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O País anda esquisitão

por Rui Daher publicado 10/06/2016 10h50
O deputado pergunta em seu site: “Que representante do povo seria eu, se não fizesse coro à indignação que tomou conta do Brasil”?
Lucio Bernardo Jr/ Câmara dos Deputados/Fotos Publicas
O deputado federal Marcos Montes

O deputado federal Marcos Montes, em setembro de 2015

Tutti pazzi, eh? País está meio esquisitão. Samurais dão ordens de prisão a samurais. O jornal Valor, no último dia 9, publica na primeira página: “Meirelles vê pior crise da história e sinais de retomada”. Mas já? Qual o tamanho das medidas interinas? São documento ou só cara feia?

Vem-me à mente certo Marcos Montes, deputado federal. Consta termos 513 deles, a depender do dia da semana. Como sabemos, quórum é fator variável; já salários, gabinetes, verbas de representação, não o são. 

Sua Excelência Montes está no Congresso desde 2010, em terceiro mandato consecutivo. Representa Minas Gerais, atualmente pelo Partido Social Democrático (PSD) depois de seguir aquela velha trilha: Arena, Partido da Frente Liberal (PFL) e Democratas (DEM). Entre 1997 e 2004, foi prefeito de Uberaba.

Talvez por achar a frase lapidar, ele pergunta na página inicial de seu site: “Que representante do povo seria eu, se não fizesse coro à indignação que tomou conta do Brasil”? Gostei.

Afinal, como “representante do povo”, intermináveis os assuntos com que se indignar, o nobre deputado deveria estar se referindo à má distribuição de renda, à liderança mundial em número de assassinatos, às lideranças mundiais em número de assassinatos, frequência de estupros de mulheres, e violência policial. Ou, pouco profundo, à derrota na Copa por 7 a 1 contra a Alemanha.

Como pertencente à bancada ruralista no Congresso, sua indignação não alcançaria atentados à democracia, Constituição e votação majoritária em eleições presidenciais. Imaginem, então, se entre suas afeições estão os direitos de povos indígenas e quilombolas, a preservação ambiental e o valor de nossa diversidade, motivos para preocupar-se com soberania territorial.

Como “Ronaldo e seus Berrantes Caiados”, ele também é médico. Aliás, são muitos os políticos da bancada ruralista médicos. Aquela de “acho que vou votar no doutor, sabe”? Sim, sabemos.

Como médico, o Doutor deve entender a fisiologia humana. Como produtor rural, a vegetal, e como político, todas as possíveis. As fisiologias englobam sistemas vitais de entra, processa e sai.

Irrequieto, não se contenta o estimado senhor em cantar no coro da indignação nacional, como afirma em seu site, curar seus pacientes, produzir alimentos, presidir a Frente Parlamentar da Agropecuária e, como fez na última edição da revista Globo Rural, afirmar: “É inegável que Kátia Abreu é uma boa ministra, mas não teve respaldo para dar tranquilidade ao agronegócio”.

Às folhas e telas cotidianas, nas redes sociais, votado o golpe, Kátia Abreu declarou justamente o contrário. Marcos Montes usou seu maior conhecimento de fisiologia.

Poderia ter parado aí, mas como o sabemos irrequieto, o estimado doutor é colunista do Jornal de Uberaba.

Pois bem, no último dia 3, assinou: “Credibilidade da nova equipe econômica já impacta nos números do mercado brasileiro”. Ele acha e vai mais longe. Se diz feliz por anunciar que “o resultado da economia, divulgado esta semana, trouxe informações otimistas. Os números indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) caiu menos do que o que era esperado pelo mercado”.

Na comparação com o 1º trimestre de 2015, o PIB teve queda de 5,4%, quando o mercado esperava 5,8%. Este o dado que deixou feliz o colunista Montes.

Além de não ser motivo para felicidade alguma, o colunista Montes não ligou para o fato de que no 1º trimestre de 2016, Dilma Rousseff comandava a economia e ainda não tinha sido deposta.

Não disse estar o País esquisitão?