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Delta pede recuperação judicial e cita 'bullying empresarial'

por Redação Carta Capital — publicado 05/06/2012 09h26, última modificação 05/06/2012 12h17
Declínio vertiginoso da empresa, maior vítima da CPI, evidencia ligações de Marconi Perillo com Cachoeira
Cachoeira_Bastos

Cachoeira e seu advogado, Márcio Thomaz Bastos, durante depoimento na CPI. Foto: Antônio Cruz / ABr

A CPI do Cachoeira, que investiga a relação do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com políticos e empresas, avança em paralelo ao vertiginoso declínio da empreiteira Delta. Em mais um capítulo do seu drama, a empresa, dona do maior número de contratos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), pediu à Justiça do Rio na segunda-feira 4 a recuperação judicial para evitar a falência e tentar um acordo com credores. Em comunicado, alegou sofrer “bullying empresarial” por causa do “envolvimento de alguns de seus executivos em supostos atos ilícitos" que levaram “várias administrações públicas" a deixar de "honrar os pagamentos de obras já executadas".

Com isso, a CPI do bicheiro sacramentou sua primeira vítima. Em poucas semanas, a Delta passou de uma empresa com faturamento anual de 4 bilhões de reais e mais de 30 mil funcionários para uma estrutura desacreditada no mercado, embora alegue em nota que todas as empresas do grupo sejam viáveis economicamente. Mas enquanto afunda, após ser ligada pela Operação Monte Carlo da Polícia Federal ao esquema de Cachoeira e aparecer como suspeita de pagar propina a políticos para avançar com negócios, a empreiteira se caracteriza cada vez mais como uma ponte entre o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o bicheiro.

Toda a atenção da mídia e do Congresso não agradou ao grupo J&F, administrador do frigorífico JBS, que anunciou na sexta-feira 1º a desistência da compra da Delta após um mês de intervenção. Segundo o presidente da holding, Joesley Batista, os holofotes sob a companhia geraram uma crise de credibilidade difícil de controlar. Um cenário agravado pela quebra do sigilo da empresa pela CPI em nível nacional, aprovada na terça-feira 29, que prolongará a exposição por meses, ao contrário do que desejava a J&S. “Uma coisa era quando exista uma CPI sobre um contraventor, e a Delta era um apêndice", disse Batista. Além disso, a Delta registra uma queda de 30% no fluxo de pagamentos por conta de atrasos, o que pode inviabilizar a manutenção de obras porque a empresa não possui mais acesso fácil à crédito no mercado para conduzir empreendimentos sem receber.

A construtora, também investigada por supostas irregularidades em contratos com o governo federal, possui cerca de 4,5 bilhões de reais em 200 contratos com o poder público. Mas responde por um processo da Controladoria Geral da União (CGU) que pode considerá-la inidônea, o que a impede de realizar novos contratos com o governo. Seria o fim de uma parceria extremamente lucrativa para a empresa. Por outro lado, ela ainda deve manter os contratos atuais devido a brechas jurídicas, embora o governo possa suspender os acordos com irregularidades. O Planalto estudaria, no entanto, a manutenção da empresa nas obras em fase de conclusão para não atrasar o cronograma oficial.

Enquanto isso, os advogados da Delta tiveram negado na segunda-feira um mandato de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar impedir a quebra do sigilo da empresa. Eles alegavam que a CPI não fundamentou a decisão pela quebra, além do único elo com Cachoeira ser no Centro-Oeste. Região na qual as averiguações da Comissão Parlamentar começam a levantar indícios do tríplice elo entre Cachoeira, Delta e Perillo.

O governador goiano, a ser interrogado pela CPI em 12 de junho – um dia antes do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), também supostamente envolvido no esquema do bicheiro -, foi citado 237 vezes por pessoas envolvidas no esquema comandado por Cachoeira. Ele, no entanto, nega que seu governo tenha sido influenciado pelo contraventor e ressalta que os contratos da Delta estão sendo auditados.

Mesmo assim, começam a pipocar ligações de Perillo com a Delta e Cachoeira. Em depoimento no dia 10 de maio, o delegado federal Matheus Mela Rodrigues, responsável pelo inquérito da Operação Monte Carlo, disse na CPI que o tucano e o bicheiro se encontraram e trocaram telefonemas - ao contrário do que afirma o peessedebista -, e que o governador participou diretamente na venda de uma casa sua para contraventor em 2011. Um imóvel em Alphaville, condomínio de luxo em Goiânia, pago por Cachoeira com o dinheiro de uma conta supostamente irrigada pela Delta, segundo peritos da PF.

Os três cheques do pagamento, que soma 1,4 milhão de reais, foram assinados pela empresa Excitant Confecções e vieram de uma conta da Caixa Econômica Federal em Anápolis (GO). De acordo com a PF, a Delta depositou pelo menos 250 mil reais nesta conta por meio da Alberto e Pantoja Construções, companhia fantasma criada por Cachoeira para desviar dinheiro da Delta. A Excitant controla uma grife de roupas que pertence à cunhada do bicheiro, Rosane Puglisi.

Perillo alega que a casa foi comprada por Walter Paulo Santiago, dono da Faculdade Padrão, que vai ser ouvido nesta terça-feira 5 na CPI. A Comissão também interrogará Sejana Martins, uma das proprietárias da empresa Mestra Administração e Participações, empresa que consta como dona da casa no condomínio Alphaville, Écio Antônio Ribeiro, único sócio remanescente da Mestra, e Eliane Gonçalves Pinheiro, ex-chefe de gabinete de Perillo.

A situação do governador de Goiás ficou ainda mais delicada na sexta-feira após reportagem do jornal O Estado de S.Paulo na qual o jornalista Luiz Carlos Bordoni, um dos responsáveis pela campanha de Perillo ao governo do estado em 2010, disse ter recebido dinheiro da empresa Alberto e Pantoja pelos serviços prestados ao tucano. O depósito de 45 mil reais, feito na conta da filha do jornalista, teria sido negociado por Lúcio Gouthier Fiúza, assessor do tucano. Após as declarações, o senador Pedro Taques (PDT-MT) pediu a convocação de Bordoni à CPI e ajudou a aumentar a pressão pela quebra do sigilo telefônico, bancário e fiscal de tucano.

E essa pressão começa a mudar o tom de apoio incondicional a Perillo no PSDB, embora o presidente da legenda Sérgio Guerra (PE) afirme ter confiança no governador goiano. Neste contexto, o senador Álvaro Dias mostrou preocupação com maneira como o partido está sendo afetado pelo caso. “É evidente que [o PSDB] fica [sangrando]. Isso sangra qualquer agremiação partidária. Nós temos que agir suprapartidariamente, especialmente quando se trata de questão ética", afirmou. Depois, ventilou o clima interno de incerteza sobre Perillo. "Há no partido os que mantêm confiança e os que não mantêm. Da nossa parte, defendemos a prudência de ouvir o governador, oferecer a ele espaço para as explicações."

*Com informações Agência Senado.