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Grandino Rodas, o bárbaro

por Cynara Menezes — publicado 17/04/2012 14h14, última modificação 06/06/2015 18h22
Ditatorial, o reitor da USP administra a maior universidade da América Latina com mão de ferro
USP

Estudante é retirado a força de ocupação na reitoria da USP, em novembro de 2011. Desde a ditadura, não havia o risco de tantos alunos serem expulsos como agora. Foto: André Lessa/AE

Imaginem um lugar com cerca de 110 mil habitantes e quase 5 milhões de metros quadrados, todo cercado, com um administrador que toma decisões sem ouvir ninguém, que recorre à repressão policial e ao banimento de dissidentes e utiliza espiões para se manter informado da atividade dos adversários. Não, não se trata de nenhuma republiqueta de bananas, mas da maior universidade do País, a USP, sob a governança do reitor João Grandino Rodas, também conhecido no campus como “o rei”.

Desde que assumiu a direção da USP, em 2010, uma série de medidas polêmicas tem colocado na berlinda a gestão de Rodas, criticada como pouco democrática, para dizer o mínimo. Em janeiro deste ano, vieram à tona documentos que mostram que o reitor recebe de arapongas relatórios sobre o que se passa nas reuniões dos funcionários, professores e alunos. Confeccionados por certa “sala de crise”, os textos trazem todos os detalhes sobre as assembleias, narradas ponto a ponto, inclusive com os nomes e ligações partidárias dos envolvidos.

A última das controvérsias envolvendo o reitor ainda está por vir: na semana passada, os 73 alunos presos durante a ocupação da reitoria, em novembro do ano passado, começaram a receber a intimação para apresentarem defesa no processo movido contra eles pela USP. Não se trata apenas de expulsão, mas da “eliminação” dos estudantes, baseada num regimento da época da ditadura: se confirmada, nenhum deles poderá retornar, por meio de vestibular, nem se empregar na universidade. Ou seja, estarão banidos.

Embora a ocupação da reitoria tenha sido considerada desastrada até mesmo por representantes dos alunos, também a punição é vista como digna de quem governa como ditador. Será a primeira vez, desde os anos de chumbo, que a USP expulsa alunos em massa. Em dezembro do ano passado, seis estudantes foram expelidos da universidade por terem ocupado o prédio da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas) em 2010. Se os 73 também saírem, a universidade alcançará o impressionante número de 79 alunos eliminados em dois anos de administração Rodas. É o equivalente a um terço do total de estudantes expulsos durante toda a ditadura no País: 245, segundo cálculos da Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça.

Cinco dos alunos expulsos já estão recorrendo da decisão. No mês passado, o juiz da 10ª Vara de Fazenda Pública de São Paulo, Valentino Aparecido de Andrade, mandou a USP readmitir um deles, sob a alegação de que a pena foi “excessiva”. A universidade anunciou que vai recorrer. Na terça-feira 10, outro expulso, o estudante de Geografia Yves de Carvalho Souzedo, assinou um artigo no jornal Folha de S.Paulo questionando a decisão da USP de defenestrá-lo, às vésperas de receber o diploma de conclusão do curso, sem que fossem apresentadas provas de seu envolvimento na ocupação.

“Acordei com a notícia de que tinha sido expulso. Foi uma cacetada: já havia sido aprovado em concurso para ser professor da rede pública estadual e não posso assumir o cargo porque não tenho diploma”, disse Yves a CartaCapital. Ele afirma que nunca pertenceu a partidos políticos e não ocupou a Coseas. “Estive lá para dar solidariedade aos colegas quando fui avisado de que a polícia estava chegando. Minha expulsão foi uma decisão política do reitor, que esperou o momento certo para intimidar os estudantes. Tanto é que todo mundo pensa que fomos expulsos por causa da ocupação da reitoria.”

Diretor reeleito do Diretório Central dos Estudantes (DCE), o estudante de Ciências Sociais Pedro Serrano acusa o reitor Rodas de seguir uma política de “criminalização” das entidades representativas dos estudantes, professores e funcionários. “Ele não debate. Várias medidas que toma não foram sequer submetidas ao Conselho Universitário. Para nós, a política de militarização da universidade não é motivada pela insegurança, mas um pretexto para o controle ideológico”, diz Serrano.

Em fevereiro, dez diretores da Associação dos Docentes da USP (Adusp) foram interpelados judicialmente pelo reitor por causa de frases atribuídas à entidade em editorial de O Estado de S. Paulo. “É uma tentativa de calar vozes críticas à forma como ele vem administrando, gerindo e representando a USP. Demonstra a opção por um método de viés autoritário, cuja principal característica é a intolerância”, acusa César Minto, vice-presidente da Adusp.

“O consenso não é uma das virtudes do reitor Grandino Rodas. Os conflitos aumentam quando chegam às mãos dele”, opina o professor da Faculdade de Ciências Humanas, Filosofia e Letras Vladimir Safatle, colunista de CartaCapital. “Infelizmente, ele não é a pessoa adequada para ocupar o cargo de reitor. Precisávamos de alguém que diminuísse os conflitos, que tivesse uma ascendência acadêmica clara. Um reitor deve lembrar que a universidade não funciona graças a ele, mas independentemente dele. Não é o caso de Rodas.”

A questionada convocação de policiais militares para cuidar da segurança na USP foi decidida pelo Conselho Gestor, em caráter emergencial, em maio de 2011, após o assassinato de um aluno dentro da Cidade Universitária, em tentativa de assalto. Em outubro, depois que três alunos do curso de Geografia foram presos pela PM por estarem fumando maconha no estacionamento, aconteceu a ocupação da reitoria, que acabou com a chegada de 400 policiais da tropa de choque da PM, expulsando e prendendo os estudantes.

As entidades representativas de alunos, professores e funcionários sempre defenderam que o policiamento deveria ser feito pela Guarda Universitária e que faltou debater o assunto, como ocorre em outros países – no México, por exemplo, um grupo de reitores discute atualmente como resolver o problema dos assaltos, sequestros e do narcotráfico dentro dos campi universitários. Segundo o professor de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura da USP Nabil Bonduki, trata-se de um problema complexo, porque o modelo para as universidades foi pensado nas décadas de 1940 e 1950, e está superado.

“As cidades universitárias são enormes e distantes, uma área cercada que não se integra e não incorpora usos urbanos. Isso leva à desertificação nos horários e dias em que não há aulas”, opina Bonduki, para quem o policiamento é só parte da solução. “Deveria haver novos espaços residenciais, para povoá-la mais, um sistema de transporte público eficiente para reduzir a presença de automóveis no campus, conexão entre a estação de trem próxima e a universidade, e que a USP voltasse a ser um espaço de lazer para a cidade, como já foi. Atualmente está fechada ao público nos fins de semana. Mas tudo isso tem de ser discutido com a comunidade, inclusive com seu entorno.”

Na vizinhança da USP, a Favela São Remo foi recentemente alvo de uma denúncia da TV Bandeirantes: um relatório da Polícia Civil de São Paulo revelou conexões entre o tráfico de drogas ali exercido, e ninguém menos que o batalhão que policia a universidade. Uma pesquisa feita pelo instituto Datafolha em novembro do ano passado mostrou que 58% dos estudantes da universidade apoiam o policiamento, mas 57% deles também disseram que a presença da PM não havia alterado a sensação de falta de segurança no campus.

Não bastasse ter chamado a polícia para dentro da universidade, há duas semanas foi noticiada a contratação, pela reitoria, de um coronel reformado da PM para ser o responsável pela segurança da universidade, na recém-criada Superintendência de Segurança (SS).

Uma das primeiras polêmicas envolvendo o reitor foi justamente a utilização do termo “revolução de 1964” em uma placa no monumento em homenagem aos mortos e desaparecidos da ditadura que está sendo erguido na Cidade Universitária, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência. Denunciado o ato pela imprensa, a placa foi retirada, mas o próprio Rodas costuma utilizar a expressão “revolução” em entrevistas. A CartaCapital o reitor se recusou a falar: exigiu que as perguntas fossem enviadas por e-mail, o que se deu, mas elas não foram respondidas até o fechamento desta edição.

Outro acontecimento digno de dúvida sobre a visão do reitor em relação à ditadura aconteceu no julgamento, em 1997, do processo da estilista Zuzu Angel pela Comissão de Mortos e Desaparecidos, da qual Rodas era membro. O advogado negou a participação do Estado na morte mal explicada de Zuzu em um acidente de carro em 1976, por considerar que não foram demonstradas conexões do governo da ditadura com sua morte. Foi voto vencido. Em 2007, o futuro reitor da USP seria condecorado com a medalha de mérito Castello Branco da Associação Campineira de Oficiais da Reserva do Exército.

Quando ainda era candidato a reitor, em 2009, O Estado de S. Paulo interpelou Rodas sobre os rumores de que seria ligado às organizações de direita Opus Dei e Tradição, Família e Propriedade (TFP). Dizendo-se “apolítico”, ele respondeu: “Sou católico, mas, embora respeitando movimentos mais específicos dentro do catolicismo, nunca me filiei a nenhum deles”.

A rejeição ao reitor, na verdade, nasceu de uma decisão por si pouco democrática: Grandino Rodas foi o segundo candidato mais votado de uma lista tríplice, mas acabou sendo escolhido pelo então governador José Serra, quebrando uma tradição que vinha desde a volta da democracia. Hoje presidente do CNPq, o físico Glaucius Oliva, que venceu a disputa, mas não levou, chegou a se declarar “desapontado”, e disse na época: “É muito ruim quando as cabeças são pequenas o bastante para contaminar questões acadêmicas com o viés político”. Imediatamente após a decisão de Serra, os estudantes fariam o primeiro protesto contra Rodas, ocupando o prédio da antiga reitoria.

As críticas sobre o “autoritarismo” do reitor vinham, porém, de antes, do período em que foi diretor da faculdade de Direito do Largo de São Francisco (2006-2009) e terminou como persona non grata. Isso porque, no apagar das luzes de sua gestão, vieram à tona decisões tomadas sem consulta à congregação: uma delas foi a transferência da biblioteca da faculdade para um prédio vizinho, de 11 andares e sem elevador. A outra, dar nomes a salas de advogados ilustres que fizeram doação de 1 milhão reais cada um à faculdade. Uma terceira e prosaica razão foi a doação de dois tapetes persas da faculdade para a reitoria, que iria ocupar em seguida.

“Ele doou os tapetes a si mesmo”, critica o professor Sérgio Salomão Schecaira, porta-voz da Faculdade de Direito no processo que declarou Rodas persona non grata. Em março, o reitor entrou com recurso para revogar o título, mas perdeu. Após pedido da congregação ao Ministério Público Estadual, Rodas mandou devolver os tapetes. Em pé de guerra com sua faculdade de origem, é atualmente alvo de um processo movido pela congregação na Promotoria do Patrimônio Público e Social do MP por suposta malversação de verbas públicas, porque utilizou boletins produzidos pela assessoria de imprensa da USP para criticar os diretores da São Francisco.

Schecaira é irônico ao falar do desafeto. “Não tenho nada pessoalmente contra o professor Grandino. Até porque ele é um diplomata. Diplomata formado na escola americana de diplomacia, que primeiro ataca, mas um diplomata”, provoca. “Ele saiu da São Francisco com uma imagem bastante desgastada no seio da faculdade. O título de persona non grata, concedido por unanimidade, revela que não temos apreço por ele. Não se diz que quando alguém não é querido é porque ‘os santos não batem’? Pois bem, nossos santos estão em desacordo. O professor Grandino conseguiu antipatia total da faculdade de Direito, seja de docentes, seja de alunos ou funcionários.”

Sobre a administração Rodas à frente da reitoria, Schecaira é taxativo. “A gestão dele é catastrófica no aspecto democrático e sem eficiência no aspecto gerencial. No caso da PM, novamente tomou a decisão solitária de fechar o convênio, queimando o cartucho de uma discussão séria sobre a questão da segurança. O professor Grandino, em vez de governar com a comunidade universitária, preferiu assumir o papel de antagonista. Como se o fato de ser reitor o tornasse rei”, alfineta.