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O futuro pede ciência e tecnologia

por Roberto Amaral publicado 26/04/2012 10h21, última modificação 06/06/2015 18h22
É impossível pensar num Brasil a médio prazo sem preparar as bases do desenvolvimento tecnológico, ferramenta do desenvolvimento econômico e social

Contrariando os presságios das Cassandras, nosso País vem enfrentando, com o sucesso possível, as consequências da crise do capitalismo globalizado, e aos poucos constrói as bases do que pode vir a ser uma potência econômica, que se deseja democrática e igualitária. Só será democrática se for igualitária, o que muito dependerá do que fizermos a partir de agora. Colhemos, presentemente, os frutos de amadurecida construção histórica, responsável por  uma civilização tropical e mestiça com quem muito têm a aprender aqueles povos e aquelas nações que, até aqui, fracassando reiteradamente, se auto-incumbiram do comando dos destinos da humanidade e da Terra.

Nada obstante a brutal e variegada violência de nossa formação nacional, sob o mando de elites neocolonizadoras, explorando à exaustão o trabalho de índios e negros e dos ‘trabalhadores livres’ deles descendentes, exploração que se reflete na impermeabilidade de nossa sociedade de classes; nada obstante o império da casa grande sobre as massas da senzala, de que ainda não conseguimos nos libertar; e nada obstante ainda nossa contemporaneidade marcada pelos inumeráveis ‘eldorados de Carajás’ e pelos ‘desaparecidos’ sem sepultura, somos, os brasileiros, em nossa política externa, portadores de rara lição de pacifismo, que se expressa na convivência amistosa com todos os povos e principalmente com nossos vizinhos, no exercício de sincero multilateralismo internacional, prática permanente da crença do entendimento como instrumento de solução de conflitos.

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Em que pese ao autoritarismo seminal das elites, sempre pronto para emergir, nosso povo, resultado telúrico do amálgama dos povos que nos precederam, construiu um multiculturalismo que rejeita o radicalismo religioso, étnico ou racial que na Europa e nos EUA se alimenta do fracasso econômico, abrindo caminho para novas e sempre cruentas formas de xenofobia e discriminação religiosa em nome de um ocidentalismo do qual as classes dominantes se julgam proprietárias.

Jamais seremos um país militarista. Hoje, mais respeitados, aprendemos a dizer não aos poderosos, quando necessário, e nos recusamos a humilhar os mais fracos, e dos mais pobres procuramos nos aproximar, não para explorá-los (ex-colônia e vítimas do imperialismo cultivamos memória histórica, ao menos nesse particular), mas para com eles nos associarmos na batalha comum contra a pobreza e as profundas desigualdades decorrentes de sistema político-social iníquo, envilecido e envelhecido, arcaico, diante de cuja derrogação as forças do progresso não podem continuar de braços cruzados.

Esta aproximação de povos com destino comum foi um dos grandes feitos da administração Lula-Amorim (ainda mantida por Dilma-Patriota), retomando a  política externa independente que nas últimas décadas somente fôra deixada de lado por Castelo e pelos dois Fernandos.

Nossa presença no cenário internacional (jamais ignorarei a importância do país como mercado consumidor) deve ter a marca desses valores e em função desses valores e de nossa perseverança neles, ser respeitada.

Esses valores devem dizer que país pretendemos construir, no momento em que contemplamos a agonia da Europa, a derrocada moral dos EUA, e a meticulosa destruição do mundo islâmico.

Tão importante quanto crescer, é saber para que queremos crescer, pois  poderá transformar-se em pesadelo o sonho de potência se não soubermos para quê queremos ser uma grande economia.

Qualquer que seja nosso futuro, ele não decorrerá das forças ‘cegas’ de um ‘mercado’ iníquo e predador do homem e da natureza, mas de um projeto de nação presidido pelos valores disso que estamos chamando de ‘nossa civilização’,  valores que se encerram na síntese produção-distribuição de riqueza como caminho da igualdade social.

Nossos governos de centro-esquerda estão demonstrando, na prática, a falácia da tese do neoliberalismo autoritário segundo a qual crescimento econômico e distribuição de renda (lembra-se o leitor do ‘milagre econômico’?) eram/são incompatíveis como projetos contemporâneos. O país está crescendo exatamente porque está distribuindo renda.

Este crescimento, todavia, não é autônomo, isto é, não tem condições de auto-alimentar-se nem se satisfará, no largo prazo, simplesmente com os resultados das exportações de grãos e minérios. Ele cobra altos, massivos, permanentes investimentos  em ciência e tecnologia, pois não é possível pensar no médio prazo sem preparar as bases do desenvolvimento tecnológico, ferramenta do desenvolvimento econômico e social. Lamentavelmente, a universidade brasileira não se tem revelado à altura desse desafio e dele se aparta a iniciativa privada - que continua pensando de forma medíocre, pequena, limitada, sempre a depender das tetas do Estado. Estamos atrasados nas áreas nuclear (ensino e pesquisa) e   espacial, e estamos perdendo as bases  nas quais a Petrobras poderia assentar a exploração e desenvolvimento autônomos da indústria do pré-sal.  Há mesmo áreas estratégicas quase esquecidas, como a da cadeia produtiva de óxidos e ligas de terras raras, necessários, sem substitutos, para a construção de satélites, caças supersônicos, sistemas de comunicação, tablets e torres eólicas, ao lado de uma infinidade de outras aplicações industriais.

Para o desenvolvimento em ciência e tecnologia de que carecemos, precisamos formar mais doutores, o que depende de uma política agressiva da Capes e do CNPq (no MCT, em 2003, dobramos o número e os valores das bolsas congelados nos oito anos de FHC). Infelizmente, porém, continuamos investindo pouco, muito pouco, em C&T, a saber, apenas 1,13% do PIB. Assim, não iremos longe. Menos ainda ao espaço sideral. Enquanto a Rússia forma 190 mil, a Índia 220 mil e a China 650 mil engenheiros por ano, nossas universidades (no conceito incluídas as privadas) formam de 30 a 35 mil engenheiros.  Na área da inovação, sem o que não teremos competitividade tecnológica, dependemos de uma indústria que, quando multinacional, traz de sua matriz a tecnologia que deseja aplicar, e que, quando nacional, prefere pagar royalties a produzir aqui sua própria tecnologia. Ademais, quais os desafios para o investimento em pesquisa se nossa economia está voltada para a produção de commodities, a saber, produtos na sua maioria sem valor agregado e que não carecem de tecnologia e inovação? Por essa e outras razões (entra as quais nosso modelo de  desenvolvimento industrial tardio e  dependente) o Brasil está no 36º lugar no ranking do registro internacional de patentes.

Os problemas da conjuntura econômica podem ser enfrentados no curto prazo com dose maior ou menor de heterodoxia. O Brasil pode, através de barreiras como tempo de permanência no Brasil ou cobrança de taxas, conter o ‘tsunami de dólares’ em nosso mercado; pode controlar a queda do dólar, com uma política cambial defensiva. Pode mesmo desindexar a dívida. Mas ciência e tecnologia e inovação exigem maturação, pois não se formam tecnólogos, doutores, pesquisadores da noite para o dia. Se não há possibilidade de democracia sem produção de riqueza e distribuição simultânea de renda, não há possibilidade de desenvolvimento econômico sem investimentos massivos e constantes em educação, ciência e tecnologia. Com 1,13% do PIB...

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