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O golpe midiático-jurídico e sua noite dos cristais

por Jessé Souza — publicado 10/03/2016 15h20, última modificação 10/03/2016 16h48
A grande imprensa conservadora encobre os interesses em disputa na crise e cria bodes expiatórios para fazer um dos lados avançar
Fernando Frazão / Agência Brasil
Ato contra a Globo

Petistas se reúnem em ato contra a Globo na sede da emissora, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, em 6 de março

A recente arbitrária “prisão” – foi assim que o povo a viu e foi com esse sentido que o circo foi armado – do ex-presidente Lula foi a “noite dos cristais” do golpe midiático-jurídico em marcha entre nós. Na noite de 9 de novembro de 1938, teve início a onda de violência em grande escala contra os judeus na Alemanha quando 250 sinagogas foram queimadas e mais de 7.000 estabelecimentos de judeus foram depredados. Daí o nome de “noite dos cristais” pelos vidros quebrados nas calçadas no dia seguinte.

Como no nosso golpe de sexta-feira, 4 de março, foi tudo armado para parecer “espontâneo”, quando tudo havia sido cuidadosamente arquitetado pelos líderes nazistas, do mesmo modo como se articularam mídia e setores do poder judiciário entre nós.

Foi um “teste” de aprovação popular – o mesmo sentido da prisão na sexta feira – para o holocausto dos judeus que viria depois. O nosso “holocausto” já é conhecido: a incapacidade de conviver com as regras democráticas e com o fato de que ela, eventualmente, venha a por representantes da maioria oprimida da população no poder. Vale lembrar também que o nazismo era tão popular na Alemanha em 1938 quanto os “juízes justiceiros” incensados pela mídia de hoje em dia entre nós.     

Isso para dizer que o fascismo não nasce da noite para o dia. Ele vai crescendo no dia a dia contando com nosso medo, nossa ingenuidade real ou midiaticamente construída e nossa pusilanimidade. A atuação da mídia conservadora dominante entre nós é abertamente fascista ainda que, aqui e acolá, se publique a opinião de alguém da esquerda para se tirar onda de imparcial.

Ser fascista é, antes de tudo, manipular as emoções do público, do medo, do ressentimento, da frustração que se “sente” sem que se “compreenda” diante da complexidade dos interesses sociais em disputa. Ao invés de esclarecer esses interesses, a mídia conservadora os encobre e cria bodes expiatórios como a corrupção apenas estatal e de apenas um partido.

É um jornalismo que não educa seu público de leitores, nem eleva sua capacidade de compreensão. Ao contrário, os mantêm cativos no mundo da repetição e da manipulação e não do aprendizado. O problema é que o povo hoje imbecilizado pode se lembrar que um dia foi inteligente e começar a pensar por si próprio. Nunca a manipulação midiática ficou tão óbvia quanto agora.     

O mote desde 1954 deste mesmo jornalismo – inclusive com os mesmos órgãos de imprensa que atuaram no suicídio de Getúlio e no golpe contra Jango em 64, atuando também no mesmo sentido social e político no “lava jato” de hoje –  é a “corrupção seletiva”.

Não se pergunta dos apartamentos – não nos esqueçamos também dos “ridículos pedalinhos” – de todos os ex-presidentes, mas, apenas de um; existem políticos importantes de partidos de elite que podem ser citados 300 vezes nas absurdas delações premiadas que os casos são sumariamente arquivados pelas “instâncias competentes” (sem nenhuma reclamação ou sentimento de escândalo por parte da mídia); os esquemas de corrupção em empresas estatais existem há décadas, mas só interessam as do período recente e, assim por diante, de fio a pavio um óbvio e escancarado “interesse seletivo” no combate á corrupção.

Parece impossível que exista alguém tão imbecilizado pelo veneno midiático que não perceba o real sentido deste jogo. “Seletividade”, aliás, é a palavra chave deste golpe. Mas o desespero dos “golpistas irmanados” com a queda no seu “ibope” e no interesse do público – afinal a operação é “midiática” – os fez ultrapassar todos os limites do razoável.        

Convenhamos que até para uma sociedade que foi imbecilizada o “teste” da sexta feira ultrapassou todos os limites. A Operação Lava Jato mostra que sua única bandeira é claramente inviabilizar a candidatura de Lula a 2018 e com isso manter a sub-representação histórica dos setores populares que ele representa.

O “circo” armado sem qualquer necessidade jurídica – a condução coercitiva foi mero abuso de poder que deveria inspirar forte reação dos setores responsáveis – como juristas de todos os partidos agora comprovam, serviu unicamente para tentar manchar a reputação de um líder popular e intervir no processo político.

É um bálsamo ver a pronta reação de juízes, como o ministro do STF Marco Aurélio Mello, que não se deixam acovardar e mostram coragem cívica quando mais se precisa dela. Sua condenação resoluta dos fundamentos jurídicos da operação de sexta feira é exemplar no contexto de uma sociedade acovardada pela chantagem midiática.

Infelizmente, até o momento pelo menos, coragem, para proteger a ordem jurídica ameaçada pela colonização midiática, tem faltado a muitos dos colegas do poder judiciário, os quais, ao contrário de Marco Aurélio, compactuam com o jogo midiático ou são acovardados pelo poder da mídia.    

A imprensa conservadora é o real braço partidário da ínfima elite do dinheiro que tem também “no bolso” boa parte do Congresso Nacional para a defesa de seus interesses. Mas para “legalizar” o golpe é necessário se encontrar uma “aparência” de legalidade.

Os militares cumpriram esse papel no passado. Agora são os interesses corporativos de aparatos estatais que deveriam zelar pela ordem jurídica – suprema ironia – que se travestem de supostos defensores da “higiene moral da nação” – outra óbvia ideia fascista que nunca acabou bem em nenhum caso histórico – para garantir privilégios corporativos e se apropriar da “agenda de Estado” e, assim, mandar sem voto.

Esse é o verdadeiro elo de ferro que garante o acordo golpista entre mídia conservadora e operadores jurídicos e policiais dentro do aparelho de Estado. Mas esse acordo espúrio está nu. O barulho da nossa “noite dos cristais” pode muito bem se tornar um primeiro passo para que a inteligência brasileira, finalmente, acorde.   

*Jessé Souza, presidente do Ipea, é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de A tolice da inteligência brasileira.