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Protesto na estreia de "Aquarius" foi simbólico e eterno

por Maeve Jinkings — publicado 17/06/2016 15h29, última modificação 20/06/2016 08h57
Saí do Brasil com presidenta afastada sob gritos contra a corrupção. Voltei com o óbvio escancarado: impeachment era um plano pra estancar a Lava Jato
Valery Hache / AFP
Aquarius

A equipe e o elenco de Aquarius protestam em Cannes, em 17 de maio

Estava em Nova York há alguns dias para a estreia local do filme Boi Neon quando finalmente eu e Sônia Braga conseguimos nos encontrar pra passar o dia juntas.

Naquela tarde primaveril caminhamos pelo High Line Park de ponta a ponta até que precisei entrar numa loja de departamentos pra fazer xixi, e estava em plena ação quando Sônia recebe o bendito email de nosso coprodutor francês.

Emocionada, Sônia não podia esperar pra me dar a notícia e me procurava pelas cabines colocando a cabeça embaixo das portas: “In competition! In competition!”.

Já a esperava fora do banheiro, e confesso que a primeira coisa que me veio à mente quando a avistei com o punho elevado pronunciando essas palavras foi “Disputávamos o xixi mais rápido?"

Quando finalmente notei o celular em sua mão e compreendi que se tratava da première de Aquarius no Festival de Cannes, um tsunami despencou sobre mim. Comovidas, terminamos o dia no restaurante da Grand Central Station brindando diante de uma foto da equipe do filme e trocando mensagens coletivas pelo celular.

Daí em diante mergulhei numa corrente de acontecimentos e emoções do qual emerjo semanas depois em meio a registros afetivos em smartphones. E a memória em looping, fragmentada, fora da cronologia. 

Fazer arte tem uma aura de emergência difícil de descrever. Gosto das palavras de Wim Wenders quando diz que a força misteriosa do cinema vem do fato de que filmes sobrevivem a todos nós, o que torna tudo uma questão de vida e morte.

E diante da eternidade nada é mais importante do que buscar a alma do momento presente, falar além desse tempo/espaço para gerações futuras, quando já não estaremos aqui. Talvez isso explique a paixão que mobilizou mais de 30 pessoas, entre equipe e amigos do filme, a tirar dinheiro de seus próprios bolsos pra pagar passagem, hospedagem, comida, tudo pra estar juntos na première mundial de Aquarius. Tivemos apoio da Ancine para duas passagens aéreas, porém os gastos na Riviera Francesa vão muito além disso.

Enquanto corríamos de um lado pro outro escolhendo vestidos e smokings para o festival, assistimos perplexos a uma série de acontecimentos políticos no Brasil dignos de uma narrativa de ficção. E o roteiro parecia confuso.

Saí do Brasil com uma presidenta da República sendo afastada de seu cargo sob gritos de “chega de corrupção”. Voltei vinte dias depois com áudios vazados na imprensa escancarando o óbvio: o impeachment foi um plano pra estancar a Lava Jato e livrar políticos da cadeia. Segundo eles próprios, a presidenta deixa a investigação correr solta demais. 

Há exatamente um mês estreávamos Aquarius no maior festival de cinema do mundo, em competição, sob a sombra de um Ministério da Cultura extinto pelo governo interino. Foi uma experiência pessoal e profissional de proporções avassaladoras, mas nada me tocou tanto como assistir ao filme que fizemos e me dar conta de sua assustadora sincronicidade com o Brasil de hoje.

Tal paralelo não foi proposital. O roteiro de Kleber Mendonça é uma antena poderosa captando a sensibilidade de uma sociedade dividida que despreza sua memória em nome da manutenção de privilégios de uma minoria.

E se artistas são como radares de subjetividades, não me surpreende que hoje a cultura represente uma ameaça para certos setores da sociedade a ponto de alguns defenderem o fim do seu subsídio, ainda que isso movimente a economia e represente apenas 0,6% da renuncia fiscal pela Lei Rouanet. 

Mas a personagem de Sônia Braga em Aquarius é, acima de tudo, uma brava resistente. E se a câmera tem o poder de captar o além tempo, para mim nada faz mais sentido do que minha memória em repetição constante recordando o instante em que, sobre o tapete vermelho, levantamos um papel A4 pra dizer que vivemos um golpe.

Foi um pequeno e simbólico gesto, mas a julgar pela atual juventude nas escolas que nos ensina como se apropriar dos espaços e multiplicar vozes, certamente esse gesto é eterno.

*Maeve Jinkings, atriz de Aquarius, venceu dois candangos de Melhor Atriz no Festival de Brasília: em 2013, pelo longa Amor, Plástico e Barulho, e em 2014, pelo curta Estátua! A artista também venceu o prêmio de Melhor Atriz no BRAFFTV 2014 - Festival de Cinema Brasileiro em Toronto por Amor, Plástico e Barulho