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Política

Entrevista - Esther Solano

"Moro está se tornando uma figura messiânica"

Para pesquisadora da Unifesp, descrédito em políticos e partidos tradicionais expresso na manifestação do domingo fragiliza a democracia
por Tory Oliveira publicado 15/03/2016 14h22, última modificação 15/03/2016 17h18
Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas
Manifestação SP

Manifestante ergue cartaz com apoio ao juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, em ato pró-impeachment em São Paulo

Expresso nas últimas manifestações do domingo 13, em especial na avenida Paulista, o antipetismo é apenas a ponta do iceberg das insatisfações dessas parcelas da população com o sistema político e partidário tradicional. Essa é a avaliação da pesquisadora da Unifesp, Esther Solano, que desde junho de 2013 debruça-se sobre as grandes manifestações de rua no Brasil. 

No domingo, quando 500 mil manifestantes marcharam em ato pró-impeachment de Dilma Rousseff em São Paulo, Esther caminhou com os manifestantes para realizar uma pesquisa qualitativa com 30 participantes do protesto. 

Para a socióloga, as investigações contra Lula ajudaram a catalizar as manifestações pró-impeachment, verdadeiras demonstrações de força contra o governo e contra o Partido dos Trabalhadores (PT), na visão da socióloga espanhola. 

A figura do juiz Sérgio Moro, presente em faixas, cartazes e palavras de ordem, ganhou traços messiânicos na voz dos participantes do ato. "É um misticismo muito preocupante. Quando começa esse tipo de discurso, não há controle, você está levando o discurso para uma dimensão que não é política, mas sim emocional".  

CartaCapital: Como a senhora analisa as manifestações do domingo 13?

Esther Solano: Estávamos monitorando para saber o tamanho dela e tínhamos a impressão que seriam talvez um pouco menores, mas não, realmente foram muito grandes. Em termos quantitativos foi um sucesso. Acho que ela acontece em um momento muito complicado, em que houve o pedido de prisão do Lula e que a Dilma está muito fragilizada. Foi, de alguma forma, uma demonstração de força contra o governo e contra o PT. Estamos também avaliando o protesto pró-Dilma e pró-Lula e quase com toda a certeza será menor do que a de domingo. Nessa correlação de força, acredito que o governo e o Partido dos Trabalhadores (PT) sairão enfraquecidos.

CC: O tamanho das manifestações, de fato, era inesperado? Por que mais gente foi às ruas?

ES: Sim, de fato foi inesperado. Acho que o fator catalizador fundamental neste ultimo processo foi a questão do protagonismo da figura do Lula. O fato de ter tido primeiro a condução coercitiva,depois o pedido (de prisão preventiva) do Ministério Público de São Paulo. De certa forma, desgasta-se o centro neural da política do PT, que é o Lula. No sentimento dos manifestantes,  o centro de tudo é Lula, e quando há um pedido de prisão contra ele, isso cataliza muito o sentimento antipetista.

CC: O que significa, na sua opinião, a rejeição também a políticos como Aécio e Alckmin? 

ES: Talvez seja o dado mais interessante do que aconteceu no domingo. Porque a Dilma e o Lula todo mundo já sabia que seriam hostilizados, mas os outros também foram: o Aécio Neves, a Marta, o Alckmin, o Dória, o Matarazzo, a maioria. É uma coisa que já estamos monitorando na pesquisa: fica muito claro que o sentimento mais visível seja o antipetismo, mas que, no fundo, há uma crise no sistema politico e partidário como um todo. Porque São Paulo é um pólo tucano, pura e simplesmente, na manifestação, a grande maioria é eleitor do Aécio e do Alckmin e, mesmo assim, houve uma deslegitimação política deles. Por isso, acho que está em crise esse sistema político tradicional como um todo - nenhum partido representa totalmente a população. 

CC: Algum grupo político tradicional é capaz de capitalizar em cima dos protestos?

ES: Talvez mais do que grupos políticos, percebo mais que esse capital possa talvez ir para figuras mais isoladas. No domingo, por exemplo, a figura do Moro recebeu apoio brutal. Imagina o capital político que ele está ganhando, por exemplo, não sei se ele utilizará o capital. Mas o que fica claro é que o descredito na na política tradicional abre a porta para figuras que estão, digamos assim, fora do mainstream. O Moro, por exemplo, está colocado como uma figura messiânica. Muita gente falava: "Ele vai salvar o Brasil", "Ele vai salvar o Brasil da corrupção", "A gente confia nele porque ele é o único que luta pelo Brasil". Outra figura muito mais preocupante é o Bolsonaro, que pode também capitalizar toda essa insatisfação. 

CC: Que consequências que pode ter esse descrédito? 

ES: Sobretudo, uma fragilidade institucional muito grande. Porque você tem, por um lado, o descrédito do Congresso como um todo, dos partidos políticos, da imprensa de forma geral, então quando há uma sociedade que não acredita nas instituições, você fragiliza muito a democracia. Como a democracia pode funcionar sem as instituições? Acho que tudo isso fragiliza e provoca problemas no funcionamento da democracia. 

CC: O fato do perfil do manifestante de domingo 13 ser mais elitizado está sendo utilizado pela esquerda governista para, de certa forma, desqualificar o protesto. Qual é a sua visão sobre isso?

ES: Acho que é um erro político. Não tem como negar que o protesto foi branco e elitizado, é verdade, os números estão aí. Mas isso não significa que não exista uma boa parte da população de renda mais baixa, que tradicionalmente vota no PT, e que está muito insatisfeita. Eu não gosto desse tipo de análise que desqualifica dizendo "eles não representam ninguém". Cuidado, porque o descontentamento na periferia e das bases tradicionais do PT também estão muito criticas e isso é uma coisa que não deveríamos deixar de lado.

CC: E nem a esquerda e nem a direita estão conseguindo mobilizar essas pessoas.

ES: Isso é interessante de pensar. A periferia, no fundo, não é escutada por ninguém, nem pela esquerda e nem pela direita. Na manifestação eu pensava: imagina se o Vem Pra Rua, o Movimento Brasil Livre e os Revoltados Online conseguissem mobilizar esse sentimento antipetista na periferia? Vamos ver, pelo jeito não surgiu nenhum interesse por esse tipo de grupo social. A esquerda, ou mais especificamente o petismo, abandonou muito o projeto político na periferia. Ninguém conta com a periferia, sendo que são quantitativamente maioria, mas politicamente não tem tanta força política quanto a classe média alta.

CC: A senhora destacou que o  protagonismo do juiz Sérgio Moro está em ascensão entre os manifestantes. Por que isso acontece e quais seriam as consequências?

ES: Já estávamos monitorando o protagonismo do Moro desde a primeira manifestação, a ideia de que ele seria um héroi e estaria lutando pelo Brasil, etc. Só que nesta última, a diferença fundamental foi que a Operação Lava Jato voltou-se contra o Lula. De alguma forma, para esses manifestantes, a figura do Moro fica mais legitima ainda. É a luta do bem contra o mal, do Moro x Lula. O que me preocupa mesmo não é o apoio a ele, que é totalmente legítimo, mas sim as frases messiânicas que ouvi: ele é heroi, é o salvador, é o único que pode fazer algo pelo Brasil. É um misticismo muito preocupante, porque ele é simplesmente mais uma figura do Judiciário e, quando você começa com esse tipo de discurso messiânico, não há controle, você está levando o discurso para uma dimensão que não é política, mas sim emocional.

CC: Com o Lula acontece a mesma coisa entre os governistas.

ES: Justo, personifica-se o debate com Lula e Moro. O Lula também mobiliza muito essa dimensão sentimental, simbólica, ele é um mito também. É como se o debate político fosse menos de argumentos, de ideias e proposta e cada vez mais um debate emocional, mais visceral. Isso é muito perigoso. 

CC: A que a senhora atribui esse tom mais visceral?

ES: Acho que a decadência da política mais tradicional, os partidos não conseguem de fato representar as diversas ideologias, não tem realmente partidos com uma proposta ou com um programa de governo, uma proposta ideológica forte. Quando há uma fragilidade institucional e política tão grande e depois uma sociedade muito polarizada - aliás, não podemos esquecer que o Brasil é muito polarizado, muito desigual historicamente - é a terra perfeita para discursos muito mais extremos. 

CC: Lula ainda tem força para se reerguer?

ES: Sim, ele tem. Estou analisando assim: se realmente o Moro não tiver provas contundentes e incontestáveis contra ele, Lula vem forte para 2018. Brincamos hoje na sala de aula: se o Moro não colocar o Lula na cadeia, ele vai colocá-lo na presidência. Se as provas foram contundentes é isso e pronto, mas, se não, o Lula ainda tem um capital mobilizador enorme. E esse mito do Lula perseguido político mobiliza muito. 

CC: Outro aspecto que chamou a atenção foi o menor número de jovens presentes entre os manifestantes no domingo.

ES: Essa é uma pergunta interessante, sobre a qual eu ainda estou pensando. Os organizadores são muito jovens, no MBL eles tem 18 anos, mas quem vai para a rua é um perfil família, por volta dos 40, 50 anos. Eu não sei muito bem se uma boa parte da juventude, por uma questão etária, fica mais com a esquerda e com o progressismo ou se essa parcela mais elitizada da população de jovens estão pouco politizados ainda. Se você compara com manifestações do Movimento Passe Livre com essa última, não tem absolutamente nada a ver. A questão da faixa etária é fundamental: parece que ainda o discurso progressista mobiliza mais a juventude. 

CC: Qual é a expectativa das manifestações pró-Dilma e Lula marcadas para sexta 18?

ES: Será uma coisa bem simbólica, porque sinceramente avalio como uma demonstração de força dos dois lados. O Moro já demonstrou uma capacidade de mobilização muito grande, a figura dele ficou muito legitimada no domingo porque, de alguma forma, ele ficou como o vencedor da história. Agora vamos ver qual é a capacidade de mobilização de Lula, do PT e do governo Dilma. Como o partido e o governo estão enfraquecidos, fica esse grande nó. Mas se o PT não conseguir dar uma resposta contundente e levar militantes para a rua, a situação fica mais problemática para o partido.