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Mulher de Cachoeira é 'mensageira do grupo criminoso' , diz MPF

por Gabriel Bonis publicado 30/07/2012 19h05, última modificação 06/06/2015 16h54
Para a Procuradoria, a investigação sobre a vida do juiz demonstra que o grupo de Cachoeira continua ativo e enfrentando o Estado
Andressa

Andressa Mendonça, esposa de Carlinhos Cachoeira. Foto: Agência Brasil

O Ministério Público Federal em Goiás definiu Andressa Mendonça, mulher do bicheiro Carlinhos Cachoeira, como a “mensageira do grupo criminoso” do contraventor. A declaração ocorreu em uma coletiva de imprensa do órgão em Goiânia, nesta segunda-feira 30, para trazer detalhes sobre a suposta chantagem contra o juiz federal Alderico Rocha Santos, revelada por ele ao portal G1.

O magistrado, responsável pelo processo da Operação Monte Carlo da Polícia Federal – que resultou na prisão do bicheiro -, afirmou que Mendonça pediu na quinta-feira 26 um alvará de soltura a Cachoeira para evitar a publicação de um dossiê contra o juiz. O material seria publicado, segundo a versão, com a ajuda do jornalista Policarpo Júnior, repórter da sucursal da revista Veja em Brasília. A revista disse que estuda processar “o autor desta calúnia”.

Após a abordagem, o magistrado notificou o MPF goiano, que nesta segunda-feira se pronunciou sobre o caso. Segundo o órgão, Andressa Mendonça é agora investigada em duas ações: por lavagem de dinheiro, corrupção e corrupção ativa. A quadrilha de Cachoeira, segundo o órgão, tinha a intenção de usá-la como laranja na fazenda Santa Maria, em Luziânia (GO), adquirida pela organização e avaliada em 22 milhões de reais. Caso condenada, as penas dos crimes somadas podem chegar a 22 anos de prisão.

Mais cedo, a mulher do bicheiro foi interrogada por três horas na Superintendência da PF em Goiânia. Ela permaneceu em silêncio e foi liberada às 12h15 sob a condição de pagar 100 mil reais em dinheiro em três dias como fiança. Caso descumpra a ordem, será emitido um mandado de prisão preventiva.

A decisão do juiz federal Mark Yshida também incluiu uma busca e apreensão na residência de Mendonça. A ação ocorreu às 7 horas da manhã no condomínio Alphaville, onde Cachoeira foi preso, mas não na mesma casa. Foram apreendidos dois computadores, iPads, um celular e documentos manuscritos. Mas, segundo o delegado federal Sandro Paes Sadre – que participou da incursão -, o dossiê não foi apreendido durante a busca. “Apreendemos documentos que podem indicar e comprovar a existência do dossiê, além de mídias diversas que foram enviadas à perícia”, declarou a CartaCapital. O resultado das análises deve ser apresentado em até 20 dias.

A PF, aponta o delegado, trabalha com a hipótese de Mendonça ter coagido o juiz sozinha, mas não descarta a possibilidade de o bicheiro ser o mentor da tentativa. “São fatos isolados, mas próximos. Um não impede o outro e pode ser que mais para frente haja convergência". Sadre destaca, no entanto, que o ato de corromper é personalístico e, a não ser que seja comprovada a existência de um mentor, a única a responder pelo crime é Mendonça. A PF também não descarta a possibilidade de que o documento e a suposta chantagem tenham sido orquestrados para tentar tornar o juiz suspeito e forçá-lo a deixar o caso.

Sadre ainda destaca que a elaboração de dossiê não caracteriza crime, desde que não haja quebra de sigilo ilegal para obter informações.

A chantagem, se confirmada, pode levar a mulher do contraventor à prisão por até 12 anos por corrupção ativa. Além disso, Mendonça pode ser acusada de coação no curso do processo, com pena de até quatro anos. Por enquanto, ela não pode ter contato com nenhum dos acusados da Operação Monte Carlo, o que inclui seu marido. Ela também não pode ter contato com Santos e aos prédios da Justiça Federal.

Para o MPF, Mendonça mostrou “o desprezo e a afronta de Carlos Augusto de Almeida Ramos e de pessoas ligadas ao capo do grupo criminoso aos órgãos de persecução e ao poder judiciário” e ao Estado Democrático de Direito. O MPF ainda destacou que a investigação sobre a vida do juiz demonstra que o grupo continua ativo e enfrentando o Estado.

Chantagem

Ao G1 Santos disse ter recebido Mendonça na quinta-feira em uma sala com uma assistente. A mulher de Cachoeira insistiu para que a funcionária deixasse a sala porque queria falar de questões pessoais. Quando já estavam a sós, ela disse ao juiz sobre o dossiê.

O magistrado também afirma ter encaminhado ao Ministério Público um papel com nomes de pessoas escritos por Andressa com quem o juiz teria sido fotografado: o ex-governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB) cassado em setembro de 2009 por suspeita de abuso de poder politico nas eleições de 2006, um fazendeiro do Tocantins e Pará chamado Maranhense e um amigo de infância do juiz conhecido como Luiz, que responderia a processo por trabalho escravo. Ele também encaminhou as imagens da entrada e saída da mulher do prédio da Justiça Federal. A denúncia está a cargo dos procuradores da República Léa Batista, Marcelo Ribeiro e Daniel de Resende Salgado.

Santos assumiu o caso depois que o juiz Paulo Augusto Moreira Lima pediu para deixar o processo por sofrer ameaças.

Em nota, a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) manifestou “irrestrito apoio” a Santos. Segundo a entidade, o juiz comunicou corretamente a suposta tentativa de coerção ao MPF, que tomou as medidas cabíveis. "A Ajufe, entidade de classe de âmbito nacional da magistratura federal, manifesta irrestrito apoio ao juiz federal Alderico Rocha Santos, que, indevidamente, foi procurado pela Sra. Andressa Mendonça, alegando ter contra ele dossiê que seria publicado em revista de grande circulação."

“A atitude do juiz federal demonstra transparência e que a Magistratura Federal não se intimida por esse tipo de conduta”, completou o comunicado.

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