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'Eleito' pelo PT, Temer prepara governo 'tucano'

por André Barrocal publicado 30/04/2016 10h21
Para cientista político, traição a voto lulista é motivo de 'ilegitimidade' de futuro governo Temer
Lula Marques / Agência PT
Ato contra Temer

Manifestação contra Temer, Cunha e impeachment em frente ao Congresso Nacional, em 27 de abril

O Brasil prepara-se para um paradoxo. Se Dilma Rousseff for afastada do cargo pelo Senado nos próximos dias, como é provável, o vice Michel Temer assume a Presidência. Eleito em uma chapa liderada pelo PT, o peemedebista tem planos econômicos e sociais opostos àqueles que levaram à vitória de Dilma na  eleição de 2014. 

Para o cientista político Fábio Wanderley Reis, professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o descompasso entre as urnas e a agenda Temer é motivo de “ilegitimidade” do futuro governo. “O voto foi na cabeça de chapa, na Dilma, um voto petista. No fundo, foi um voto no Lula. É um elemento importante de ilegitmidade de um governo Temer.”

Deste ponto de vista, diz, Temer é mesmo um “traidor”, como tacham os petistas. Se parte dos eleitores de Dilma frustrou-se com a guinada conservadora dela, há razão para reclamação igual com Temer. “Se existe cobrança quanto ao que se chama de fraude eleitoral, com essa agenda do Temer isso também se aplica, ainda que ele não tenha vocalizado suas ideias na campanha.”

Alguns exemplos da agenda neoliberal de Temer que em nada se parecem com as propostas de Lula e do PT puderam ser vistos no noticiário recente.

Xodó lulista, o Bolsa Família excluirá pessoas. Foi o que disse o economista Ricardo Paes de Barros, um dos formuladores de agenda Temer, conforme entrevista publicada na segunda-feira 25 no Estado de S. Paulo. Para ele, o “Bolsa Família está inchado” e, quando enxuto, “tem gente que vai sofrer”.

O Pronatec, programa de qualificação profissional de desempregados criado no governo Dilma, também é candidato a encolher. Para Paes de Barros, o Pronatec “qualifica o desempregado de maneira cega”.

A Previdência deverá ser reformada para instituir-se idade mínima de 65 anos às aposentadorias. Revelação feita por Roberto Brant, ministro da área no governo Fernando Henrique (1995-2002) e colaborador da “agenda Temer”, ao Globo da quinta-feira 28.

Dilma preparava a mesma reforma, contra a posição de Lula e de movimentos sociais que ajudaram a reelegê-la.

Na área da infra-estrutura, o vice-presidente planeja privatizar “tudo o que for possível”.

A agenda de Temer assemelha-se à do senador Aécio Neves (PSDB-MG), derrotado por Dilma em 2014. Mais uma razão para ele ser tratado de “traidor” no PT. E para o ministro petista Ricardo Berzoini, da Secretaria de Governo, defender nova eleição, caso o Senado casse Dilma em definitivo. “Com um vice conspirador e golpista, não haverá pacificação.”