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Política

Eleições 2016

Porto Alegre: o tucano Marchezan vence em antigo reduto do PT

por Rodrigo Martins publicado 30/10/2016 18h29, última modificação 30/10/2016 20h03
Pela primeira vez, o PSDB elege um prefeito na capital gaúcha. Por 16 anos, de 1989 a 2004, o município foi governado por petistas
Reprodução/Facebook
Marchezan

Surpresa do primeiro turno, Marchezan Júnior não teve dificuldade de administrar a vantagem

Pela primeira vez em sua história, o PSDB conseguiu eleger um prefeito em Porto Alegre, antigo reduto eleitoral de seu principal adversário no plano nacional, o PT. O deputado federal Nelson Marchezan Júnior venceu com 60,5% dos votos válidos, contra 39,5% do peemedebista Sebastião Melo, atual vice-prefeito da capital gaúcha.

Em meio à falta de opções disponíveis ao eleitorado identificado com o campo da esquerda, o total de votos brancos, nulos e abstenções cresceu no segundo turno, atingindo quase 45% do eleitorado.

Marchezan Júnior foi a grande surpresa do primeiro turno. Às vésperas da votação, figurava no segundo lugar das pesquisas, tecnicamente empatado com Raul Pont, ex-prefeito e um dos fundadores do PT gaúcho. Terminou em primeiro lugar, deixando para trás Melo, candidato da máquina pública, apoiado pelo prefeito José Fortunati (PDT) e por uma coligação com 14 partidos, o que lhe garantiu o maior tempo de tevê entre os postulantes ao cargo.

Embalado pela onda antipetista e pelo desgaste da atual administração municipal, Marchezan Júnior não teve dificuldades para administrar a vantagem na segunda fase da corrida eleitoral, intercalando as suas propostas para a cidade com críticas à gestão Fortunati, da qual Melo faz parte. Nos debates televisivos, chegou a responsabilizar a prefeitura pela escalada da violência em Porto Alegre, que, segundo o tucano, poderia ser amenizada com melhoras na iluminação pública e na vigilância eletrônica.

O prefeito eleito é filho do ex-deputado Nelson Marchezan, que durante a ditadura atuou nas hostes da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido criado para dar sustentação ao regime militar. Formado em Direito, Marchezan Júnior entrou para a política logo após a morte do pai, em 2002, quando recebeu o convite do PSDB para disputar uma vaga na Câmara. Aos 31 anos, elegeu-se deputado, mas a Justiça Eleitoral impediu a diplomação do advogado. Ele não estava filiado ao partido dentro do prazo estipulado em lei.

No ano seguinte, foi nomeado diretor de Desenvolvimento, Agronegócios e Governos do Banrisul durante o governo de Germano Rigotto (PMDB). A carreira política só se concretizaria em 2007, quando o tucano foi eleito deputado estadual. Quatro anos depois, Marchezan Júnior chegaria à Câmara, unindo-se à bancada ruralista.

Ganhou visibilidade durante o impeachment de Dilma Rousseff e, hoje, é um dos mais aguerridos defensores da agenda de Michel Temer no Congresso. Mesmo nos debates eleitorais, saiu em defesa da PEC 241, que congela os gastos públicos, incluídos os investimentos em saúde e educação, por 20 anos.

‘Vinho da mesma pipa’
Derrotados no primeiro turno, o PSOL e o PT orientaram a militância a anular o voto ou se abster de comparecer às urnas. “Nesta disputa, o PSOL não apoia Marchezan, nem Melo, por entender que ambos representam um projeto reacionário, alinhado às forças conservadoras”, diz uma nota assinada pelo diretório gaúcho do partido.

Em artigo divulgado pelas redes sociais na quinta-feira 27, Raul Pont avaliou que “não há mal menor” entre Marchezan e Melo, apresentados comovinho da mesma pipa, farinha do mesmo saco”. O petista observa que ambos estão unidos na sustentação dos governos de Temer, no plano federal, e de Ivo Sartori, no âmbito estadual. “São os responsáveis pela tragédia administrativa que vive o Estado e a falência dos serviços públicos essenciais”, afirmou, ao destacar que o PT fará oposição a qualquer uma dessas alternativas.

Amarga derrota para o PT gaúcho
Pont ficou em terceiro lugar nas eleições municipais, com 16,34% dos votos válidos. Não chegar ao segundo turno da disputa foi uma derrota amarga para o PT, que governou a capital gaúcha por 16 anos ininterruptos, de 1989 a 2004. “Porto Alegre não está isolada do contexto nacional. A onda antipetista também desgastou o PT gaúcho”, avalia o cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas.

“O PT perdeu 60% das prefeituras que tinha, e ainda não há outra força de esquerda capaz de ocupar o vácuo deixado pelo partido. O PSOL resiste em moderar o discurso e firmar alianças mais amplas, medidas essenciais para assegurar maior tempo de tevê e aumentar a competitividade”, emenda Couto. A ex-deputada Luciana Genro, do PSOL, terminou a disputa em quinto lugar, com 12% dos votos válidos.