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Política

Entrevista | Jogo de Carta

"O que foi vendido como salvação é rapinagem"

por Mino Carta e Rodrigo Martins — publicado 19/09/2016 05h03
Governo do PMDB é o mais nocivo aos trabalhadores desde o início da Nova República, pois não tem compromisso com eleitorado, diz Boulos
Roberto Parizotti / CUT
Guilherme Boulos

Boulos: "não é possível separar golpe do linchamento de Lula"

O ressurgimento dos movimentos sociais deve muito à militância de Guilherme Boulos, o lúcido e bem-articulado líder da Frente Povo Sem Medo, que trocou as confortáveis opções de egresso da classe média por uma combativa atuação no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

Convidado do último Jogo de Carta, transmitido ao vivo no site de CartaCapital e no Facebook na noite da quarta-feira 14, Boulos não titubeia: a recente denúncia contra Lula é  “a consumação de uma farsa preparada há algum tempo”.

Para ele, o ex-presidente é vítima de um linchamento, mas não hesita em apontar seus erros. O mais grave deles: apostar numa impossível conciliação com as elites. O governo Temer, afirma, é o mais nocivo aos trabalhadores desde o início da Nova República, por não ter compromisso com o eleitorado. “O movimento pelas Diretas Já é a única forma de interromper essa ameaça”.

CartaCapital: O que representa a nova denúncia contra Lula?
Guilherme Boulos: A consumação de uma farsa preparada há algum tempo. Depois de meses de investigação, um procurador da República apresenta-se para dizer que o ex-presidente é o comandante máximo da corrupção no País e, para respaldar essa afirmação, cita a reforma de um apartamento. Vai mal a corrupção no Brasil, não? Pior: não conseguem provar. Não tem conteúdo probatório. O que está em jogo é um verdadeiro linchamento de Lula, que não é julgado por seus erros. Naturalmente, haverá reação.

JC: Você acredita que essa reação pode vingar?
GB: A farsa está bem montada, eles têm recursos muito poderosos. Mesmo assim, acredito na reação. Começa a cair a ficha. Não se pode separar o golpe do linchamento e tentativa de destruição de Lula. As pesquisas mostram uma queda de apoio ao impeachment.

Os cidadãos começam a perceber o que de fato está em jogo nesse processo, sobretudo quando entram na agenda política projetos que destroem a rede de proteção social, com retirada de direitos trabalhistas e previdenciários. O que foi vendido como salvação nacional, contra a corrupção, é, na verdade, uma rapinagem. O clima está mudando.

CC: Por que você tem essa percepção?
GB: Eu andava pelas ruas e cheguei a ser hostilizado em São Paulo, em Brasília e nos aeroportos. Agora, aqueles que enchiam o peito para defender esse processo estão mais envergonhados. Aqueles que se juntaram por convicção estão desconfiados. Os que já estavam desconfiados começam a se voltar contra.

CC: Há pouco você mencionou os erros de Lula. Quais foram?
GB: O principal foi ter apostado na conciliação com os de cima, os mesmos que promoveram o golpe. Ao chegar ao governo em 2003, Lula propôs um grande pacto nacional. Dizia: "no meu governo, todos podem ganhar". Então chamou todos à mesa. Deu voz aos movimentos sociais, mas manteve o diálogo com empresários e o setor financeiro.

Construiu-se uma habilidosa engenharia que por um período permitiu a todos ganhar. Os bancos tiveram lucros recordes nos últimos 13 anos. O agronegócio, as empreiteiras, o setor da construção civil, mineração. Os trabalhadores também ganharam alguma coisa, gotejou algo para a senzala. Por um período, isso deu certo.

CC: Por que deu certo no início e desandou depois?
GB: Deu certo por causa do crescimento econômico relevante que permitia esse ganha-ganha, permitia sustentar uma política de crédito popular, aumentar o consumo dos trabalhadores, criar programas sociais, colocar os mais pobres e os negros nas universidades. Isso ocorreu sem o enfrentamento de nenhum privilégio. Faltou perceber que se tratava de uma política com prazo de validade. Isso tem a ver com o acesso das commodities e o crescimento da China. Depois, teve a crise de 2008 e uma tentativa de política anticíclica, mas os níveis de crescimento baixaram consideravelmente.

Lula
'O maior erro de Lula foi acreditar que sentaria à mesa da Casa Grande' (Foto: Ricardo Stuckert)
Isso reduziu a margem de manobra para fazer o ganha-ganha. Seria preciso cortar de algum lado. Além disso, os governos petistas apostaram em uma governabilidade estritamente parlamentar, em aliança com as forças conservadoras, sem mobilização nas ruas. Não se incluiu a massa nesse acordo político.

CC: Houve desmobilização dos sindicatos e movimentos sociais?
GB: Sim, e hoje paga-se o preço. Criou-se uma crença de que o governo resolveria, não eram mais necessárias grandes mobilizações. Isso enferruja as engrenagens dos sindicatos e movimentos sociais. O movimento social, de forma geral, não consegue mobilizar, pois deixou de fazer trabalho de base. E a postura da Dilma após 2014 foi muito ruim. Ela adotou o programa do adversário.

CC: E chamou para a Fazenda um fanático do apocalipse.
GB: É verdade (risos). De toda forma, erro fundamental dos governos petistas, do Lula e da Dilma, foi acreditar que sentaria à mesa da Casa Grande, com o pacto de não tocar nenhuma das reformas estruturais, como a agrária, a urbana e a tributária.

CC: Como você qualifica essa postura?
GB: Acho que houve falta de coragem para o enfrentamento, mas também uma ilusão sobre a vocação histórica da burguesia brasileira. Acharam que a burguesia os toleraria, mas ela tem uma natureza própria da Casa Grande. Esses avanços sociais do governo Lula foram graduais e limitados, um reformismo frágil, como definiu o economista André Singer. Para a elite, foram demasiadamente intensos, geraram pânico e terror. Bolsa Família, para eles, é bolivariano. Preto na universidade, pobre viajando de avião, eles não engolem. É uma questão visceral.

CC: No Brasil, parece só ser possível a conciliação entre as elites, jamais com a ralé.
GB: É isso. Essa é a natureza da burguesia brasileira. As elites toleraram os governos petistas por algum tempo não apenas porque continuaram ganhando, mas também porque essas gestões tinham algum respaldo popular. O que deu condições e base social para o golpe foi o ajuste fiscal de Dilma. Quando ela se volta contra a base que a elegeu, dá a oportunidade para a burguesia dar o bote, dá força a essa direita rançosa e atrasada.

CC: O rapper Mano Brown observou que a periferia virou as costas para Dilma. Você concorda?
GB: Concordo, a constatação dele está correta. Se olhar o perfil das manifestações de 2015 para cá, tanto nos atos de verde-amarelo, convocados ardentemente pela Globo e financiados pela Fiesp, quanto nas manifestações contra o golpe, em nenhuma delas estava presente a grande massa das periferias urbanas. A periferia assistiu a tudo aquilo com indiferença, entendeu que tudo não passava de uma briga de políticos, “que se comam, que se matem”. O grande desafio, hoje, é trazer esse grande protagonista social para as ruas novamente.

CC: Como a esquerda pode fazer isso?
GB: Não há mágica. A esquerda passou um longo período sem fazer trabalho de base. Aquele trabalho de porta em porta, de acolher, de buscar entender os problemas. Hoje, quem faz isso nas periferias são as igrejas evangélicas. Não à toa elas cresceram tanto nos últimos anos.

CC: Por que a esquerda deixou de lado o trabalho de base?
GB: A esquerda voltou-se demais para a política institucional. Estava preocupada em eleger vereadores, prefeitos, deputados, governadores, para depois chegar à Presidência da República.

CC: A esquerda se acomodou nos gabinetes.
GB: Exatamente. Aquele que pisava no barro nos anos 1980 virou assessor parlamentar na década seguinte.

CC: Isso não revela uma profunda falta de crença?
GB: Na verdade, acho que reflete outro tipo de fé: o de que a política institucional, isoladamente, é capaz de resolver as coisas, e não é. O PT chegou à Presidência e ficou lá por 13 anos. Mas sem o respaldo da mobilização popular ficou refém das negociatas de sempre. Aos poucos, o projeto perdeu a capacidade de dialogar com o povo.

CC: Muito antes de o Senado concluir o julgamento de Dilma, sabia-se que a presidenta não teria a menor chance de salvar o mandato. A esquerda, contudo, demorou a chegar a um consenso. Mesmo a bandeira das "Diretas Já" foi rejeitada por muitos.
GB: A gente vive um momento de fim de ciclo na esquerda brasileira, com a ausência de um guarda-chuva capaz de aglutinar. Nesse cenário, é quase inevitável a fragmentação. Temos tentativas de criar uma nova esquerda. O PT ainda é forte no movimento social e sindical, mas não tem mais autoridade política e moral para assumir a hegemonia. Em relação às “Diretas Já”, não entendo como essa bandeira possa legitimar o golpe, que está legitimado pelo Congresso, pelo Supremo.

CC: E por que Lula vai à posse de Carmen Lúcia?
GB: Achei um gesto desnecessário, que expressa certa crença em novos pactos e conciliações. Por isso, é equivocado.

CC: As Diretas são possíveis objetivamente?
GB: Acredito que sim. Temos um presidente ilegítimo, que desrespeitou a vontade manifestada pelo voto. Isso, por si só, justificaria a convocação de novas eleições para restituir a soberania popular. Os caras do outro lado conseguiram destituir uma presidenta eleita com argumento de pedalada fiscal, rasgando a Constituição e com o beneplácito do STF. Romero Jucá foi clarividente em suas declarações para Sergio Machado.

Estava tudo combinado, só não vê quem não quer. Mas tem gente na esquerda que acredita que o frágil governo Temer pode ser mais interessante que um eventual governo tucano eleito pelas urnas. Na minha opinião, o governo Temer é o mais perigoso para os trabalhadores desde o início da Nova República.

CC: Por quê?
GB: Por conta de sua própria fragilidade. Temer não foi eleito, não pretende a reeleição, não tem compromisso algum com o eleitorado. Não precisa prestar contas a ninguém. Pode tocar um programa de terra arrasada.