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Política

Crônica

O instinto da Loba e a batalha da Maria Antonia

por Redação Carta Capital — publicado 12/02/2013 14h48, última modificação 12/02/2013 14h48
Naquele episódio, minha amiga foi atingida por duas garrafas de ácido sulfúrico. Isso mesmo: ácido sulfúrico. A direita em fúria não brinca

 

Emiliano José*

 

Eu passei pela Consolação outro dia, subindo, olhei pro lado, e pensei na Maria Antônia, na batalha de Maria Antônia. Foi ali que conheci Zé Dirceu, que convivi com Travassos, que ouvi Genoíno na tribuna, que me aproximei de Adura mais e mais, de Trindade, de tantos outros. Era uma espécie de comitê central do movimento estudantil, para onde todos nós, universitários e secundaristas, acorríamos em busca de luzes, de diretrizes para a continuidade da luta contra a ditadura que assustava o País, menos a nós, que nos considerávamos invencíveis ou ao menos nunca queríamos retroceder. Coisas dos nossos ideais e de nossa juventude, e ainda bem que em muitos de nós ainda sobra disposição para a luta nos dias que correm.

Não quero falar de tudo isso. Fica pra outra hora. Quero apenas falar da Loba e de seu instinto de luta e de amor pela vida – quero retornar no tempo, chegar a 3 de outubro daquele extraordinário ano de 1968, outubro, já próximo da tragédia do AI-5, do qual nós, na nossa inocência e triunfalismo, sequer desconfiávamos. Falar de Mirtes – se quiserem o nome todo já revelo: Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira, hoje recolhida à beira das praias de Fortaleza, cheia de carinho com seus netos.

Foi protagonista da já famosa Batalha da Maria Antônia, embate que envolveu estudantes do Mackenzie vinculados ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e os da Faculdade de Filosofia da USP, unidades que ficavam frente a frente todo dia, e que naquele dia enfrentaram-se. Aqueles constituindo-se como um grupo paramilitar, armados das mais variadas maneiras. Os da USP, reagindo com paus e pedras. Mirtes estava lá, no meio do fogo, na ousadia, no vigor e no frescor de seus 16 anos.

Em maio daquele ano, fora expulsa do Colégio Estadual Justiniano de Serpa, em Fortaleza, por decisão da diretora Adísia Sá. Simples: como presidente do Grêmio, opôs-se à cobrança de taxas no estabelecimento. A expulsão de Mirtes provocou reações, ganhando corpo com “A revolta das saias”, impressionante sublevação estudantil feminina, e a diretora acabou caindo, sem, no entanto, desistir da perseguição: delatou Mirtes à repressão.

A casa dela foi invadida por militares fortemente armados, metralhadoras em punho. Escalou muros e se abrigou no forro da casa de um vizinho. Cedo, muito cedo, teve que se tornar uma clandestina. A ditadura a empurrou para isso.

Mirtes era, também, da diretoria do Centro de Estudantes Secundaristas do Estado do Ceará (CESC) e já militava na organização revolucionária Ação Popular (AP). Foi escolhida para representar os estudantes secundaristas cearenses no Encontro Nacional da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), que se realizou em Guaratinguetá, São Paulo, fim de setembro, início de outubro.

Nesse encontro, fui eleito um dos vice-presidentes da entidade, e foi quando conheci Mirtes, de pernas tão lindas, me desculpem o detalhe, e mais à frente o leitor compreenderá. A diretoria tinha Marco Melo na presidência, e vários vice-presidentes, entre os quais Bernardo Jofilly, Antonio Luís, Euler Ivo, Fernando, e a minha memória não alcança os demais.

O pretexto dos mackenzistas da extrema-direita foi um pedágio organizado pelos secundaristas na Maria Antonia, em frente ao prédio da USP e ao do Mackenzie, naturalmente. Queriam conseguir recursos para voltar aos seus estados de origem, procedimento muito comum do movimento estudantil de então, e sempre muito bem recebido pela população.

De repente, o fogo. Um ataque cerrado contra a meninada, e os universitários da USP vieram em socorro deles, inclusive Luís Travassos, presidente da UNE, e Zé Dirceu, além de outros dirigentes que estavam na Maria Antonia. Os secundaristas e os universitários da USP tentaram arrombar os portões do Mackenzie em reação a tanta violência. Medo não era coisa que habitava nossos corações àquela época e àquela idade.

Mirtes, de repente, sentiu algo quente, muito quente, cair nela, em suas pernas.

- Puta que pariu! Estão jogando mijo na gente! Baixinho, o fedor é grande! ela gritou, num quase pedido de socorro.

Caiu.

E percebeu que fora atingida gravemente:

- Tô ferrada. Não consigo ficar em pé, cara!

Fora atingida por duas garrafas de ácido sulfúrico. Isso mesmo: ácido sulfúrico. A direita em fúria não brinca.

Travassos viu quando ela caiu. Correu, estreitou-a nos braços, suspendeu-a, deu-lhe colo, carregou-a, que Mirtes não conseguia mais andar.

Era um cenário de guerra: Socorro, secundarista de Goiás, também sentiu o ácido em seu corpo, outro estudante experimentou o ácido na proximidade dos olhos e na barriga e mais tarde os mackenzistas balearam e mataram José Guimarães, um secundarista. Lembro apenas desses exemplos para evidenciar que o CCC estava disposto a matar e a ferir, como matou e feriu.  A direita em fúria não brinca.

Travassos carregou Mirtes para o prédio da Faculdade de Filosofia, e os primeiros socorros dos colegas universitários consistiram em leite e manteiga nas queimaduras que se agravavam. Como a polícia estava pronta para invadir, tiraram-na de lá, junto com os outros feridos, e levaram-na para o Hospital das Clínicas. Alunos quintanistas prestavam os primeiros socorros, quando se soube que policiais chegavam em busca dos que tinham sido atingidos.

Mirtes foi retirada em cadeira de rodas para o subsolo do hospital, onde funcionava a ortopedia. De lá, ela e Socorro, depois de algum tempo escondidas, foram levadas para o Conjunto Residencial da Cidade Universitária da USP (CRUSP). Na primeira noite, Jean Marc, que seria o próximo presidente da UNE, dormiu ao lado de Mirtes e Socorro.

O CRUSP, entanto, rapidamente deixou de ser seguro. Havia ameaça de invasão iminente. Um médico do CRUSP olhou as pernas de Mirtes, e manifestou muita apreensão: havia risco de gangrena, e isso reclamava cuidados médicos e hospitalares urgentes, impossíveis ali. A todos, ainda por cima, causava horror a condição das pernas de Mirtes, que já fediam, os curativos desmanchavam-se.

Após três dias, Mirtes e os demais foram retirados do CRUSP. Poucas horas depois, tropas invadiram o conjunto residencial. Mirtes terminou acolhida por um anjo protetor e destemido, que é como ela chama Therezinha Zerbini. A mãe de Therezinha, dona de farmácia, disse que as gazes deviam ser retiradas, e as feridas, limpas. Chamou o médico Samuel Pessoa, que insistiu na gravidade do caso e do risco de gangrena.

Alguns dias transcorreram, as queimaduras se agravavam e o risco de perder uma das pernas, crescia. Therezinha se decidiu: levou-a ao Hospital Samaritano: é minha afilhada, queimou-se numa experiência de química. Mirtes fez várias cirurgias, enxertos, e as marcas no corpo e na alma nunca se dissiparam, sem que isso tudo conseguisse torná-la uma mulher amarga.

Cinco médicos se debruçaram amorosamente sobre suas feridas, quatro cirurgias, três raspagens para a retirada dos tecidos necrosados, acompanhadas de tratamento tópico para debelar o processo infeccioso e inflamatório, com muito antibiótico. Para passar o tempo, Mirtes deu-se de cartomante, e lia a mão de todo mundo: atendia funcionários, pacientes e acompanhantes de todos os andares do hospital, distribuía aconselhamentos a torto e a direito, não sabe se tão úteis e precisos assim. Que fez sucesso, fez. E que isso ajudava a amenizar o sofrimento dela, não há dúvida.

Há algum humor no sofrimento, senão como resistir? Dois companheiros nossos, da diretoria da UBES, Antonio Luís, de Minas Gerais, e Euler Ivo, de Goiás, resolveram visitá-la. Mirtes pôs-se a descrever todos os aspectos da enfermidade e do tratamento a que estava sendo submetida. Já não havia mais tecidos necrosados em suas pernas, mas por baixo dos algodões, gases e ataduras, embebidos em soro fisiológico e líquido de Daken, havia uma infecção purulenta amarelo-esverdeada. Mirtes ponderou que não era aconselhável que assistissem à troca de curativo que estava prestes a acontecer: “vocês podem se impressionar, levar um susto, não aguentar”.

Reagiram ofendidos, estavam com ela no melhor e no pior, como não ficar pra ver? Quando algodões gases e ataduras foram removidos, e os dois depararam com as pernas fétidas e desfiguradas, os nobres e valentes cavalheiros subitamente empalideceram e simplesmente desmaiaram. O hospital cuidou carinhosamente dos dois até que voltassem a si e compreendessem que as mulheres conhecem até onde os homens podem ir. E grosso modo, podem menos do que elas.

Voltou para o Ceará. Meados de 1969, foi presa numa pichação contra Rockfeller. Ao ser liberada, um mês depois, caiu na mais absoluta clandestinidade, sempre na AP. Avó de José Lucas, Carlos Eduardo e Clarice, sobreviveu recordando Leon Bloy – “sofrer passa, ter sofrido não passa nunca”. Lembra-se sempre, para falar de coisas boas da humanidade, de seus anjos bons – além de Therezinha Zerbini, recorda-se de Ada, de Jovina Pessoa, de Samuel Pessoa, do doutor Madeira, todos profundamente solidários e dispostos a correr todos os riscos, e nenhum deles tinha qualquer relação anterior com ela.

Conheci Therezinha Zerbini, estive na casa dela em 1968, ou 1969, e poucos não estiveram naqueles ásperos tempos. Mais conhecida que as outras, dela não preciso falar, Paulo Moreira Leite a apresentou brilhantemente no seu livro A mulher que era o general da casa. Jovina Pessoa, também conhecida. De Ada Oliveira, gostaria de falar muito, mas não será aqui. Foi uma lutadora rara, dessas mães à Gorki, me lembro de sua casa na Zuquim, caminho da roça para o Jaçanã à época, onde eu morava. Mãe de Pedro, de Ana, de Luiz, de Marina e de Ângela, sua casa era um abrigo acolhedor e intelectualizado da esquerda em Santana. Ela e Therezinha e Jovina lideravam o movimento “Mães Paulistas Contra a Violência”.

Já fiz isso num outro artigo para o jornal A Tarde: dou a palavra a Mirtes, palavras escolhidas a esmo de seu conto – ou novela ou confissões de um tempo que não passa – denominado Estrovenga:

“Aviso: sigo minha própria sombra, nado em fumaças. Vasta chuva no molhado e a inspiração de brumas. Alucinação ou fumaça, meu intervalo de culpas prega-se em fios. Débil grito principio, entretanto venho aos uivos, quase instinto de loba. A tosse do século passado remonta-se. Barulheira sob túmulos. Página virada, volto à estrada caminho de luzes. Um dia nosso pouso será todo paz.”

 

*Emiliano José é jornalista e escritor

 

 

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