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Política

O eleitor é quem pauta o debate

por Redação Carta Capital — publicado 13/10/2012 10h51, última modificação 16/10/2012 05h53

Por Piero Locatelli e Sergio Lirio

Visivelmente cansado após uma campanha intensa no primeiro turno e reiniciada a todo vapor mal os resultados das urnas foram anunciados na noite do domingo 7, o petista Fernando ­Haddad recebeu CartaCapital em seu escritório no comitê eleitoral no centro de São Paulo. Em meio às negociações de apoios no segundo turno e às definições de uma extensa agenda nas próximas semanas, entre uma xícara de café e vários telefonemas, o candidato avaliou o cenário da disputa. Segundo ele, a insistência em pautar o julgamento do “mensalão” no debate eleitoral e o obscurantismo religioso não vão influenciar as urnas. Para Haddad, a cidade quer mudança. Quanto ao discurso de José Serra, que prometeu governar para os pobres, ironizou: “É uma piada de mau gosto. Ele deve desculpas à periferia”.

CartaCapital: Como é possível escapar do debate sobre o mensalão no segundo turno de São Paulo?
Fernando Haddad: Não vou fugir de nenhum debate. Mas o que tenho dito e repetido é que eu nunca fui abordado para responder a respeito desse assunto por nenhum cidadão. E todos os dias eu fui perguntado a respeito por jornalistas. Quer dizer, este não parece um tema, uma pauta, do eleitor. Mas se alguém me perguntasse na rua, responderia sem problemas. Entendo que o cidadão vai pautar o debate sobre a cidade, vai exigir soluções. Ele não está feliz, está sofrendo. Hoje, o paulistano, o morador de São Paulo, sofre nas filas, nos trens, nos ônibus, nos hospitais. A educação vai mal. Imagina São Paulo ter indicadores de qualidade piores do que os de Teresina, que tem metade dos recursos de São Paulo para investir. Como a cidade mais rica do País tem uma educação tão pobre? Não posso me desviar do assunto central, que é discutir a cidade.

CC: Em seu primeiro discurso após o resultado oficial do primeiro turno, Serra voltou a citar o julgamento no Supremo. Em resposta, o senhor mencionou nos últimos dias o “mensalão mineiro”. A sua campanha pretende explorar esse tema?
FH: Não posso antecipar nossa estratégia. As decisões táticas a serem tomadas vão depender muito dos desdobramentos da campanha. Não se pode interditar um debate, qualquer um. Se ele acontecer, vamos responder. Mostrar que não se trata de uma questão partidária. Basta ver o que acontece na cidade. As denúncias referentes à administração municipal, ou mesmo estadual, não ganham o mesmo destaque daquelas que ocorrem em plano federal. Mas há inúmeros secretários que respondem a processos de improbidade e cujos indícios de problemas são muito claros.

CC: Celso Russomanno obteve suas maiores votações em redutos petistas. Como recuperar esse eleitor?
FH: É preciso compreender os votos em Russomanno. Quase um quarto do eleitorado o escolheu e está preocupado com temas que ele expôs na campanha. Dois temas em especial preocupam bastante os paulistanos, a segurança e a qualidade do serviço público. Nas nossas próprias pesquisas qualitativas eles apareciam como pontos importantes. Precisamos prestar atenção a essas demandas. No nosso caso, trata-se de expor melhor nossa plataforma. Fui o único candidato a apresentar um programa de governo. Na questão da segurança, por exemplo, temos várias propostas. Vamos apresentá-las aos eleitores.

CC: O senhor não demorou a criticar Russomanno?
FH: Não, foi no momento certo. Não posso ver êxito maior em uma campanha. Saí de 3% e cheguei a 30%.

CC: Mas é um índice menor do que o PT tem obtido nas últimas eleições.
FH: No contexto atual, com um candidato novo, com uma agenda política sobrecarregada com assuntos que nada têm a ver com as eleições municipais e que tomaram conta dos noticiários...

CC: Foi uma eleição despolitizada?
FH: Não havia a necessidade imperiosa da sobreposição dos calendários (entre a eleição e o julgamento do “mensalão”). Nada estava para prescrever em dois meses. Obviamente, a agenda municipal acabou prejudicada, nada que não seja reversível. Mas é inegável a concorrência das agendas. Ao longo de 45 dias, com exceção dos dias em que as pesquisas foram divulgadas, a eleição municipal nunca foi o assunto principal dos jornais, revistas e sites noticiosos.

CC: O eleitor demorou a se conectar nas eleições.
FH: Sim, a população demorou a perceber, pois a agenda era outra. A agenda era o julgamento. E o julgamento poderia ter acontecido a qualquer momento, por mim teria acontecido há dois anos, teria sido melhor. Esse tipo de coisa, quanto antes melhor, quanto mais cedo resolver, melhor. Mas a coincidência perfeita de certa forma prejudicou os debates sobre as cidades.

CC: Como o senhor interpreta os votos do Chalita?
FH: Assim como Russomanno foi visto como uma novidade dos bairros periféricos, Chalita foi uma novidade do centro expandido, soube dialogar com essa fatia do eleitorado. Teve o ônus e o bônus de não liderar. Isso lhe permitiu fazer uma campanha sem sofrer nenhum tipo de ataque.

CC: O Serra acusa o PT de governar para os ricos e promete administrar para os pobres. O que o senhor acha?
FH: Soa como uma piada de mau gosto. Isso vai ser muito mal recebido na periferia, a rejeição dele pode aumentar ainda mais. Na verdade, ele deve um pedido de desculpas à periferia, aos pobres. A cidade está maltratada, os pobres estão maltratados. Chegaram a requintes de crueldade.

CC: O que o senhor chama de requintes de crueldade?
FH: Cassar alvará de ambulantes com deficiência, proibir caridade com população de rua e escrachar lojista da periferia com multas extremamente arbitrárias.

CC: O senso comum reza que o segundo turno é outra eleição. O senhor concorda?
FH: Seria se o Russomanno tivesse passado ao segundo turno. Mas creio que esta vai ser uma eleição nos moldes tradicionais.

CC: Qual será a mensagem de sua campanha?
FH: Mudança. O eleitor votou pela mudança. Mais de 60% dos votos foram dados a favor da mudança. Há espaço para mostrar que existe uma forma segura de fazê-la, uma maneira adequada.

CC: O senhor teme ataques religiosos como os do pastor Silas Malafaia, que voltou a mencionar o suposto “kit gay” elaborado quando o senhor era ministro da Educação?
FH: Não. A maioria dos eleitores está esclarecida a respeito. Quem jogar no obscurantismo pode até ganhar alguns votos, mas vai perder mais do que ganhar. Não tenho a menor dúvida. Fui muito bem votado entre os evangélicos. Não tive nenhuma dificuldade.

CC: O peso da religião e de seus líderes é supervalorizado?
FH: Depende. Se um candidato ofender a crença de alguém, não duvidaria dos efeitos (negativos). Mas não é o meu caso.

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