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Política

O feudo de Rosemary

por Matheus Pichonelli publicado 01/12/2012 10h13, última modificação 02/12/2012 16h25
A troca de e-mails interceptada pela PF é a fratura exposta de um sistema movido pelo deslumbre
quincas

O fim da história estava escrito desde 1981

Ao narrar a ascensão do enfermeiro Rubião no clássico Quincas Borba, Machado de Assis construiu uma espécie de estrutura elementar do relacionamento humano (queria citar a “alma do brasileiro”, mas nunca vivi em outro país para dizer se há, de fato, outro tipo de “alma” mundo afora). A começar pelo fato de o personagem que dá nome ao livro não ser o personagem principal. Este papel é dado a Rubião, herdeiro do milionário filósofo, fundador do humanitismo, de quem cuidou até o fim da vida. Homem certo na hora certa, a ele é delegada a missão de cuidar de um cachorro (de nome Quincas Borba) e de administrar as posses deixadas pelo patrão. "A imortalidade é o meu lote ou o meu dote, ou como melhor nome haja", diz Quincas Borba ao amigo fiel antes de legar a sua herança.

A oportunidade faz Rubião deixar a rotina humilde em Barbacena, no interior de Minas, em troca de uma vida de barão no Rio de Janeiro, então capital da República.

Ao chegar, ele logo se transforma em objeto de cobiça. Como enxame de abelhas no pote de mel, dele se aproximam as pessoas mais influentes de seu tempo. Eles almoçam às suas custas. Jantam às suas custas. Tomam empréstimos às suas custas. Rubião tinha outra origem, outro linguajar, outras referências, mas pouco importava: ele tinha tudo o que a burguesia ascendente, empreendedora e oportunista, precisava: uma janela para o capital. Para os amigos, Rubião não valia só o que tinha no bolso. Valia o quanto estava disposto a produzir em bolsos alheios.

É a melhor história sobre amizade já escrita nestas terras – justamente por expor ao sol o deslumbre como a força-motriz das relações humanas.

Este caráter universal e atemporal é o que separa uma boa história de um clássico. Mudam-se os tempos, mudam-se os nomes, o espírito permanece. Este espírito, pode-se dizer, se manifesta em qualquer empreendimento promissor – e só um grande herdeiro, um grande proprietário, um grande magnata, um grande artista ou um grande astro do futebol seria capaz de contar as toneladas diárias de bajulação produzidas em seu entorno. (Wilson Simonal e o goleiro Bruno, ex-Flamengo, não fariam um testemunho menos fidedigno sobre a gratidão aos amigos). O funcionamento do Estado, loteado como um bem a ser herdado e distribuído, não é diferente. Está tomado de Rubiões e asseclas de Rubiões, crentes de que o prestígio transitório é um bem inalienável.

No apagar das luzes de 2012, eles aparecem claramente na Operação Porto Seguro, o mais recente escândalo envolvendo o Planalto – ou a “sucursal” do Planalto instalada na Avenida Paulista.

Pegue-se o exemplo de Rosemary de Noronha, a amiga do homem que se tornou presidente da República e a levou à chefia do escritório da Presidência em São Paulo. Dela pouco se sabe além do fato de que se despedia dos amigos no e-mail corporativo com a palavra “bjokas”. Em tese, isso não prova o grau de competência para exercer um cargo de confiança. Mas deixa escancarada a sofisticação das formas com que outsiders são injetados para dentro da máquina.

A troca de e-mails interceptada pela Polícia Federal entre Rosemary e os irmãos Paulo e Rubens Vieira, nomeados para cargos em agências reguladoras meses depois, é uma fratura exposta de um sistema frágil, acessível e manipulável e movido pelo deslumbre de quem chegou ao topo. Graças a Rosemary, Paulo foi parar na Agência Nacional de Águas e Rubens, na Agência Nacional da Aviação Civil.

O caminho para atuar nas agências responsáveis por regular a aviação civil e o uso sustentado da água foi assim: o amigo do amigo levou as referências, falou com a pessoa certa, que prometeu falar com a pessoa ainda mais certa e a troca de favores ficou estabelecida. Num dos e-mails, antes da nomeação, Rosemary promete, supostamente, aproximar o candidato ao cargo na Anac do presidente Lula em um evento em São Paulo: “Aí eu ataco”, diz ela.

Vendo de longe, é possível supor que, apesar do cargo, uma opinião de Rosemary sobre as questões centrais do Planalto tivesse tanto peso quanto uma pena. Rosemary parece, ainda de longe, apenas uma assessora costa-quente que usou a confiança do chefe para construir um feudo ao seu redor com uma única carta: sou amiga do rei.

Mas a “carteirada” de hoje é a maldição de amanhã. Os irmãos Vieira, acomodados no Estado, são agora acusados de comandar um esquema de compra e venda de pareceres públicos favoráveis a interesses privados com a ajuda da Advocacia-Geral da União – um deles para a instalação de um complexo portuário, de impactos incertos, no valor de 2 bilhões de reais. E foi aos irmãos Vieira que a servidora recorreu para instalar a filha e o marido na mesma máquina – numa troca de mensagens encerrada com um gritante “FINALMENTE OBRIGADAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA”. (Sim, vale lembrar: ela era chefe do escritório da Presidência em São Paulo).

Rosemary ajudou os irmãos Viera, que depois ajudaram Rosemary. Para operar, não precisaram sequer consertar relógio com luva de boxe no escuro. Estavam à vontade, como estariam à vontade na casa de Rubião, que na verdade era de Quincas Borba. Não importa. O fim da história estava escrito desde 1891.

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