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É preciso preparar a esquerda para novos tempos

por Gilberto Maringoni — publicado 28/09/2016 15h29, última modificação 28/09/2016 15h34
A candidatura de Erundina pelo PSOL em São Paulo expõe um PT com dificuldades de confrontar as elites
Divulgação
Luiza Erundina

Luiza Erundina em ato de campanha: ela faz oposição à esquerda ao PT

A eleição para a prefeitura de São Paulo não é apenas uma disputa municipal. O pano de fundo é o rearranjo de forças políticas na maior cidade do País e sua articulação com o quadro pós-golpe.

O panorama é preocupante. As sondagens apontam a supremacia de três partidos de direita, comprometidos com a montagem de um Estado de exceção. Há uma nítida marca de giz no chão a delimitar dois campos.

De um lado estão o ultraliberalismo do PSDB (Dória), a truculência suspeita do PMDB (Marta) e o fundamentalismo bom-moço do PRB (Russomano).

De outro, apresentam-se a centroesquerda, vocalizada pelo PT (Fernando Haddad), e a esquerda, encarnada pelo PSOL (Luíza Erundina).

O País foi empurrado nos últimos meses para um novo ciclo político. O que se denomina classes dominantes buscam urgentemente nova representação institucional. O PT, que em tempos de demanda externa aquecida (2005-12) pode atender aos de cima e aos de baixo, num jogo de ganha-ganha, esgotou-se como vetor organizador da vida institucional.

Ao fazer opção preferencial pelos de cima, rompeu com sua base social e abriu caminho para a senda golpista. Sem compreender que o período de alianças com setores da burguesia havia acabado por opção desta, mostra-se desaparelhado para uma conjuntura de confronto.

Uma série de medidas radicais entrou em pauta, visando garantir a travessia da crise com perdas mínimas para o topo da pirâmide social.

Elas estão consubstanciadas no tripé congelamento de gastos públicos, retirada de direitos (desidratação da CLT e reforma da Previdência) e avanço das privatizações (incluindo a entrega do pré-sal).

Não há possibilidade de conciliação. É inútil alardear, como Lula, que “nunca os bancos ganharam tanto como em meu governo”. Só seguirão ganhando em nova e brutal rodada de concentração de renda.

É preciso preparar a esquerda para novos tempos, através de uma ampla frente progressista e da montagem de um novo vetor organizador da institucionalidade. Agora haverá perdas de um dos lados.

Erundina sabe disso. Sua gestão em São Paulo (1989-93) pagou o preço por desafiar interesses e inverter prioridades, no período final da crise da década de 1980 e durante a contração dos anos Collor.

Governando em situação adversa, tendo contra si os governos federal e estadual, a mandatária reformulou para muito melhor os serviços públicos, em especial educação, saúde e moradia.

Apesar da maneira incisiva com que geriu a cidade, a baliza para a atual definição do voto não pode apenas ser o passado, mas as projeções de futuro.

Erundina chegou às eleições de 2016 como uma das principais candidatas. De saída, contava com 10% das intenções de voto.

No entanto, o conservadorismo levantou-se contra a possibilidade da construção de alternativa à esquerda. Após ter nucleado o processo de cassação de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o PSOL foi surpreendido pela Lei da Mordaça —13.165/2015—, que remete a legenda à invisibilidade de dez segundos nos tempos de TV e rádio.

A minirreforma eleitoral é obra de Cunha, dos partidos de direita e foi sancionada por Dilma Rousseff (PT). Ironia: o partido teve, juntamente com outras forças, comportamento exemplar na luta contra seu impeachment.

Nos últimos dias surgiu o argumento de que, diante do favoritismo conservador, a esquerda deveria se unir. Deve. Mas há caminhos para se fazer isso. A forma central seria um programa mínimo, a embasar o enlace.

A soma pretendida a essa altura se daria pela renúncia de uma das partes. Há apelos por uma operação casada: a unidade em São Paulo seria feita com a retirada de Erundina em favor de Haddad e a contrapartida seria a supressão da campanha de Jandira Feghali (PCdoB) em favor de Marcelo Freixo (PSOL), no Rio.

Não há segurança alguma que votos de Erundina e Jandira migrem para Haddad e Freixo. E o preço que PSOL e PCdoB pagariam por isso pode ser alto demais.

A necessidade premente para o combate ao golpe é firmeza na definição de objetivos. Ninguém tira votos de ninguém. Sufrágios não têm dono.

No mais, vale a máxima “marchar separados e golpear juntos”. Por isso, é vital votar em Erundina.

*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC e ex-candidato a governador (PSOL, 2014). É candidato a vereador.