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Pós-Lula, mas ainda popular

por Matheus Pichonelli publicado 23/01/2012 15h15
Números da economia explicam a aprovação do 1º ano de mandato de Dilma Rousseff, mas não só
lula e dilma

O diferencial de Lula estava na esfera política, mas os resultados aparecem na economia. Foto:Roberto Stuckert Filho / Presidência da República

O ano de estreia costuma ser cruel para um presidente da República. Em geral, o rosto do governo ainda não está definido, e, apesar do tempo ser insuficiente para promover grandes mudanças, o eleitor começa a dar os primeiros sinais de impaciência – seja em razão da possível demora nas reformas, seja pela rejeição a mudanças encaminhadas.

Em seu primeiro ano, Luiz Inácio Lula da Silva mexeu em vespeiros, como o regime da Previdência e, ao mesmo tempo, manteve a ortodoxia econômica, com alta dos juros e demora para tirar do papel o projeto Fome Zero. Fechou o primeiro ano de mandato com 42% de aprovação (quase a metade do que iria alcançar ao fim de seu último ano como presidente).

Fernando Collor (23%), Itamar Franco (12%) e Fernando Henrique Cardoso (41%) também não agradaram a maioria da população em seus primeiros anos como presidente, em 1990, 1992 e 1995, respectivamente – sempre de acordo com o Datafolha.

A exceção parece ser Dilma Rousseff. Pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana mostra o governo da presidenta com avaliação superior a todos os antecessores desde a redemocratização.

Nos primeiros 12 meses de governo, 59% dos brasileiros diziam considerar sua gestão ótima ou boa. O índice supera o recorde de Luiz Inácio Lula da Silva, seu padrinho político, ao final do primeiro ano de seu segundo mandato, em 2007, quando era aprovado por 50% dos eleitores.

O instituto ouviu 2.575 pessoas em 159 municípios entre os dias 18 e 19 de janeiro.

Diante dos números, a maioria dos analistas parece ter chegado ao consenso: a economia explica tudo. Não é por menos. Em época de crise financeira nos países ricos, nada menos do que 46% dos entrevistados dizem acreditar que a situação econômica do País vai melhorar – e outros 37%, que fica como está, o que não é mau.

A esperança de aproveitar a onda é ainda maior: 60% das pessoas acreditam que vão melhorar as próprias condições econômicas, contra apenas 7% que dizem o contrário.

Os sinais de otimismo são explicados pelos números da economia acumulados em 2011. Apesar dos sinais de desindustrialização, a inflação ficou no teto da meta, a taxa de juros caiu, o nível de emprego se manteve estável e planos para a erradicação da miséria foram lançados.

Mas outras leituras também podem ser tiradas da pesquisa. Uma delas é que, diferentemente dos outros presidentes, Dilma recebeu a faixa de seu sucessor com a missão de dar continuidade a um governo bem avaliado.

Ao encerrar seu governo, Lula tinha 83% de aprovação. Em seu primeiro ato como ex-presidente, ao desembarcar em São Bernardo do Campo em 1º de janeiro de 2011, em um palanque improvisado em frente à sua casa, Lula pediu: “amem a Dilma como vocês me amaram”.

Funcionou. Se fosse uma corrida de revezamento, seria possível dizer que parte da popularidade da presidenta é rescaldo do bastão entregue pelo antecessor doze meses antes.

A Dilma do primeiro mandato é menos popular do que o Lula do último ano. Mas passou longe da queda livre apontada por muitos como destino certo da presidenta quando desse início ao seu voo solo, longe do carisma do antecessor.

Pelo contrário. Dilma, em um ano, teve tempo de imprimir sua marca.

A primeira – que pode não ser lembrada pela maioria da população – foi a da primeira mulher a abrir a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Ali, em tom mais enfático do que seu antecessor, falou sobre a situação de opressão vivida pelas mulheres em boa parte do planeta, lamentou a ausência da Palestina entre os Estados representados, exigiu mais representação na entidade e mandou uma reprimenda geral pela crise inventada pelos países ricos.

A segunda marca foi alcançada pela forma como lidou com as crises envolvendo seu primeiro escalão. Diferentemente de Lula, conciliador, Dilma preferiu não blindar os ministros na berlinda.

Com isso, ganhou pontos com parte uma parcela da classe média refratária ao antecessor. Em um ano, sete ministros deixaram o governo, seis por suspeitas de corrupção.

Dilma passou a ser bem avaliada tanto por quem estudou só até o ensino fundamental (61%) como por quem tem curso superior (59%). Entre quem ganha entre cinco e dez salários mínimos, ela ganhou 16 pontos em relação à última pesquisa.

Dilma hoje é considerada como uma pessoa “decidida”, “muito inteligente” e “sincera” por mais de 70% dos brasileiros. É aprovada até mesmo pela oposição: 40% dos eleitores que se dizem tucanos aprovam sua gestão. Em parte, por ter surpreendido ao levantar bandeira branca, afagar adversários e pregar parceria em Estados governados por tucanos.

Por algum motivo, em que pesem as críticas aos auxiliares diretos, Dilma passou o primeiro ano praticamente preservada das críticas de boa parte da imprensa.

Diferentemente de seu antecessor, que recebia críticas (e ganhava plateias) com metáforas sobre futebol, brincadeiras ou crítica aos rivais, Dilma assumiu uma postura menos emotiva e mais protocolar – portanto, menos polêmica. Tanto que as manchetes com frases atribuídas a ela são, quase sempre, insossas, se comparadas com a lista de frases de efeito proferidas por Lula no palanque ou em solenidades – e que prendiam a atenção da plateia do início ao fim.

Mas nem tudo era protocolo nas aparições públicas da presidenta. A imagem da “gerente” – muitas vezes pejorativamente ligada à “faxineira” que distribui broncas e se desfaz de ministros-problema como lastros – foi quebrada mais de uma vez, quando, por exemplo, ela foi às lágrimas ao lançar um plano para pessoas com deficiência ou quando pediu um minuto de silêncio pelas crianças assassinadas na chacina de Realengo, no Rio de Janeiro.

Porque ninguém é de ferro – e ninguém garante apoio da maioria da população só na base de números, broncas e protocolo.

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