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Política

Entrevista - Marcos Coimbra

"Eleições ocorrem no pior momento da vida política desde a ditadura"

por Sergio Lirio publicado 30/09/2016 09h47, última modificação 30/09/2016 22h51
A crise política nacional e as novas regras de campanha esvaziaram o pleito municipal, diz o diretor do Vox Populi
Antonio Cruz / Agência Brasil
TSE

Teste público de segurança do sistema de votação, feito em março pelo TSE

Está difícil interpretar os rumos das eleições municipais ou escolher um candidato? Não se sinta despreparado. Até o diretor do instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, um dos mais acurados analistas políticos do Brasil, confessa uma certa perplexidade diante do cenário deste ano.

Coimbra atribui o fenômeno a dois fatores: a crise política nacional que levou ao impeachment de Dilma Rousseff capturou toda a atenção dos brasileiros ao longo do ano e as regras de campanha aprovadas em 2015 tornaram mais confusas as corridas eleitorais nos municípios.

Melhor para os candidatos “milionários”, a exemplo do tucano João Dória, aponta Coimbra, que a seguir desfaz alguns mitos sobre a importância das disputas municipais na definição das eleições presidenciais seguintes. 

CartaCapital: Como o senhor definiria as eleições municipais deste ano?

Marcos Coimbra: As eleições ocorrem provavelmente no pior momento da vida política brasileira desde a ditadura. E sob regras muito equivocadas, tão equivocadas que terão de ser, outra vez, mudadas antes da próxima disputa. Os resultados não vão melhorar o mal-estar no eleitorado. O ambiente carregado continuará o mesmo. 

CC: De que forma as regras pioraram o ambiente eleitoral?

MC: É impossível considerar a redução do tempo e a dispersão dos espaços de comunicação dos candidatos medidas mais positivas do que sua ampliação. Em todos os países civilizados, as campanhas costumam ser longas. O Brasil fez o contrário, encurtou a duração.

Além disso, as regras de financiamento ficaram extremamente confusas. Sequer houve tempo para criar uma rotina em relação às formas de captação de recursos. É difícil apontar avanços neste novo conjunto de regras aprovadas no ano passado, em um cenário político inadequado para tomar decisões dessa natureza. 

CC: Os candidatos com recursos próprios, os “milionários”, no fim acabaram beneficiados.

MC: Visivelmente. É o que se produziu com as mudanças eleitorais. Resultado de uma campanha muito curta e de um bombardeio de informações que só dificulta a tomada de decisão dos eleitores. Quem em sã consciência acha positivo 140 inserções diárias de propaganda eleitoral em rádio e tevê?

CC: Será possível apontar um ganhador nestas eleições? Algum grupo político vai se sobrepor?

MC: É difícil dizer e não se trata de uma particularidade das eleições atuais. A ligação entre as disputas municipais e nacionais sempre foi tênue. Elas têm muito mais a ver com a governabilidade do que com o fortalecimento ou não de candidaturas presidenciais. Uma parte dos futuros congressistas, aqueles que serão eleitos em 2018, começa a ser definida no domingo.

Mas o que isso representa de fato? Quase nada. Cada estado tem suas características, os partidos funcionam de maneira diferente em cada unidade da federação. Muita gente irá se apegar àquela conta boba de cidades conquistadas pelas legendas. Esse cálculo nunca significou muita coisa.

O PT e o PSDB, vencedores das últimas seis eleições presidenciais, nunca tiveram grandes performances em disputas municipais. O tal simbolismo da eleição em São Paulo é bem discutível. Lula conquistou a presidência com um prefeito tucano na capital paulista. Fernando Henrique Cardoso venceu com um petista no comando.

Vamos pensar nos dois partidos que após a ditadura ganharam mais eleições municipais: o PFL acabou, virou o DEM. E o PMDB só chegou ao poder federal por meio de um golpe parlamentar.

CC: O PT vai encolher muito, como esperam os adversários?

MC: As pesquisas mostram que o partido tem plenas chances de manter nas capitais o tamanho numérico de 2012. Há, claro, uma diferença, especialmente simbólica, entre administrar São Paulo e Recife ou Porto Alegre, duas cidades nas quais o PT está na disputa de forma competitiva. No interior de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, certamente a legenda vai encolher em número de prefeituras. Paradoxalmente não significa que os prefeitos eleitos pelo PT nas últimas eleições sairão derrotados. Vários trocaram de partido desde 2012 e continuam com enormes chances de se reeleger.

CC: Algumas capitais, São Paulo e Belo Horizonte em particular, assistem à ascensão dos candidatos que recusam o rótulo de políticos. É a vitória da antipolítica?

MC: Teremos de esperar um pouco para saber se é um fenômeno nacional ou uma particularidade da oferta de candidatos em algumas cidades. São Paulo tem suas peculiaridades. Paulo Maluf, não esqueçamos, foi campeão de votos na cidade. Celso Pitta ganhou uma eleição, assim como Gilberto Kassab. Uma eventual vitória do João Dória não seria um ponto fora da curva.

No caso de Belo Horizonte, o fenômeno Alexandre Kalil deve ser interpretado pelo lado da oferta. O eleitor reage favoravelmente ao Kalil na comparação com os demais candidatos. Não classificaria como um elemento de renovação profundo. Nas capitais e cidades médias que o instituto Vox Populi tem acompanhado, não há registros de casos semelhantes.

De esquerda ou de direita, os prefeitos que disputam a reeleição, com exceções notáveis como Fernando Haddad, em geral estão bem. Ou são favoritíssimos ou têm condições bastante competitivas, apesar da crise financeira dos municípios. Para citar dois casos: o ACM Neto lidera com folga em Salvador e o Márcio Alexandre caminha para ser reeleito em Rio Branco.

CC: Segundo o senhor, as forças que promoveram o impeachment de Dilma Rousseff simplesmente ignoraram as eleições municipais deste ano. Pode explicar?

MC: Diante da pauta nacional, as eleições municipais tornaram-se absolutamente secundárias. Fora os militantes, quase ninguém tomou conhecimento e a imensa maioria carrega a sensação de que a hora de votar chegou repentinamente. As regras eleitorais, como disse, dificultaram a escolha dos cidadãos. Antes disso, a própria Dilma Rousseff tinha rifado as eleições deste ano ao adotar o ajuste fiscal defendido pelos seus adversários políticos. Ela sabia que aquele ajuste afetaria as finanças dos municípios, em prejuízo dos candidatos de seu partido e de seu arco de alianças.

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