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O PT e o “mensalão”

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 12/11/2012 09h03, última modificação 06/06/2015 19h24
O desempenho nas eleições, o sucesso das políticas sociais e o reconhecimento popular não absolvem o Partido dos Trabalhadores dos pecados da Realpolitik

No interminável julgamento do “mensalão”, as cartas dos leitores e os blogs vociferavam: a reputação dos ministros do Supremo está em jogo. Minha inteligência se esbate em suas limitações para compreender o que pretendiam dizer tais sábios da jurisprudência. Imagino que suas elucubrações buscassem definir o resultado do julgamento à revelia do contraditório e do excurso argumentativo.

Isso permite concluir que, nos julgamentos de grande repercussão na opinião pública, devemos nos livrar das conquistas históricas do liberalismo político e da democracia que garantem ao cidadão, rico ou pobre, o julgamento fundado na argumentação racional das partes e na livre formação da convicção do juiz ao aplicar a lei ao fato.

É de uma obviedade palmar que os crimes alegados pela acusação, uma vez provados, devem ser duramente punidos, sobretudo por desmoralizarem os requerimentos de probidade que devem guiar a administração pública. Mais que isso, deformam a representação popular. No banco dos réus do “mensalão” e do “mensalinho” deveriam estar sentados o sistema partidário e o financiamento das campanhas eleitorais, engendrados com o propósito de transformar a política num mercado de balcão, onde os gritos de “compro” e “vendo” tornam ridícula a hipocrisia dos discursos moralistas.

O desempenho nas eleições, o sucesso das políticas sociais e o reconhecimento popular não absolvem o Partido dos Trabalhadores dos pecados da Realpolitik e dos empréstimos contraídos em bancos de espertezas e hipocrisias do establishment nativo. Não há outro caminho senão purgar as culpas e retomar a luta pelo avanço da igualdade e da democracia dos cidadãos, o que inclui a defesa da diversidade de pontos de vista e dos meios para expressá-los.

Na sociedade dos significados invertidos e pervertidos cabe às associações de cidadãos lutarem pela fiscalização infatigável dos poderes públicos e privados, sobretudo daqueles que pretendem se embuçar com as máscaras de senhores da liberdade. Imagino que assim podemos vislumbrar a derrota do transformismo que dá sobrevida ao pacto oligárquico que assola o País. Os senhores abandonaram os coturnos e as baionetas para recorrer aos métodos sutis e eficientes de tortura coletiva dos cidadãos com as técnicas da desinformação, do massacre ideológico e da “espetacularização” da política.

Hannah Arendt, nas Origens do Totalitarismo, abordou as metamorfoses sociais e políticas na era do capitalismo tardio e da sociedade de massa. As transformações das sociedades ao longo do século XX produziram, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do “homem massa, cuja principal característica não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e sua falta de relações sociais normais”.

Trata-se da abolição do sentimento de pertinência a uma classe social sem a supressão das relações de dominação. “As massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas quando se pertencia a uma classe.” Em seus piores momentos, os porta-vozes do indivíduo abandonado às penúrias da multidão solitária se entregam às tropelias do que Antonio Gramsci chamou de sarcasmo de “direita”. Sempre negativo, esse sarcasmo é cético e destruidor não só da forma, mas do conteúdo humano dos sentimentos e crenças na justiça, na igualdade e na fraternidade, elementos ideológicos difundidos pelas tendências democráticas herdadas da Revolução Francesa (Antonio Gramsci, em Maquiavel, a Política e o Estado Moderno).

Invocar a justiça acima da lei é atitude típica do “homem cordial”, figura magnífica da sociologia de Sérgio Buarque de Holanda. Ao contrário do que pretendem as interpretações vulgares, o homem cordial de Sérgio Buarque não é o homem liberal da Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith, cuja “mente estava dotada naturalmente da faculdade que permitia distinguir, em certas ações e afeições, as qualidades do certo, do louvável e do virtuoso, e, em outras, aquelas do errado, do condenável e do vicioso”.

O homem cordial é avesso à impessoalidade da norma e está permanentemente empenhado em impor suas “virtudes” e sua “moral” particularista aos demais. Trata-se da caracterização mais perfeita do “coronel”, personagem das oligarquias que infestaram e ainda infestam o País com seus diktats. Outrora concentrados nos grotões do Brasil varonil, hoje se refugiam nas redações ou espalham seus mandonismos e grosserias pela web.

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