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Política

Operação Lava Jato

Senadores do PT teriam recebido ao menos R$ 4 milhões, apontam petições

por Gabriel Bonis publicado 08/03/2015 16h41, última modificação 09/03/2015 06h46
Para Procuradoria-Geral da República, há indícios de que Gleisi Hoffman e Lindberg Farias sabiam que repasses recebidos da Petrobras eram ilícitos
Agência Senado

As petições para a abertura de inquérito contra políticos implicados no esquema de corrupção na Petrobras apontam que os três senadores do PT investigados pela Operação Lava Jato teriam recebido ao menos 4 milhões de reais de forma ilícita. Nos documentos, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, indica haver indícios de que a ex-ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffman, e Lindberg Farias sabiam da irregularidade das verbas ao pedirem doações para suas campanhas. O PGR pediu a investigação de ambos, além do ex-ministro da Saúde, Humberto Costa.

Os três podem ser acusados de corrupção passiva qualificada e lavagem de dinheiro, pois os valores teriam sido repassados após “processos de ocultação e dissimulação dos valores provenientes dos crimes contra a Administração”. A instauração do inquérito deve ocorrer em um prazo inicial de 30 dias e os senadores serão convocados a depor.

Nas petições, Janot afirma que os políticos não apenas tinham consciência de que os valores “eram provenientes das vantagens indevidas destinadas aos diretores e altos funcionários da Petrobras”, como atuavam, direta ou indiretamente, pela continuidade do esquema.

A petição de Hoffman destaca que o doleiro Alberto Youssef, um dos operadores do esquema beneficiado por um acordo de delação premiada, afirmou que a ex-ministra tinha conhecimento da estrutura que envolvia a distribuição e repasse de comissões no âmbito da Petrobras”. Segundo Youssef, ela se beneficiou do esquema durante sua campanha para o Senado em 2010. O doleiro afirmou ter repassado pessoalmente 1 milhão de reais desviados da estatal para a campanha da petista, entregando o valor a “um senhor em um shopping de Curitiba”.

De acordo com Janot, há elementos que “aparentemente confirmam o teor das declarações dos colaboradores”. Entre eles, está uma agenda de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras por indicação do PP, contendo diversas anotações de repasses de propina. Costa, que também tem um acordo de delação premiada, afirma que o nome de Hoffman consta na agenda pelas iniciais “PB” e “1,0”.

Na petição, Janot conclui haver elementos suficientes para justificar a instauração de inquérito e que a senadora “pelo menos aderira às condutas dos investigados desde o princípio”. O PGR pediu a pesquisa das doações a Hoffman na campanha de 2010, ao Comitê Financeiro Único e do Diretório Estadual do Partido dos Trabalhadores para averiguar se entre os doadores aparecem empresas investigadas pela Operação Lava-Jato.

Lindberg Farias teria recebido ao menos R$ 2 milhões

De acordo com os pedidos de abertura de inquérito, o senador Lindberg Farias teria recebido o maior repasse entre os petistas. Paulo Roberto Costa afirma que Farias solicitou e recebeu dois milhões de reais para sua campanha ao Senado em 2010.

Costa diz que o pedido ocorreu em uma reunião previamente agendada em seu escritório na estatal no Rio de Janeiro. A reunião provavelmente consta da agenda de Costa na Petrobras, aponta a petição. O senador estava acompanhado de seu assessor José Antônio Silva Parente.

A forma como o repasse foi feito, no entanto, apresenta desencontros. Costa alega ter acionado Youssef, mas desconhece como o pagamento foi operacionalizado. O ex-diretor afirma poder garantir que o depósito foi realizado, “caso contrário haveria reclamação, como de fato ocorria”.  Por outro lado, não se recorda de ter realizado registro do repasse. Em outra parte do depoimento, ele diz que Farias agradeceu o repasse posteriormente “provavelmente em um evento social, dizendo que ‘aquele assunto estava resolvido’”.

Por outro lado, Youssef disse não ter sido responsável pela “operacionalização” do pagamento e negou conhecer Lindberg e seu assessor, além de afirmar nunca lhe terem feito um pedido para fazer algum pagamento a Farias. Ele completa dizendo que Costa “pode ter se confundido” e que o repasse pode ter sido realizado diretamente pelas empresas.

O inquérito destaca então a transferência de cerca de um milhão de reais pela construtora Camargo Corrêa, implicada na Lava Jato, para Farias, além de 20 transferências do Diretório Nacional do PT em 2010. De acordo com a petição, o Diretório Nacional do PT transferiu a campanha de Farias altos valores de grandes construtoras, a maioria delas envolvidas no cartel da Petrobras, “no mesmo dia ou no dia seguinte” ao recebimento pelo partido destes valores, em geral abatendo de 5% a 10%.

Na petição, são citadas diversas transferências de construtoras implicadas na Lava Jato ao PT, que as repassou a Farias. Um exemplo é uma transação de 1 milhão de reais em 03 de agosto de 2010, realizada pela construtora Andrade Gutierrez ao Diretório Nacional do partido. No mesmo dia, a campanha do senador recebeu 950 mil, um desconto de 5% “que pode representar o valor cobrado por eventual operador”. O documento cita outras transferências de construtoras por meio do PT insinuando que o senador por ter recebido um valor maior de propina de outras construtoras.

Janot ainda cita um documento apreendido na sede da Queiroz Galvão com diversas anotações de doações, na qual aparece o nome “Lindinho” à frente da quantia de “200” - uma indicação de 200 mil reais. O executivo Júlio Gerin de Camargo, um dos delatores da Lava Jato, confirmou o pagamento de propinas na Petrobras e realizou doações de 200 mil a Farias. Ele, contudo, nega que essa doação fosse propina.

Na petição, Paulo Roberto Costa revela ter sido novamente procurado por Farias em 2014“para aproximar-se das empresas e pedir dinheiro para a campanha do parlamentar” naquele ano. Ele ainda diz que Faria o indicaria Secretário de Estado caso ganhasse o governo do Rio de Janeiro.

Janot aponta que o senador tinha conhecimento da irregularidade dos valores recebidos, pois “não haveria qualquer justificativa lícita razoável para o recebimento de valores por intermédio do então Diretor da Petrobras”. O PGR pediu os registros das entradas de Farias na Petrobras e das agendas de reunião com Costa para que se identifique alguma visita ou reunião entre os dois em 2010.

Amigo de Humberto Costa teria pedido R$ 1 milhão

O ex-diretor da Petrobras também implica Humberto Costa no esquema de corrupção da Petrobras. Paulo Roberto Costa diz que em 2010 foi procurado por Mario Beltrão, um amigo de longa data do senador que lhe pediu dinheiro para a campanha ao Senado de Humberto Costa. Ele não se lembra se o encontro ocorreu na Petrobras ou em Pernambuco, mas alega que o valor foi de 1 milhão de reais.

O ex-diretor da Petrobras concordou com o repasse porque o senador “era um expoente dentro do PT” e determinou que Youssef disponibilizasse a quantia. Mais uma vez, Youssef negou ser o responsável pelo repasse e alegou não conhecer Beltrão, Costa ou qualquer um de seus assessores.

Segundo Janot, o descompasso entre as declarações de Youssef e Paulo Roberto Costa “não esconde algumas certezas”. Para o PGR, “na essência” as declarações dos delatores “sempre se provaram verdadeiras”. Ele ainda questiona o fato de que dos 5,2 milhões declarados pelo senador como receita na campanha em 2010, 1,5 milhão partiram de transferencias da Camargo Corrêa e da Construtora OAS, investigadas na Lava Jato.

Janot também pediu acesso à agenda de reuniões de Paulo Roberto Costa na Petrobras e aos registros de entradas de pessoas na sede da estatal no Rio para verificar a existência de alguma reunião entre Beltrão e Paulo Roberto Costa em 2010.

Outro lado

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Lindberg Farias negou ter participado do esquema de corrupção na Petrobras. Segundo ele, o valor recebido por sua campanha foi doado legalmente pela empreiteira Andrade Gutierrez, também investigada na Lava Jato. Farias admitiu, no entanto,  ter ido à sede da Petrobras para pedir doações. “Você pode até dizer que é impróprio. Só que não é ilegal”, disse.

O senador ainda afirmou não saber que o dinheiro doado pela empreiteira poderia ser de propina e que não teria como saber a origem do repasse da empreiteira. "Você acha que alguém disse: 'Olha, esse dinheiro aqui que eu vou te ajudar é de uma propina?' Isso não existe”.

Humberto Costa, líder do PT no Senado, afirmou em sua conta no Twitter ter recebido “com surpresa e indignação” a inclusão do seu nome entre os investigados. Ele reitera que todas as doações recebidas em campanhas eleitorais de que participou “foram legais, auditadas, julgadas e aprovadas pela Justiça Eleitoral” e que deixou há quatro meses à disposição do STF, do Ministério Público e do Senado “todos os seus sigilos bancário, fiscal e telefônico”.

O senador afirmou ainda estar pronto para cooperar com todas as etapas das eventuais investigações e que espera o rápido arquivamento do caso, “em razão de estar certo da insubsistência de qualquer ilação” contra ele.

Em sua conta no Facebook, Gleisi Hoffman disse ter recebido a notícia da investigação “com tristeza” por ter seu nome envolvido em um caso de corrupção, mas que está “tranquila”. “Não temo a investigação e terei condições de provar que nada tenho com este esquema que atacou a Petrobras. A investigação é oportunidade de esclarecimento dos fatos e espero que seja a forma de acabar com o julgamento antecipado”, afirmou.

Hoffman ainda nega conhecer ou ter mantido contato com Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef e diz estar disposta a colaborar “com todo o processo investigatório”.