cair a cada nova pesquisa de opinião, embora tenha em mãos uma carta potente para reverter o quadro: a possibilidade de acelerar os gastos públicos do Orçamento em pleno ano eleitoral (leia mais ).

Hoje, contudo, sair na foto ao lado de Kassab seria tão ou mais eficaz do que levar ao palanque o Compadre Washington. Em recente pesquisa Datafolha, boa parte dos eleitores demonstrou estar disposto a votar num candidato apoiado por Lula ou Dilma Rousseff – estes, sim, mais populares e mais bem avaliados que o prefeito paulistano.

Na oposição, o PT passou os últimos quatro anos apontado os erros da gestão Kassab, e muitos ainda se lembram da tensa campanha em 2008 entre Marta Suplicy e Kassab, eleito pelo arqui-inimigo DEM. De repente, dizer que estava tudo bem, que tudo foi um engano e que todos cabem no mesmo barco fatalmente soará estranho.

O eleitor pode ser influenciado pelo tempo de tevê. Mas, em política, se tem algo que ele não perdoa é a contradição.

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