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Política

Entrevista - Celso Roma

PSDB: Longe da periferia, longe da renovação

por Matheus Pichonelli publicado 30/10/2012 16h29, última modificação 31/10/2012 15h05
Tucanos repetem o coro por mudanças há seis anos e até agora não apresentaram novas lideranças, diz Celso Roma, especialista em partidos políticos
José Serra

O candidato José Serra, após a derrota nas urnas. Foto: Gabriel Bonis

O filme já foi visto antes. Ao fim da campanha, após um resultado adverso nas urnas, toma forma no PSDB o discurso pela renovação de seus quadros. Foi o que aconteceu em 2006, quando o tucano Geraldo Alckmin, hoje governador de São Paulo, foi derrotado pelo petista Luiz Inácio Lula da Silva na eleiçãalo presidencial. Desde então, afirma Celso Roma, cientista político pela USP e especialista em partidos políticos e eleições, o processo de renovação foi colocado na geladeira para ser repetido, seis anos depois, após o revés sofrido agora por José Serra na corrida pela prefeitura de São Paulo. “As palavras não se transformaram em ações”, diz Roma.

Para ele, a legenda está tendo dificuldade em projetar novas lideranças e não se mostra capaz de ouvir ou criar pontes com a juventude do PSDB. Roma afirma que o partido deveria seguir o exemplo dos rivais petistas, que passaram por um processo de renovação induzido por circunstâncias adversas, como o escândalo do “mensalão”, hoje julgado pelo Supremo Tribunal Federal. “Isso forçou o partido a apresentar candidatos novos ou desvinculados do escândalo de corrupção. Onde o PT insistiu em velhas lideranças, perdeu”.

O especialista cita, entre os motivos da derrota de Serra em São Paulo, o desgaste da gestão Gilberto Kassab, a omissão da campanha na periferia, onde Fernando Haddad recebeu mais votos, e a incapacidade de se livrar do rótulo anti-pobre colado nele pelos adversários. Ele critica a estratégia tucana de levar a homofobia para o centro do debate mas minimiza os efeitos da aproximação com lideranças polêmicas como o pastor Silas Malafaia. “Tanto Haddad quanto Serra receberam apoio de personalidades polêmicas ou implicadas em escândalos de corrupção.”

Roma faz projeções sobre o futuro de Serra e da oposição e se mostra descrente sobre uma possível guinada do hoje aliado PSB de Eduardo Campos, governador de Pernambuco. Confira abaixo a entrevista.

 

CartaCapital: O que explica o resultado da eleição em São Paulo?
Celso Roma: O candidato derrotado do PSDB, José Serra, concorreu sob condições adversas. Além de ser rejeitado por mais de um terço dos eleitores, Serra defendeu a continuidade de uma administração reprovada por mais de dois terços dos paulistanos. Em contraste, o candidato vitorioso do PT, Fernando Haddad, apresentou com antecedência um programa de governo, propondo mudança de gestão e novos projetos para a cidade.

CC: Quem perdeu mais na disputa, o PSDB ou José Serra?
CR: Ambos saíram derrotados da eleição em São Paulo. O candidato amargou outra derrota nas urnas. O partido perdeu a cidade que lhe conferia poder, prestígio e visibilidade.

CC: Quais foram os erros da campanha tucana?
CR: Na disputa do segundo turno da eleição, Serra concentrou seus compromissos no centro expandido da cidade, onde ele havia sido vitorioso. Além de ter feito menos eventos que o seu adversário, o candidato do PSDB visitou poucos bairros da periferia. Haddad fez carreatas e promoveu encontros inclusive nos redutos do PSDB, onde conseguiu diminuir a desvantagem em relação ao adversário no 1º turno.

CC: Isso ajudou a campanha do PT a apresentar Serra, durante a campanha, como um candidato anti-pobre? Essa imagem pegou?
CR: Nos debates da televisão, José Serra não conseguiu responder de uma forma satisfatória às questões levantadas por Fernando Haddad sobre pobreza e inclusão social. No programa do Serra, faltou destacar uma seção com projetos exclusivos para a população carente. Durante a campanha, faltou contato com os representantes de bairros da periferia. O contato com os moradores poderia reverter a imagem de Serra como candidato dos ricos, transmitida e reforçada pelo PT.

CC: Foi um erro, no caso de Serra, se aproximar de líderes conservadores como Silas Malafaia? O apoio dessas lideranças polêmicas não vai de encontro com o discurso histórico do partido?
CR: Tanto Haddad quanto Serra receberam apoio de personalidades polêmicas ou implicadas em escândalos de corrupção. Nesse quesito, os dois candidatos se assemelham. Assim como ocorreu com o PT ao longo dos últimos anos, o PSDB também se aproximou do campo conservador da política, diluindo o progressismo que marcou a fundação de ambos os partidos.

CC: Serra buscou uma agenda moralizante para a campanha e levou ao centro do debate as críticas à cartilha anti-homofobia produzida pelo Ministério da Educação na gestão Haddad. Isso o prejudicou?
CR: O problema está em discutir assuntos nacionais em uma eleição onde o que interessa aos eleitores são propostas para solucionar os problemas da cidade. A agenda de São Paulo deveria incluir projetos nas áreas de transporte, habitação, saneamento, educação e saúde. Políticas sobre aborto e anti-homofobia já estão sendo debatidas no Congresso Nacional.

CC: Nesta lógica, qual a necessidade de abordar o julgamento do “mensalão” numa eleição municipal?
CR: O assunto, por ser relevante, ao envolver ética e política, deveria e foi bem explorado por José Serra durante a campanha. Mas não interferiu no voto dos paulistanos, confirmando pesquisa Datafolha realizada em setembro. Ocorre que menos de 20% dos paulistanos estavam dispostos a mudar o voto em razão do julgamento de líderes e aliados do PT. Desse pequeno grupo, apenas metade dos eleitores deixaria de votar em Fernando Haddad.

CC: Com a derrota de Serra, o coro pela renovação dentro do PSDB tende a tomar corpo a partir de agora?
CR: O discurso sobre a renovação do PSDB é entoado desde a derrota de Geraldo Alckmin na eleição de 2006 para a Presidência. Já se passaram seis anos. Até este momento, as palavras não se transformaram em ações.

CC: Por quê?
CR: O PSDB está tendo dificuldade em projetar novas lideranças. Os quadros do partido envelheceram. Por outro lado, a juventude do PSDB não recebe por parte dos cardeais incentivo para se envolver com a organização e se lançar como candidatos nas eleições.

CC: Como seria feita esta mudança?
CR: O PSDB tem de aprender com as lições de seu principal rival. O PT também passou por um processo de renovação induzido por circunstâncias adversas. Neste ano, foram eleitos quatro ex-líderes da CPI dos Correios, dois deles, Eduardo Paes e Gustavo Fruet, são ex-deputados pelo PSDB que foram para a base parlamentar da presidente Dilma. Isso revela que o partido tem dificuldade de valorizar novas lideranças e manter em seus quadros filiados com potencial de vencer eleições. Se a Executiva Nacional do PSDB tivesse interferido nos diretórios fluminense e curitibano, essas personalidades teriam permanecido no partido. No PT, o julgamento do mensalão no STF forçou o partido a apresentar candidatos novos ou desvinculados do escândalo de corrupção. Onde o PT insistiu em velhas lideranças, perdeu.

CC: Qual deve ser o futuro político de José Serra? Deixar o partido? Disputar eleições legislativas? Ou bater o pé para uma nova chance em cargo executivo?
CR: Análises vislumbram de uma forma precipitada o fim da carreira de José Serra. No passado e no presente, temos contra-exemplos. Na década de 1990, muitos analistas propunham mudança do candidato do PT à Presidência, após Lula ser derrotado nas urnas por três vezes. Recentemente, após perder a eleição para senador em 2010, o tucano Arthur Virgílio foi enterrado, para neste ano ressuscitar e comandar a Prefeitura de Manaus.

CC: Quem ganha, no PSDB, caso Serra saia de cena?
CR: Aécio Neves pode ocupar o espaço de liderança nacional do PSDB, desde que os dirigentes do PSDB executem o plano para torná-lo conhecido além do território de Minas Gerais e desde que o neto de Tancredo Neves apresente um programa de governo.

CC: No PT, Haddad foi um nome imposto por Lula. No PSDB, Serra também foi colocado à frente de outros quatro pré-candidatos. O que esses episódios dizem sobre a democracia interna dos dois principais partidos do país?
CR: Os dois episódios não permitem generalização. Candidatos a prefeito impostos por Lula perderam em inúmeras cidades, incluindo capitais do país. O que devemos entender é que os líderes e os militantes dos partidos têm diferentes prioridades. Por estar mais envolvida no jogo eleitoral, a liderança prioriza a conquista do governo ou participação dele, mesmo que isso implique em formar alianças com adversários ou impedir a candidatura do favorito entre os filiados. De outro lado, a militância se motiva basicamente por ideologia, em defesa do programa do partido, desconsiderando muitas vezes as consequências de suas decisões.

CC: Apesar da derrota em SP, o PSDB cresceu nas grandes cidades e avançou pelas capitais. Dá para dizer que, de um modo geral, se saiu bem das urnas?
CR: No estado de São Paulo, apesar da derrota na capital e em outras cidades-chave, o PSDB elegeu o maior número de candidatos. Neste ano, o partido elegeu 176 prefeitos, enquanto o PT conseguiu 67. Mas a queda do total de prefeitos eleitos pelo PSDB é um sinal de alerta para o governador Geraldo Alckmin.

CC: O PSB também cresceu nas eleições. O sr. imagina que o partido estará de qual lado daqui pra frente? É possível que se apresente como uma nova oposição? Se sim, que impacto isso teria na oposição tradicional formada pelo trio PSDB/DEM/PPS?
CR: O segredo do sucesso do PSB está justamente em participar de um governo popular, ter acesso a ministérios e secretarias e ser privilegiado tanto na liberação das emendas parlamentares ao Orçamento como na transferência de recursos da União para estados e municípios. Se fosse para a oposição, correria o risco de perder espaço no governo Dilma e ter de enfrentar uma candidata à reeleição com alto índice de aprovação pessoal e administrativa.