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Opinião

Dilma e o fim do pacto do lulismo

por Gilberto Maringoni — publicado 08/03/2016 14h47
A ação contra Lula encerrou oficialmente o acordo de classes de 2002
Roberto Stuckert Filho / PR
Dilma Rousseff

Dilma em Caxias do Sul na segunda-feira 7: ela tem capacidade para sair da crise?

A questão dramática dos dias que correm é que acabou o pacto de classes selado em 2002, com a Carta aos Brasileiros. Através dela, um expressivo setor popular, capitaneado pelo PT, aceitou os termos impostos pela burguesia – assumir o governo, mas não tocar nenhum comando vital do Estado.

Esse arranjo institucional implodiu na sexta-feira 4, com a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 24 fase da Operação Lava Jato, embora seus sinais já fossem claros há mais de um ano.

Tenho muita dúvida em concordar com certas formulações, que dão conta do fim do acordo institucional celebrado na Carta de 1988, que pautou a transição democrática.

O que naufraga é o contrato de 2002, tornado possível:

1. Pelo desgaste monumental do neoliberalismo (apagão, desemprego, crise econômica etc.),

2. Pela emergência de um novo bloco (histórico) organizador do sistema político brasileiro pós-PSDB. O vetor desse bloco era o PT, em torno do qual todas as facções políticas e sociais tiveram de se posicionar.

Finda a fase de crescimento econômico observado entre 2004 e 2010 – e do amortecimento da luta de classes – o pacto perde razão de ser.

Quem o rompe é a burguesia. E isso acontece porque em tempos de retração, o compromisso do ganha-ganha – exequível naquele período – tornou-se impossível. O choque distributivo só se dará com perdas para um dos lados.

Não se trata de vontade política. Trata-se de questão objetiva. Não há o que se pactuar em tempos de retração aguda, não há excedente a ser distribuído.

O lulismo – que nunca se propôs a fazer qualquer transformação social, mas a trafegar pelo melhorismo possível –, se torna descartável nessa nova fase.

O drama é que não há um novo vetor ou bloco organizador do sistema à vista. Daí a situação de barco a deriva em que nos encontramos.

Querer que uma personalidade avessa à política como Dilma Rousseff tivesse tirocínio ou percepção da delicadeza do momento e ainda conseguisse estabelecer ou esboçar um enfrentamento – pois o acordo de classes se tornou letra morta – seria exigir demais de quem nunca fez política de verdade na vida.

É algo muito acima de suas possibilidades ou capacidades.

O lulismo tal como conhecemos – capaz de selar uma aliança policlassista – cumpriu seu papel histórico. O Lula que tem alguma chance de voltar em 2018 será outro Lula.

Ou teremos – pouco provável – o Lula do confronto com os de cima, ou o Lula que virá para implantar o pacto regressivo, iniciado por Dilma, no qual a conta é paga pelos de baixo.

Não nos esqueçamos de Alan Garcia, que cumpriu dois papéis históricos na presidência do Peru, o progressista (1985-1990) e o regressista (2006-2011).

*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da UFABC e foi candidato a governador (PSOL-SP), em 2014