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Política

A crise política

Reflexões a quente sobre o golpe

por Redação — publicado 14/07/2016 19h20
32 intelectuais progressistas escrevem sobre a crise nacional em "livro intervenção" da Editora Boitempo
J. Battista - Câmara dos Deputados
votação impeachment Câmara

Votação do impeachment na Câmara, sob a presidência de Eduardo Cunha, em 13 de abril

Um “livro intervenção”. Essa é a proposta da Editora Boitempo, que lança nesta sexta-feira (15) em São Paulo “Porque gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política”. Escrito a quente.

O lançamento do livro acontece menos de três meses depois da votação do impeachment da presidenta Dilma Roussef na Câmara dos Deputados. São textos curtos, mas densos, cobrindo diferentes aspectos da crise. Os 32 autores tiveram três semanas para preparar suas reflexões, todas inéditas.

O arco de autores e autoras tem em comum o fato de serem todos vinculados a vertentes progressistas de pensamento, mas há uma mescla de intelectuais acadêmicos, ativistas e jornalistas, entre eles a colunista Djamila Ribeiro, o articulista Gilberto Maringoni e o jornalista Mauro Lopes, os três de CartaCapital.

Escreveram também para “Porque gritamos golpe?” André Singer, Boaventura de Sousa Santos, Ciro Gomes, Eduardo Fagnani, Esther Solano, Guilherme Boulos, Jandira Feghali, Juca Ferreira, Leda Maria Paulani, Marilena de Souza Chaui, Marina Amaral, Mauro Lopes, Michael Löwy, Pablo Ortellado, Paulo Arantes, Renan Quinalha e Roberto Requião, entre outros, além da participação da cartunista Laerte e de ensaio visual do coletivo Mídia Ninja.

Os autores cederam gratuitamente seus textos, o que possibilitou deixar o livro a preço de custo (R$15,00 o impresso, R$7,50 o e-book).

O lançamento será na Quadra do Sindicato dos Bancários, no centro de São Paulo, a partir de 18h.

Leia a seguir um trecho do artigo de Mauro Lopes sobre o protagonismo da mídia conservadora no golpe.

As quatro famílias que decidiram derrubar um governo democrático

O golpe nem está encerrado quando escrevo este texto; o último ato no Senado está previsto para ocorrer em agosto de 2016 e ainda é junho. E, com as seguidas crises do governo golpista de Temer, nem sequer é possível assegurar que ele será bem-sucedido em seu lance final. Portanto, o desafio é escrever a quente, ainda com as emoções à flor da pele num país em que não há análise, no meio da batalha ainda em curso, realizada a frio. Todos têm um lado no Brasil: a favor ou contra o golpe. Como escapar da ditadura do curto prazo e buscar uma análise para o comportamento da imprensa que perdure um pouco além do horizonte? Escolhi olhares que informam uns aos outros e oferecem minimamente elementos de reflexão:

  1. O olhar da história (1964-2016)
  2. O olhar da imprensa internacional
  3. O olhar das técnicas elementares do jornalismo
  4. O olhar das relações entre o governo e a imprensa

 

 1. A história

Quatro famílias decidiram: Basta! Fora! Os Marinho (Organizações Globo), os Civita (Grupo Abril/Veja), os Frias (Grupo Folha) e os Mesquita (Grupo Estado). A essas famílias somaram-se outras com mídias de segunda linha, como os Alzugaray (Editora Três/Istoé) e os Saad (Rede Bandeirantes), ou regionais, como os Sirotsky (RBS, influente no sul do país). Colocaram em movimento uma máquina de propaganda incontrastável, sob o nome de “imprensa”, para criar opinião e atmosfera para o golpe de Estado contra o governo de Dilma Roussef, eleito por 54 milhões de pessoas em 26 de outubro de 2014.

A máquina de mídia dessas famílias deixou de fazer jornalismo no termo da palavra – como atividade voltada ao registro e reflexão cotidianos sobre a realidade – para tornar-se uma máquina de propaganda partidária. Essa condição foi admitida e antecipada em 2010 por Maria Judith Brito, presidenta da Associação Nacional de Jornais (ANJ), em entrevista ao jornal O Globo. Na ocasião, a executiva do Grupo Folha afirmou textualmente que “esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”[1].

Foi o que algumas dessas famílias (os Marinho e os Mesquita, por exemplo) já havia feito para derrubar o governo João Goulart em 1964. E, antes disso, em 1954, contra Getúlio Vargas. É espantosa a simetria discursiva das máquinas de propaganda na ofensiva contra Goulart e agora contra Dilma.

O mais famoso editorial a favor do golpe em 1964 foi o do Correio da Manhã –da família Bittencourt, que depois arrependeu-se amargamente e viu seu jornal ser asfixiado pelo regime militar até a morte. O título do editorial de 31 de março tornou-se tristemente famoso: “Basta!”. Tinha sido precedido por outro, “Fora!”.

Publicou o Correio da Manhã: “Se o Sr. João Goulart não tem a capacidade para exercer a Presidência da República e resolver os problemas da Nação dentro da legalidade constitucional, não lhe resta outra saída senão a de entregar o governo ao se legítimo sucessor”.

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Cinquenta e dois anos depois, o Estado de S. Paulo publicou em 13 de março de 2016 editorial com o mesmo título, “Basta!”, e texto similar, mas bem menos articulado e educado que aquele dos Bittencourt: “Chegou a hora de os brasileiros de bem, exaustos diante de uma presidente que não honra o cargo que ocupa e que hoje é o principal entrave para a recuperação nacional, dizerem em uma só voz, em alto e bom som: basta!”.

Como na campanha do início dos anos 1960, as famílias que controlam as grandes mídias nacionais assumiram um protagonismo político decidido, sob a liderança dos Marinho. Na televisão, foram sucessivas edições do Jornal Nacional voltadas a destruir Lula – com o objetivo de criminalizá-lo a ponto de impedir sua candidatura nas eleições de 2018, o PT e, finalmente, Dilma. O Jornal Nacional não é mais o mesmo. Apenas nos últimos quatro anos, desde 2012, perdeu um quarto de sua audiência, mas ainda assim é capaz de manter 40% da audiência nas regiões metropolitanas do país.

Mesmo fragilizado em relação aos últimos anos, o Jornal Nacional foi o principal instrumento da campanha, em articulação com a tropa de procuradores e delegados sob a liderança do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Na véspera do verdadeiro sequestro de Lula, travestido de “condução coercitiva” pela Polícia Federal em 5 de maço de 2016, houve uma edição histórica do JN: 40 minutos de massacre sistemático ao principal líder popular do país desde Getúlio Vargas.

Assim o foi, meses e meses a fio. Manchetes convocando manifestações contra o governo; vazamentos de investigações em articulação com a operação Lava Jato; editoriais, artigos, entrevistas, pesquisas. As quatro famílias, seguidas pelas demais, operaram como numa rede nacional oficial do golpe, numa articulação inédita na história do jornalismo no país – a competição, ícone maior do capitalismo e do discurso de todos esses meios, foi deixada de lado em prol de uma colaboração aberta para derrubar o governo.

O enredo foi o mesmo. Em 2 de abril de 1964, o editorial de O Globo celebrava o golpe atacando:

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Hoje isso soa inacreditável, mas o golpe militar foi articulado sob o discurso de que ele era feito para preservar as instituições, a democracia e os direitos individuais. Como agora. Novamente em O Globo, o porta-voz informal do grupo, o jornalista Merval Pereira, publicou artigo em tom editorial no dia 6 de março de 2016 escancarando o clamor por um golpe de Estado num quase transplante do eixo discursivo contra Jango; liquidou-se a democracia anunciando à praça sua defesa:

Alguma coisa terá de ser feita, e rápido, diante da deterioração do ambiente econômico e da mudança de patamar da crise política, com a operação Lava-Jato tendo chegado literalmente às portas do ex-presidente Lula. Se as forças políticas que representam a maioria do país, hoje claramente posicionada contra o PT, não se unirem em busca de uma saída democrática para a crise, estaremos diante de uma ameaça de retrocesso institucional.

Em 1964 o fantasma era o comunismo, Cuba, a União Soviética e os sindicalistas. Mais de cinquenta anos depois, enquanto os Estados Unidos celebravam a reconciliação com a ilha, a mídia brasileira continuou a usar Cuba como espantalho, somando a ela a Venezuela e substituindo “comunistas” por “petistas”; criou-se até uma expressão que evoca a sonoridade de “comunismo”: o “lulopetismo”.

Por Que Gritamos Golpe? 176 páginas. 15 reais. Editora Boitempo

2. A imprensa internacional

A mídia das quatro famílias meteu-se numa queda de braço com a imprensa internacional na narrativa do golpe. Enquanto no Brasil alardeavam um processo constitucional de impeachment, o ataque à democracia foi denunciado em todos os principais meios de comunicação do planeta.

Dois editoriais consecutivos do The New York Times desmontaram todo o edifício discursivo do império midiático brasileiro. No primeiro, em 15 de maio, o mais relevante jornal do planeta afirmou que Dilma caiu por “permitir” as investigações contra a corrupção. O segundo, em 6 de junho, intitulado “Brasil, medalha de ouro em corrupção”, foi um ataque direto ao governo golpista: “As nomeações [de Temer] reforçaram as suspeitas de que o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff no mês passado, por acusações de maquiar ilegalmente as contas do governo, teve uma segunda intenção: afastar a investigação [de corrupção]”. Para o NYT, os sucessivos escândalos no recém-empossado ministério forçaram “Temer a prometer, na semana passada, que o Executivo não interferirá nas investigações na Petrobras, nas quais estão envolvidos mais de quarenta políticos. Considerando os homens de quem Temer se cercou, a promessa soa oca”.

A reação do consórcio midiático contra a imprensa internacional oscilou entre o silêncio, a exasperação constrangida e a fúria, a ponto de O Estado de S. Paulo publicar um editorial em 29 de maio como que declarando guerra à imprensa de todo o planeta, intitulado “O jogo sujo da desinformação”. O primeiro parágrafo chega a ser antológico; o jornal acusa seus pares no exterior de fazer... jornalismo! Está lá: “O Brasil, sua democracia e suas instituições estão sendo enxovalhados no exterior por uma campanha de difusão de falsidades cujo objetivo é denunciar a ‘ilegitimidade’ do presidente em exercício Michel Temer”. Exatamente o que diziam os militares nas décadas de 1960 e 1970.

globo golpe
Multiplicaram-se pelo país manifestações contra o protagonismo da mídia conservadora no golpe

3. O beabá do jornalismo

Durante a campanha pela derrubada da presidenta eleita, as regras básicas do jornalismo foram mandadas às favas. A noção básica de “ouvir o outro lado” foi liquidada. Os acusados não tiveram direito a voz nas mídias golpistas. Os programas de “debates” receberam por meses apenas aqueles convidados que se dispuseram a emitir declarações contra o governo; intelectuais, artistas e políticos de esquerda foram vetados em jornais, revistas e emissoras de TV e rádio. A única exceção ficou por conta da Folha de S.Paulo, que manteve alguns articulistas de esquerda para manter a rota bandeira da “pluralidade”.

O caso de Eduardo Cunha é emblemático do comportamento do consócio midiático-golpista. O principal articulador do golpe no Congresso foi Eduardo Cunha, na qualidade de presidente da Câmara – cargo do qual foi afastado pelo STF em 5 de maio, apenas depois da votação do golpe na Casa. Cunha é um notório corrupto. Os processos e as investigações demonstram que ele usou propinas da ordem de centenas de milhões de dólares para aliciar uma bancada de mais de cem deputados federais pelo golpe. O assunto foi ignorado pelas quatro famílias, sendo objeto de reportagens no espanhol El País e na imprensa independente. Cunha foi transformado em interlocutor qualificado e político confiável pela mídia conservadora, que o protegeu até a votação da Câmara, enquanto Lula e Dilma foram tratados como desqualificados e “criminosos”.

Uma pedra angular no edifício narrativo da derrubada de Dilma foi a negação da existência de um golpe de Estado. Em 1964 nos anos seguintes, jornais e emissoras de TV e rádio referiam-se ao golpe militar como “revolução”, “movimento” ou “restauração democrática” e negavam a existência de um golpe. Agora, dizem “impeachment”. Negar o golpe é essencial para a construção simbólica dos golpistas, o que levou a um episódio exemplar.

Em 17 de maio, toda a equipe do longa-metragem Aquarius, liderada pelo diretor Kleber Mendonça Filho e pela atriz Sônia Braga, protestou contra o golpe durante a estreia do filme no Festival de Cannes. Durante horas, enquanto as imagens do protesto corriam o planeta, a imprensa articuladora do golpe ignorou o fato. Somente depois que o britânico The Guardian colocou a foto na primeira página, com enorme destaque, deram-se conta do vexame e correram para minimizar o estrago em sua própria imagem. Mas a emenda ficou pior que o soneto. O protesto foi contra o golpe, os cartazes que os artistas seguravam usavam a palavra “Golpe”, as manchetes ao redor do mundo escreveram a mesma palavra; mas, para a imprensa brasileira tratou-se de “um protesto contra o impeachment”.

4. O olhar das relações entre o governo e a imprensa

Os governos Lula e Dilma conviveram com a ilusão de que poderiam comprar o silêncio e o apoio das quatro famílias. Há um episódio narrado pelo senador Roberto Requião que desnuda toda a ilusão:

"Segundo ele, no primeiro mandato de Lula, quando [Requião] era governador, foi ao encontro do presidente e lhe contou o que havia feito na comunicação do Paraná, onde acabou com a verba publicitária e investiu todos os recursos na TV Educativa local. Lula teria se animado com o que ouviu e pediu-lhe que conversasse com o então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Requião foi ao quarto andar do Palácio e, enquanto contava ao ex-ministro sobre o quanto a TV Educativa estaria sendo importante para o governo, Zé Dirceu teria lhe interrompido e dito: 'Requião, mas o governo também tem uma TV'. Isso aconteceu antes da criação da TV Brasil, que se deu no segundo mandato de Lula. Requião teria ficado surpreso e perguntou: 'Mas que TV, Zé?'. Ao que o então ministro, respondeu: 'A Globo, Requião'".[2]

A soma entregue às quatro famílias entre 2003 (início do governo Lula) e 2014 supera os R$ 7,5 bilhões, com a seguinte distribuição[3]:

  • R$ 6,8 bilhões para os Marinho, somando TV, jornal, o portal G1 e a revista Época, sendo R$ 6,2 bilhões para a Rede Globo de Televisão (considerando apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília e Recife, sem contar as afiliadas).
  • R$ 599,7 milhões para os jornais Folha, Estado e O Globo.
  • R$ 370,9 milhões para a revista Veja.

 Os governos petistas surraram um argumento ao longo dos anos de que a distribuição das verbas obedecia a um critério “técnico”, vinculado à audiência e tiragens. O que fizeram foi investir uma montanha de dinheiro para manter e aprofundar o status quo midiático, que acabou por cobrar a democracia como preço de arremate.


[1] Ver Tatiana Farah, “Entidades de imprensa e Fecomercio estudam ir ao STF contra plano de direitos humanos”, O Globo, 18 mar. 2010; disponível online.

[2] O relato é do jornalista Renato Rovai e foi publicado na revista Fórum, 4 ago. 2015.

[3] Fonte: Secretaria de Comunicação da Presidência da República (SECOM).