Você está aqui: Página Inicial / Política / Eleições locais, efeitos nacionais

Política

Eleições

Eleições locais, efeitos nacionais

por Marcos Coimbra publicado 21/07/2012 10h56, última modificação 06/06/2015 18h19
Entre os políticos e, portanto, entre os partidos, todos pensam em si mesmos no pleito municipal. Quando termina, com os ânimos serenados, tudo volta ao normal – até a nova eleição

Enquanto o sistema político só tem olhos para os recentes atritos entre o PT e o PSB, as eleições municipais avançam, tensionando toda a estrutura partidária. De quatro em quatro anos, a cada vez que chega a hora de renovar a política local, isso acontece.

Por diversas razões. A mais importante é que a escolha de prefeitos e vereadores tem consequências diretas nas eleições para o Legislativo. Fortalecer-se nas cidades antecipa dias de glória para os partidos. Já se foi o tempo em que bancadas estritamente “localistas” dominavam o Congresso. Era a época em que quase todos os deputados e mesmo alguns senadores tinham uma base eleitoral bem demarcada em termos geográficos. Sua votação concentrava-se em alguns municípios, frequentemente contíguos. Sem eles, não se elegiam.

Esses parlamentares estabeleciam uma relação de simbiose com as lideranças políticas de “suas” cidades. Na hora da eleição legislativa, prefeito e vereadores endossavam a candidatura do deputado e faziam a sua campanha, em troca do compromisso de representar a cidade no plano estadual e nacional, e buscar recursos para ela.

Dois anos depois, quando chegava a eleição municipal, o parlamentar indicava seus candidatos, apresentando-os como responsáveis por tudo de bom que houvesse acontecido na cidade e ameaçando os eleitores com prejuízos se não vencessem. Era “toma lá dá cá”: os prefeitos (e vereadores) ajudavam na eleição dos deputados e esses contribuíam para a deles.

Hoje, o tamanho das bancadas eleitas por esse mecanismo diminuiu. Mas elas continuam a existir. A ponto de alguns estudos sugerirem que a adoção do voto distrital não alteraria drasticamente o perfil da Câmara, tão expressiva é a parcela de deputados que provém de distritos informais. Boa parte do chamado “baixo clero” chega assim ao Legislativo. E é fundamental na formação de maiorias quando matérias polêmicas são votadas.

Às vezes, a carreira legislativa desses parlamentares está entrelaçada com a atuação na vida política local, em um vaivém entre Brasília e a cidade de origem. Foram prefeitos, são deputados e podem voltar a qualquer momento para a prefeitura, nada incomodados de sair da capital federal. São políticos híbridos: deputados-prefeitos ou prefeitos-deputados.

Seria um equívoco imaginar que o restante do Congresso pode se dar ao luxo de ignorar as eleições municipais, dispensar o voto que bons prefeitos e vereadores asseguram. Mesmo os parlamentares menos localistas e mais ideológicos contam com eles para formar a cesta de que precisam. Raros são os deputados e senadores que, pensando em suas carreiras, não têm interesse nos resultados das eleições locais.

Não é por outra razão que o Congresso entra em recesso em julho e permanece em “recesso branco” até outubro. As eleições de prefeitos e vereadores são tão importantes que todos param de trabalhar em seus gabinetes e vão à luta, tentando eleger seus candidatos.

Além do impacto concreto que têm na vida de cada parlamentar, ao afetar suas chances de reeleição, elas são decisivas na definição do equilíbrio de forças no Legislativo. O tamanho das bancadas é o primeiro critério para definir a influência política e o chamado “espaço administrativo” dos partidos, tanto no Congresso quanto no Executivo.

Ter um deputado a mais pode garantir a Presidência da Câmara ou de comissões importantes. A mesma coisa no Senado. Na base governista, pode significar um (ou mais de um) ministério. Por esses motivos, é natural que as relações entre os partidos fiquem tensas na véspera de eleições municipais. O que está em jogo é o futuro da maioria dos parlamentares e o poder na legislatura seguinte.

Por motivos óbvios, essas tensões não se manifestam apenas entre os partidos que formam a base do governo. Na oposição, são iguais.

Apesar da insistência na discussão da “crise” entre PT e PSB, fenômenos parecidos estão acontecendo esses dias nas relações do PSDB com seus irmãos menores, o DEM e o PPS. Para não falar na briga do PSD com os tucanos em algumas cidades, especialmente em Belo Horizonte, onde o DNA serrista do partido o levou à oposição contra Marcio Lacerda (PSB), que tem o apoio de Aécio.

O DEM é o mais chateado. Embora tenha candidatos bem colocados nas pesquisas em cidades importantes, como Fortaleza e Recife, os tucanos resolveram lançar candidatos próprios, reduzindo-lhes as possibilidades. No Rio, fizeram a mesma coisa, enfraquecendo os dois partidos. Está tão magoado que anda pensando em uma fusão com o PMDB.

Em suma: entre os políticos e, portanto, entre os partidos, quando chegam as eleições municipais, é “cada um por si e Deus por todos!” Em primeiro lugar, todos pensam em si mesmos. Quando terminam, com os ânimos serenados, tudo volta ao normal – até a nova eleição.

Últimos artigos de Marcos Coimbra:

registrado em: