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Prefeito aquariano, cidade nem tanto

por José Guilherme Pereira Leite — publicado 27/09/2016 16h18, última modificação 29/09/2016 11h15
Em meio à ânsia pelo deslocamento da matéria, muitas das soluções encontradas por Haddad tiveram caráter imaterial
César Ogata / SECOM
Fernando Haddad

Haddad durante a inauguração do Centro de Cidadania LGBT: sua política de direitos humanos é elogiada

Permitam-me um toque de humor. Haddad e São Paulo nasceram no mesmo dia e, segundo a tradição astrológica, pertencem ao signo de Aquário. No maior bestseller da astrologia, publicado no auge das contestações contra-culturais de 1968, Linda Goodman disse o seguinte sobre os “aquarianos”:

“Já que o aguadeiro vive no futuro (…) pode parecer completamente ‘pancada’ (…). Ele o percebe, e isto aprofunda o seu sentimento de isolamento. A astrologia nos ensina que ‘daqui há cinquenta anos o mundo pensará como o aquariano pensa’. (…) Este signo solar é conhecido como ‘o signo do gênio’ (…). Por outro lado, uma boa porcentagem dos que se acham confinados nas casas de saúde de doenças mentais (…) são também aquarianos. Diz-se que há uma linha muito tênue entre o gênio e a loucura (…)”.

Tomo a liberdade de assim principiar, não por acreditar piamente en las brujas de la astrología, mas por ver o quanto essa divertida descrição de um arquétipo veste bem o debate corrente sobre a gestão de Haddad.

Pois tomemos de saída alguns feitos vilipendiados de sua ação, usados frequentemente para esculhambá-lo. Tomemos as ciclovias, o Parque Minhocão, o Plano Diretor, a redução da velocidade dos carros. Tomemos as avenidas que abriu aos pedestres (ou “fechou para os carros”, segundo os seus detratores). Tomemos o Carnaval de Rua, a sua política de Direitos Humanos. Tomemos as praças Wi-Fi e os corredores de ônibus.

Haddad assumiu São Paulo em estado de choque, descobrindo a verdade sobre as contas municipais, maquiadas pela expertise de Serra e Kassab. São Paulo devia 72 bilhões de reais! Três meses depois, as ruas da capital chacoalhavam em manifestações de todo tipo. Os furacões enfrentados ali empurraram o prefeito rumo a certas ideias que ele já nutria e foi obrigado a abraçar ainda mais.

Eis o ponto: muitas das soluções encontradas por Haddad para o aprimoramento da “vida urbana” paulistana tiveram caráter imaterial, adotando recomendações inclusive internacionais, sopradas aqui pelo state of art do urbanismo, entendido como reconfiguração de usos, sem martelo ou britadeira, com baixíssima demanda por concreto.

Metrópole ou villa?

Passados quatro anos, o maior representante da ojeriza ao prefeito é um cidadão que urra: “o prefeito não trabalha!”. Trata-se do historiador Marc’Antonio Villa, para quem as ações de Haddad são “loucuras”, “delírios” de uma gestão “desastrosa”.

Villa toma a agenda do prefeito como índice de leniência e fator explicativo das “poucas obras” entregues. Haddad afinal mostrou-lhe que, se o assunto é construir, também tem realizações: três hospitais, centenas de creches, CEU’s. Não é esse porém nosso tema, e sim um deslocamento profundo.

A polêmica entre ambos não importa como picuinha. É que, nesse interessante enredo, Villa representa uma caricatura. Sua obsessão “trabalhista” deve ser analisada numa chave de maior alcance: ela exprime a colisão de duas mentalidades rivais que disputam agora os destinos da cidade. De um lado, se encontra a “imaterialidade urbanística” de Haddad e de seus apoiadores.

De outro, está o apreço pelas realizações embotantes do trabalho material, típico de sociedades atrasadas, consagradas ao monumental, à ereção de obeliscos, viadutos e pontes estaiadas, que culmina por aqui no chamado “gigantismo tupiniquim”, supostamente capaz de elevar a auto-estima tecnológica de uma nação periférica face àquilo que seriam os feitos dos países ditos “desenvolvidos”.

Daqui a cinquenta anos, falas como a de Villa serão documentos do nosso apego provinciano a certos modus operandi de uma cidade que se quer metropolitana e ainda se pensa como “villa”, “arraial”, “povoado”. Para Haddad, “São Paulo não é uma cidade conservadora, mas incidem sobre ela forças muito conservadoras”.

Nenhum prefeito é perfeito. A questão a ser notada é que os mais relevantes feitos do advogado Haddad dizem respeito à criação de novos usos, novas leis e ao aprimoramento da informação e da transparência, em chave que privilegia o direito e a regulamentação. São feitos enormes para uma cultura anti-jurídica como a nossa.

À lista inicial acima é justo somar dois programas: “São Paulo Aberta” e “Braços Abertos”. Assim como as ciclovias e as avenidas “abertas”, eles partem do já existente, propondo interações colaborativas novas, sem grandes esforços e suores pedreiros, à maneira do que o liberal inglês Bertrand Russell (1872-1970) propunha, isto é, contenção do nosso ímpeto carregador de pedra e melhor aproveitamento do que já temos.

Mas, para a mentalidade “materialista-materializante” de certos grupos, a ausência de marcos físicos concretos de ação não gera elogios e, pelo contrário, aumenta o sentimento de que um homem político “faz pouco pela cidade” e “só esquenta a cadeira”.

As campanhas eleitorais de Celso Russomano (PRB), Marta Suplicy (PMDB) e João Dória (PSDB) batem agora nessa mesma tecla, atentas ao gosto da clientela votante. Todos expressam algo espraiado pelas várzeas da cidade: é o apego do século XX pelas grandes obras de infraestrutura, pela entrega desses “fatos objetuais”, em uma palavra, pelo deslocamento insano e maníaco de matéria.

“São Paulo é Paulo porque Paulo é trabalhador”, dizia o mote malufista, ora recuperado por Dória Jr.. “Foi Maluf que fez!”, dizia o carimbo demiúrgico do “Dr. Paulo”, impresso sobre imagens de avenidas Marginais, cebolões cinzentos e córregos canalizados. Ainda dirigidas por publicitários zumbis – absolvidos nos mensalões da vida! – nossas campanhas políticas revelam dolorosamente o que temos de pior em matéria de amor à convenção.

Pois ainda se dirigem ao cidadão “materialista-materializante”, em que pese o aspecto também “aquariano” da cidade, lembrado pelo próprio Haddad.

Para esses milhões de “cimentófilos”, o trabalho imaterial é simplesmente invisível, imperceptível, portanto inexistente, não sendo sequer reconhecido como trabalho. Não é por acaso que essas pessoas consideram “ridículas” as tais ciclovias. “É o prefeito pintor”, chegou-se a dizer.

As reações frente aos programas aqui mencionados têm sido comumente assim: tudo o que passa pelo crivo da grande imprensa é tratado como amadorismo-lunatismo, não importa que o prefeito e seus qualificados assessores saquem dados e aplausos internacionais em sua defesa.

Pouquíssimos eleitores estão a par das conquistas representadas pelo Plano Diretor e pela redução da dívida pública municipal em 70%. São realizações impalpáveis para o primitivismo “materialista-materializante”, o que implica demolir os feitos mais interessantes de Haddad, demoli-los em sua base empírica por serem informes ou de apreensão visual difícil.

Os fixos e os fluxos

A extrema rejeição do prefeito representa algo dramático em nosso panorama. Ela mostra que, apesar do orgulho paulistano quanto à nossa “modernidade”, essa “modernidade” pode ser puramente fantasmagórica. O geógrafo Milton Santos insistia no fato de que toda cidade se compõe de “fixos” e “fluxos”.

Recusando os instrumentos urbanísticos de fação jurídica e as políticas imateriais de reconfiguração da cidade, escolhemos dar as costas às possibilidades mais ágeis e inventivas de principiar uma reorganização do cotidiano e dos nossos “fluxos”, arraigando-nos à tradição empreiteira dos “fixos”.

O amor pelos “fixos” fez de São Paulo uma encantadora cidade no segundo quartel do XX. Hoje, esse amor ameaça reduzi-la a uma envelhecida aglomeração, desavisada de outra lição do mestre: os “fixos” só têm valor quando são animados pelos “fluxos”, sem os quais se transformam em coisas inertes e sem significado.

*José Guilherme Pereira Leite é cientista social e mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. É professor da Escola da Cidade e do Centro Universitário Fiam Faam. Este texto é dedicado aos amigos Andrés Sandoval e Frédéric Drout.

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