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Dilma: Nunca imaginei que teria de lutar de novo contra um golpe

por Redação — publicado 12/05/2016 12h17, última modificação 12/05/2016 16h00
Em seu último discurso antes do afastamento, a presidenta se disse vítima de “injustiça” e convocou brasileiros a lutar pela democracia
Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma-Rousseff

"Aprendi a confiar na capacidade de luta do nosso povo"

Em seu último discurso antes de ser afastada da Presidência da República, Dilma Rousseff disse nesta quinta-feira 12 que foi vítima de um “golpe” e chamou os brasileiros que consideram ilegítimo o impeachment a lutar pela democracia. Por 5 votos contra 22, o plenário do Senado aprovou a admissibilidade do processo.

“Lutei a minha vida inteira pela democracia, e aprendi a confiar na capacidade de luta do nosso povo. Confesso que nunca imaginei que seria necessário lutar de novo contra um golpe no meu País”, disse Dilma em entrevista concedida no Palácio do Planalto.

“Eu já sofri a dor indizível da tortura, a dor aflitiva da doença, e agora eu sofro mais uma vez a dor igualmente inominável da injustiça”, continuou Dilma, que foi presa e torturada durante a ditadura.

“Nossa democracia jovem, feita de luta, sacrifícios e mortes, não merece isso. Aos brasileiros que se opõem ao golpe, faço um apelo: mantenham-se mobilizados, unidos e em paz. A luta pela democracia não tem data para terminar. A luta contra o golpe é longa, é uma luta que pode ser vencida, e nós vamos vencer. Esta vitória depende de todos nós. Vamos mostrar ao mundo que há milhões de defensores da democracia em nosso país”, afirmou.

“Eu sei, e muitos aqui sabem, que a historia é feita de luta. E sempre vale a pena lutar pela democracia. A democracia é o lado certo da história, jamais vamos desistir, jamais vou desistir de lutar”, completou. 

Dilma iniciou seu discurso dizendo que foi eleita por 54 milhões de brasileiros. "Em nome desses votos e de todo o povo do meu país, vou lutar com todos os instrumentos legais de que disponho para exercer meu mandato até o fim, até o dia 31 de dezembro de 2018", disse ela, para quem o processo de impeachment é “fraudulento, um verdadeiro golpe”. 

“Desde que fui eleita, parte da oposição, inconformada, pediu recontagem dos votos, tentou anular as eleições e, depois, passou a conspirar abertamente pelo meu impeachment. Mergulharam o País num estado permanente de instabilidade política, impedindo a recuperação da economia”, disse.

Em sua fala, Dilma reafirmou que não cometeu crime, que não tem seu nome envolvido em escândalos de corrupção e que o processo de impeachment é uma injustiça.

“Quando uma presidenta eleita é cassada por um crime que não cometeu, o nome que se dá a isso não é impeachment, é golpe. Não cometi crime de responsabilidade e não tenho contas no exterior. Também nunca recebi propina”, afirmou Dilma.

“Esse é um processo injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente. É a maior das brutalidades que pode ser cometida contra qualquer ser humano: puni-lo por um crime que não cometeu”, continuou.

“Não existe injustiça mais devastadora do que condenar um inocente. E injustiça cometida é mal irreparável. Essa farsa se deve ao fato de que, como presidenta, nunca aceitei chantagem de qualquer natureza. Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes. Os atos foram legais, corretos. Atos necessários, atos de governo, cometidos pelos presidentes que me antecederam. Não era crime na época deles e não é crime agora”, disse.

Vídeo publicado pela Revista Piauí

Dilma afirmou, ainda, que o novo governo, que terá Michel Temer (PMDB) à frente, não terá legitimidade para conduzir o País. "O maior risco do País é ser dirigido pelo governo dos sem-voto, um governo que não terá legitimidade para propor e implementar soluções para os desafios do Brasil. Um governo que pode se ver tentado a reprimir aqueles que protestam contra ele. Um governo que será ele próprio a grande razão para a continuidade da crise política no nosso país."

Na sequência, a presidenta afastada deixou o Palácio do Planalto e se dirigiu a manifestantes e movimentos sociais, que a esperavam do lado de fora. À multidão, Dilma fez um discurso parecido com o anterior e disse que o novo governo quer "acabar e reduzir" programas sociais.

“O que está em jogo são todas as conquistas que tivemos nos últimos 13 anos, desde o governo do presidente Lula. E as conquistas foram muitas”, afirmou. “Este é um momento em que as forças da injustiça e da traição estão soltas por aí.”

Um dos únicos pontos diferentes entre os dois discursos foi a menção ao presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

“Quem deu início a este golpe o fez por vingança, o fez porque nós nos recusamos a dar a ele, ao senhor Eduardo Cunha, os votos na Comissão de Ética para que ele fosse absolvido. A própria imprensa noticiou isso fartamente, disse que ele estava fazendo uma chantagem contra este governo. E eu não sou mulher de aceitar esse tipo de chantagem.”

Movimentos
Dilma recebe apoio de manifestantes e movimentos sociais (Roberto Stuckert Filho/PR)