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Política

Investigação

Operação Lava Jato retoma o caso Celso Daniel

por Henrique Beirangê publicado 01/04/2016 15h15
Nova fase da força-tarefa que investiga desvios na Petrobras envolve o assassinato do ex-prefeito de Santo André, em 2002, e o mensalão
Itamar Miranda/Estadão Conteúdo
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Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, assassinado em 2002

A 27ª fase da Operação Lava Jato, apelidada de Carbono 14, trouxe de volta à tona o caso do assassinato de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, ocorrido em 2002. Na sexta-feira 1º, a Polícia Federal deteve o ex-secretário geral do PT Sílvio Pereira e o dono do jornal Diário do Grande ABC e empresário do ramo de transportes, Ronan Maria Pinto. O ex-tesoureiro do partido e condenado no processo do mensalão, Delúbio Soares, e o jornalista e ex-assessor de José Dirceu, Breno Altman, foram conduzidos coercitivamente pela PF.

Nos bastidores, a estratégia tem relação com a decisão provisória do Supremo Tribunal Federal (STF) em deslocar a investigação contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Corte. Os investigadores pretendem criar novos fatos políticos que pautem a mídia durante o julgamento do impeachment. A decisão de prender os personagens está relacionada com o empréstimo de 12 milhões de reais do Banco Schain ao PT em 2004, para quitar dívidas da campanha do ano anterior.

Segundo depoimento de Milton Schahin, um dos executivos do grupo, o empréstimo teve como avalista o pecuarista e amigo de Lula, José Carlos Bumlai. A dívida não foi paga durante o prazo estabelecido e gerou um débito de cerca de 50 milhões de reais. Para o empréstimo ser liquidado, segundo o executivo, um contrato teria sido firmado com a Petrobras para que a construtora pertencente ao grupo ficasse responsável pela operação do navio sonda Vitória 10.000, no valor de 1,6 bilhão de dólares.

Para justificar as prisões, a PF ancorou-se em um depoimento do lobista Marcos Valério, realizado em uma tentativa de celebração de delação premiada durante a investigação do mensalão. O acordo não foi firmado, e o lobista acabou condenado a 37 anos de prisão. Valério afirmou ter participado de uma das reuniões com o dono do banco para liberar o financiamento. Dos 12 milhões, metade teria sido usado para pagar uma chantagem. De acordo com o publicitário, Sílvio Pereira teria dito que o dinheiro seria usado para calar Ronan Pinto, que ameaçava envolver integrantes do PT no assassinato do ex-prefeito.

Ronan
Ronan Maria Pinto, dono do jornal Diário do Grande ABC, foi detido pela Lava Jato

Ainda segundo Valério, o empresário ameaçava envolver o ex-presidente Lula, o ex-chefe de gabinete da presidência Gilberto Carvalho e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Bumlai deu outra explicação: o dinheiro compraria o silêncio de Ronan em relação a um caixa 2 do PT na cidade, supostamente relacionado com o assassinato do ex-prefeito.

Em nota, a Força Tarefa afirma que houve lavagem de dinheiro para justificar o pagamento da chantagem. “Para fazer os recursos chegarem ao destinatário, foi arquitetado um esquema de lavagem de capitais, envolvendo Ronan, pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores e terceiros envolvidos na operacionalização da lavagem do dinheiro proveniente do crime contra o sistema financeiro nacional”.

Carbono 14 é uma analogia aos testes realizados para detecção de idade de objetos antigos.  A operação também cumpriu ainda oito mandados de busca e apreensão em São Paulo, Carapicuíba e Santo André.