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Política

Julgamento no STF

Personagens do ‘mensalão’: José Dirceu, o ex-homem forte do governo

por Gabriel Bonis publicado 01/08/2012 17h31, última modificação 02/08/2012 12h17
O ex-ministro chefe da Casa Civil é acusado de chefiar o "núcleo central" do esquema de pagamento a parlamentares. Ele nega todas as acusações
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O ex-ministro José Dirceu. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Militante estudantil nos anos 1960, quando cursou Direito na PUC-SP, José Dirceu de Oliveira e Silva foi preso político e exilado durante a ditadura. Nos anos 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, que veio a presidir por três vezes. Tornou-se deputado e participou das eleições para governador de São Paulo em 1994, conquistando 2 milhões de votos. Foi coordenador das campanhas de Lula à Presidência da República entre 1989 e 2002. Na última, teceu acordos políticos e conseguiu tirar do partido o ar de intransigente que possibilitou a chegada do partido à Presidência. Alçou-se também ao cargo de ministro-chefe da Casa Civil a partir de 2003, tornando-se braço forte político de Lula. Comandava sua pasta com mão de ferro e chegou a definir seu próprio estilo como “trator”.

Foi neste cenário que, em 2005, o então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) denunciou um suposto esquema de compra de votos no Congresso. E foram essas conexões que fizeram de Dirceu um réu dos 38 réus no processo do "mensalão" no Supremo Tribunal Federal (STF) e o marcaram como uma das figuras mais negativas do PT. Ganhou a pecha de articulador sem escrúpulos. O escândalo o fez perder força e apoio na Câmara dos Deputados. Em dezembro, foi cassado e teve a inelegibilidade decretada até 2015. Mesmo assim, não foi expulso do PT (como ocorreu com Delúbio Soares), partido no qual ainda exerce considerável influência.

Hoje, aos 66 anos, responde por formação de quadrilha e corrupção ativa. Segundo a denúncia, o ex-ministro chefiava o “núcleo central” do esquema de pagamento a parlamentares, composto pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, ex-presidente do partido José Genoino e pelo ex-secretário-geral Sílvio Pereira.

Caberia a Dirceu, de acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), articular o “núcleo central” ao “publicitário” – de Marcos Valério - e “financeiro” (bancos), além de chefiar o suposto esquema. Todos os acordos precisariam de sua palavra final. Desta relação, Soares fazia a ponte com financiadores. Entre eles, Valério, o fiador de empréstimos ao partido no Banco Rural e BMG dando como garantia suas agências. Centro do "valerioduto", o empresário teria sido favorecido com contratos em órgãos públicos para atuar como facilitador de verbas ao PT. O partido e Dirceu negam a existência de corrupção ativa e alegam que o dinheiro aos parlamentares compunha um caixa dois para saldar dívidas de campanha do PT e aliados.

Segundo a PGR, o dinheiro do suposto esquema veio de contratos das agências de Valério com órgãos públicos. A DNA Propaganda teria desviado quase 74 milhões de reais de um contrato com o Banco do Brasil em adiantamentos e pagamentos por serviços não prestados. Para que isso ocorresse, aponta, haveria omissão dos órgãos de controle devido ao apoio “político, administrativo e operacional” proporcionado por Dirceu, então integrante do governo e da cúpula do PT.

Atualmente, José Dirceu é consultor de negócios de grandes empresas brasileiras e internacionais e se defende dizendo que Jefferson é pessoa “de abalada credibilidade”. Em memorial ao STF, alega ser inocente de todas as acusações do caso. Seus advogados sustentam não haver provas de que Dirceu beneficiava o BMG, influenciava a indicação de cargos no governo ou que tinha laços com Valério. O ex-ministro também alega não ter ingerência sobre a ação de outros dirigentes do PT, como Soares, que assumiu ter participado de um esquema de caixa dois. “Até mesmo integrantes do diretório e da Executiva do PT desconheciam os empréstimos junto ao BMG, ao Banco Rural e às empresas de Marcos Valério”, diz um trecho do documento.