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Política

Crônica

O espetáculo, a miopia e o labirinto

por Matheus Pichonelli publicado 12/05/2016 04h48, última modificação 12/05/2016 13h03
Perdemos a capacidade de enxergar como premissas aparentemente corretas consagram caminhos opostos, por descuido ou má fé, entre falas e encenações
Foto: Pedro França/Agência Senado
Senado

Senado Federal antes da sessão para decidir o afastamento de Dilma Rousseff

Os globos oculares têm os movimentos conduzidos por seis músculos externos. O reto superior é responsável pela movimentação do globo para cima. O reto inferior, pela movimentação do globo para baixo. Tem também o reto interno, que movimenta o globo para o lado nasal, e o externo, que o conduz para o lado temporal, além dos chamados oblíquos, superior e inferior, responsáveis pelos movimentos rotativos.

A oftalmologista me explicava tudo isso para dizer que minha miopia não era “só” miopia. Se eu tinha dificuldade para enxergar a placa do ônibus ao fim da tarde era porque passava o dia com os músculos acomodados em apenas uma posição.

Era, me explicava a doutora, um sintoma típico de quem passa muito tempo olhando para um ponto fixo das telas do computador, do celular, dos livros, etc. Meu grau de miopia era exatamente o mesmo de dez anos atrás: 4,5.

Para reconhecer as informações do ônibus a certa distância, eu deveria fazer um exercício diário. Deveria, de tempos em tempos, levantar e expandir a vista para que os músculos se acostumassem e me ajudassem a ler, literalmente, o que estava além de um palmo do meu nariz. Deveria, em outras palavras, reeducar o olhar.

Tentei o exercício algumas vezes, mas ao fim do dia as placas do ônibus seguiam embaçadas e disformes. Percebi, então, que não estava expandindo a vista; tentava, mas o que olhava não eram paisagens abertas. Eram paredes. Meu exercício diário esbarrava em laterais de prédios, muros, fachadas, portas e portões, telhados, ruas, carros, tráfego.

Minha expansão era um projeto limitado à claustrofobia de minha cidade, e tinha sido assim desde que deixara de ser menino: quanto mais me embrenhava nos estudos e nos compromissos profissionais, mais me enfurnava em papeis, telas, paredes, divisórias de fórmica, janelas vedadas, cortinas, bancos, mesas. Era um paradoxo: desaprendia a enxergar à medida que me conectava com o mundo. E quanto maiores as cidades onde circulava, menores os compartimentos onde acostumava a vista.

Nessas andanças, de vez em quando esbarrava numa tela de descanso: uma cor mais berrante, um sorriso, um herói desenhado, uma paisagem com praia, com água, sol e mato. Eram paredes pintadas para disfarçar o cinza-chumbo das grandes cidades.

Olhar era, então, um respiro, mas também um engodo, e este engodo, em forma de representação de algo que não estava lá, não me permitia qualquer travessia. Olhamos, mas seguimos parados. Mesmo quando, já dentro dos carros ou dos ônibus, estamos em movimento.

Mestre dos trocadilhos, Shakespeare deu a seu personagem mais famoso, o príncipe Hamlet, a capacidade de olhar. Deu a ele também sua sentença mais famosa: ser ou não ser – que, por teimosia, traduzo como estar ou não estar. A primeira tradução fala de essência; a segunda, de escolha. Podemos estar vivos, mas não ser; podemos estar deste ou daquele lado, mas não ser aquilo que dizemos representar.

Levado ao limite, o deslocamento permite questionar, como sugere Hamlet, se atores e personagens realmente acreditam (ou são) o que se propõem a representar. É o que chamamos de consciência, e desde Freud sabemos, ou deveríamos saber, que nem sobre ela temos controle.

Nos últimos dias, tentei aplicar a mim uma espécie de suspensão do exercício proposto pela oftalmo. Falei menos e ouvi mais. Escrevi menos e li mais. Tentava expandir a vista enquanto meus músculos externos do globo ocular se contraíam numa posição que me causava desconforto enquanto circulava.

Meu grau de miopia estava corrigido pela lente, mas seguia não enxergando, e isso me deixava à mercê de estranhos conhecidos ou desconhecidos nem tão estranhos que me alertavam: aquele é seu ônibus. Quando a gente deixa de enxergar as coisas, criamos dependência de outros olhares. É o que chamamos de confiança.

Por acaso ou ironia, as linhas de ônibus se embaralharam em nossa cidade nos últimos dias. Os motoristas deixaram de circular nos horários previstos. Alguns sequer circulavam em razão de uma paralisação por salários e condições melhores de trabalho.

Os ônibus que eu costumava pegar se adiantavam e os seguintes, atrasavam; no lapso, via todo mundo embarcar e ficava comigo mesmo, os olhos forçando a vista, no ponto à espera de algo semelhante a um caminho de casa, onde poderia pelo menos tatear as paredes se esquecesse dos óculos. É o que chamamos de segurança, e ela independe da vista.

No tráfego intenso das redes e publicações por onde circulo a vista, tento expandir a confiança de quem me oferece relatos daquilo que minha vista não alcança. Não conheço outra definição para um labirinto. “É por aqui”, dizem uns. “Não, é por aqui”. “Não dê ouvidos a este idiota: é claro que é por lá”.

Dentro e fora das telas, reaprender a olhar é esbarrar em paredes. Algumas estão apenas pintadas. Outras parecem confiáveis, mas levam apenas a outras paredes. E a outras. De tão retas, andamos em círculos: as paisagens desenhadas como saídas são apenas tinta e elas não suportam um balde de água limpa.

Nessas horas de músculos extraoculares retraídos, buscamos não apenas saídas, mas uma história, uma apenas, com começo, meio e fim – e que não esbarre com um portão de ferro qualquer. Até a segunda página, todos parecem estar do lado certo. Todos parecem ser o lado certo. Mas tudo o que observo são paredes – algumas mais bem pintadas, outras simplesmente cinzas, mas todas interditadas a partir da segunda página.

Eu tento, mas não consigo enxergar caminhos quando meus amigos imbuídos de uma missão civilizatória recém-parida dizem lutar contra o mal, assim, como subjetivo sem pronome, e se contentam com um retrato novo na mesma e corroída parede. Mas me sinto constrangido a fazer coro aos que me apontam um retrato mal diagramado e dizem: “olhem só, eis uma democracia”.

Pergunto: quando deixamos de identificar paredes corroídas? Quando elas ganharam tantos eufemismos? Quando passaram ao comando das grandes empreiteiras? Quando assumimos a linguagem paternalista infantilizadora como salvação?

Quando passamos a pedir a bênção aos oligopólios de sempre? Ou quando os agora pintores de rodapé da História foram alocados em sete ministérios de porteira fechada? Quando eram só aliados de primeira ordem de promessa de campanha? Quando os que prometem voltar já estavam ali?

Quando chamaram de “projeto” uma repartição de bolo com financiadores de campanha agora enjaulados? Quando foram eleitos pelos mesmos votos? Quando a agora combativa oposição aceitou as mesmas contribuições? Quando, aliados aos futuros donos do pincel, retocarem as velhas pinturas com outras cores e disserem: “eis uma paisagem”?

Eu juro que tento compartilhar a empolgação de tanta gente que vê neste momento histórico, único mesmo, uma correção definitiva de rumos num ambiente agora favorável em linha reta até onde a vista alcança. Mas o que vejo, lamento dizer, são paredes.

É atribuída a Millôr Fernandes a sentença segundo a qual “se você não tem dúvida é porque está mal informado”. Talvez seja este o refresco para a vista que precisamos em meio à polifonia instalada em tempos recentes.

Mas não - não é por falta de informação que estamos confusos. É por termos perdido a capacidade de filtrar, contextualizar e/ou fazer conexões entre ações e discurso, discurso e pretextos, pretextos de ações. Talvez estejamos apressados demais em encontrar saídas para pensar em tudo isso.

Perdemos, assim, a capacidade de enxergar como premissas aparentemente corretas têm consagrado caminhos opostos, por descuido ou má fé, perdidos entre tantas falas e encenações.

“Será que eles acreditam nisso que estão dizendo?”, pergunta um amigo não menos avesso ao espetáculo de gestos, palavras, bichos infláveis e coreografias que se transformou qualquer debate dito sério no País. "É o que ganha voto", me garante outro amigo.

“O valor de uma ideia nada tem a ver com sinceridade”, diria lorde Henry, o cínico personagem de O Retrato de Dorian Gray. É dele a expressão que resumia, em 1890, o aprisionamento ao instante que parecemos agora inspirar: “O homem bem informado faz parte do ideal moderno. E a mente do homem bem informado é uma coisa horrível”. Por aqui, a sentença vale todas as aspas. Bem-aventurados, pois, os pouco confusos que amanhecem felizes: eles são capazes de enxergar o éden nos retratos mais miseráveis das nossas paredes.