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Opinião

Para onde nos leva a desilusão eleitoral?

por Gilberto Maringoni — publicado 05/10/2016 09h22
A crise no sistema político tende a ampliar o fosso entre representantes e representados
Sumaia Villela / Agência Brasil
Eleição

Eleitor chega para votar no Recife, no domingo 2

As eleições municipais deste domingo 2 apresentam dois fenômenos essenciais: 

1) O avanço avassalador da direita em todo o País, em sincronia com o antipetismo e o que este representa. Perde toda a esquerda. Mesmo o avanço do PSOL não altera o panorama. Isso muda a conjuntura, enfraquece os movimentos democráticos e tende a legitimar o golpe que levou Michel Temer à presidência; 

2) Apresenta um enorme desinteresse popular pelo processo eleitoral. Em nove capitais, o número de brancos, nulos e ausentes supera a votação dos eleitos ou mais votados. Em São Paulo, capital da mais reluzente vitória conservadora, os eleitores que não escolheram nenhum candidato somam 38,5% do eleitorado. Apesar de João Dória ter vencido com 53,29% dos votos válidos, se observarmos o total do eleitorado, o tucano obteve apenas 38,36% dos sufrágios. 

Embora não se possa questionar a legitimidade dos vitoriosos, o desalento com disputas eleitorais tem suscitado um sem-número de reflexões. O sistema político está em crise aberta e o fosso entre representantes e representados tende a aumentar. 

O fenômeno escancara também a descrença com a forma da democracia em vigor e é acentuada por uma legislação eleitoral que caminhou em direção contrária à participação popular. A “reforma” formulada por Eduardo Cunha e sancionada por Dilma Rousseff, em setembro de 2015, dificultou o esclarecimento e desvalorizou o papel dos partidos. Tempos mais curtos de campanha – reduzida de 90 para 45 dias – e o corte pela metade do tempo de TV tornaram o pleito anódino e tendente à despolitização. Vale a pena checar alguns números. 

As eleições para prefeito de quatro anos atrás, em São Paulo, apresentaram o seguinte quadro: 18,48% dos eleitores se abstiveram e os brancos e nulos somaram 12,78%. No final, 31,26% do eleitorado não quis saber de ninguém. 

Em 2008, os dados ficaram assim: brancos e nulos compuseram 7,92%, abstenções alcançaram 15,63% e o total resultou em 23,55% de cidadãos aptos que decidiram não escolher nenhum dos prefeituráveis. 

Em 2004, brancos e nulos foram 6,68%, abstenções 14,98% e o total chegou a 21,66% dos eleitores.

E em 2000, na mesma cidade, tivemos 9,5% de brancos e nulos, 14,24% de ausências e a adição resultou em 23,74%. 

Em linha, os números dos desinteressados em relação ao total de eleitores nos primeiros turnos paulistanos ficaram assim:

2000 – 23,74%

2004 – 21,66%

2008 – 23,55%

2012 – 31,26%

2016 – 38,5%

Os dados são do TSE, compilados pela Fundação Seade. Qual a explicação?

Os saltos mais expressivos ocorreram entre 2008 e 2012 (32,73% de aumento do percentual de desinteressados) e 2012 e 2016 (23,16%). 

Entre 2000 e 2004, tivemos a primeira eleição de Lula. O número dos que decidiram nada escolher caiu na comparação entre as duas disputas. Entre 2004 e 2008 – auge da fase de crescimento econômico e dois anos após o "mensalão", o desalento aumentou em 8,72%.

Se é certo que o estelionato eleitoral deve ter frustrado o eleitorado, que se sentiu ludibriado pela campanha de Dilma Rousseff em 2014, o espantoso crescimento do desinteresse anterior não tem razões muito claras.

O eleitor paulatinamente percebe que a chamada “festa democrática” pouco tem a ver com sua vida cotidiana. Contribui para isso uma campanha diuturna da grande mídia a torpedear a atividade política como algo próximo ao banditismo e o fato de boa parte dos eleitos se valer de campanhas de marketing que criam mundos da fantasia nunca realizados.

Há de se levar em conta que, oito meses após as eleições que levaram Fernando Haddad (PT) à prefeitura, São Paulo foi o polo deflagrador das formidáveis manifestações de junho de 2013, que se espalharam pelo País.

Olhando retrospectivamente, é possível que aquele salto na descrença para com o sistema eleitoral já fosse um sintoma do que estava por vir, na forma de explosão social. 

Se for verdade – e os números paulistanos pedem exame mais amplo, que envolva as principais capitais – a atual perda de legitimidade pode também ser prenúncio de um crescente mal-estar social. 

Caso o conservadorismo consagrado no domingo der curso ao aprofundamento da recessão, com medidas fiscais ainda mais duras que aumentem o desemprego e a perda de direitos, as tensões sociais tendem a se aguçar e tomar rumos imprevisíveis. Nesse raciocínio, teremos dias preocupantes à frente.

Nada disso é certo. São apenas conjecturas, a partir de uma rápida mirada nos números das eleições mais estranhas das últimas décadas.

*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC)

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