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Matemática militar

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 17/12/2015 19h31
Estimativas da PM não respondem à realidade, mas ao desejos de seus comandantes, se não do próprio governador
André Tambucci/ Fotos Públicas e Paulo Pinto/Agência PT
Atos de dezembro

A diferença entre os números da PM para os atos é motivo de riso nas redes sociais

Estimativas do tamanho de manifestações populares sempre foram controversas e quase sempre enviesadas. Aquelas para as mais recentes manifestações a favor e contra o processo de impeachment de Dilma foram particularmente curiosas.

Na manifestação da direita, do domingo 13, a Polícia Militar estimou uma presença de 30 mil. O Datafolha, com inusual e improvável precisão, assegurou que foram 40,3 mil, com 37,8 mil no “momento de maior concentração” e 3,7 mil presentes “do começo ao fim”.

O instituto afirma ter estimado a densidade do público e aplicado questionários para medir a renovação e distinguir os manifestantes daqueles que aproveitavam o domingo de lazer, mas mesmo com uma catraca seria difícil ser tão preciso.

O importante é a ordem de grandeza, que indica que o movimento murchou mais que o pato da Fiesp se comparado aos 210 mil estimados pelo mesmo Datafolha em 15 de março (quando a PM divulgou o fantasioso número de um milhão) ou os 135 mil de 16 de agosto.

O fracasso foi admitido pelos próprios organizadores: embora alegassem que o número chegara a 80 mil, alegaram falta de preparação e passaram a considerar o evento como um mero “esquenta” para o próximo protesto, esperançosamente marcado para 13 de março.

Mais divertido foi, porém, o caso da manifestação da esquerda, na quarta-feira 16. Desta vez, a Polícia Militar cravou 3 mil e o Datafolha em 55 mil, enquanto os organizadores proclamavam 70 mil (MTST) a 100 mil (CUT). O número da PM, absurdo ante as fotos da multidão, foi motivo de riso nas redes sociais.

No dia seguinte, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo fez uma revisão de 1.567%, reajustando o número para 50 mil. A SSP culpou pelo erro a imprensa, que teria noticiado como final uma estimativa referente apenas ao início da manifestação.

Jornalistas de diferentes órgãos  asseguram, porém, ter questionado a PM sobre os números durante e após o ato e sempre terem recebido o mesmo número de 3 mil. O Estadão informa ter perguntado à responsável pelo atendimento a qual momento se referia a estimativa e esta assegurou que se referia às 18:50, auge da concentração.

Assim como o fisicamente impossível milhão de 15 de março, os 3 mil de 16 de dezembro levam a concluir que as estimativas da PM não respondem à realidade, mas ao desejos de seus comandantes, se não do próprio governador.

Dizia o jornalista e deputado francês Georges Clemenceau no século XIX que “basta adicionar ‘militar’ a uma palavra para fazê-la perder o seu significado. Assim, a justiça militar não é justiça, a música militar não é música.” E aparentemente o mesmo se aplica à matemática.