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Mino Carta

Delírios tropicais

por Mino Carta publicado 14/10/2011 10h01, última modificação 06/06/2015 18h15
Não faltam cidadãos dispostos a enxergar em Battisti um herói da liberdade e a invocar a soberania verde-amarela

Até onde vai o desvario tropical e onde começa a irresponsabilidade? A reportagem de capa desta edição conta uma história de paranoia, de certo ângulo terrificante. Os documentos secretos trazidos a público por Leandro Fortes habilitam-se a promover a hilaridade dos cidadãos das democracias ocidentais, para nós carregam o som do espanto.

Ou não? Pergunto aos meus botões, entre atônitos e perplexos, como reagiriam os herdeiros da casa-grande ao se inteirarem dos pesadelos fardados. Confessam o receio de que endossariam o delírio dos seus capitães-do-mato. A ideia da eterna vigilância não arrefece, e também se repete a prova de que ao menos uma parte das Forças Armadas enxerga-se como exército de ocupação.

Deste ângulo, perdemos pontos na admiração do mundo pelo emergente bem-sucedido. Haverá quem anote, ao tropeçar nos documentos publicados por CartaCapital, que, de certa maneira, em certas esferas, a república bananeira ainda sobrevive. Quanto aos meus botões, tendem a associar o desequilíbrio da inteligência militar a outra manifestação delirante, aquela que precipitou o Caso Battisti, o qual envolve até setores da chamada intelectualidade, orgânica e nem tanto, jejuna inclusive em história recente.

Consta que o Caso Battisti caminha para uma tentativa de solução diplomática, “e não de choque político”, como sublinhou o chanceler italiano Franco Frattini depois de um encontro com seu colega brasileiro, Antonio Patriota, no fim de setembro passado à margem da Assembleia da ONU. Consta que o governo brasileiro preferiria evitar que a questão alcance a Corte Internacional de Haia, donde a chance de vingar a ideia da negociação entre especialistas dos dois países.

Veremos. Mesmo assim, permanece o mistério: como se deu que o Brasil rasgasse o Tratado de Extradição assinado com a Itália em 1989 e se abalasse a decidir que a Justiça italiana é incompetente e o Estado peninsular não garante a segurança dos seus presos? Bem, o iter da situação simplesmente grotesca é conhecido e de como acabou por vingar a tese de uma escritora de policiais francesa junto ao então ministro da Justiça.

O Conare é integrado por representantes dos ministérios do Exterior, Saúde e Trabalho, e da Polícia Federal. Se necessário, o voto de desempate cabe ao imediato do ministro da Justiça. Itamaraty e PF queriam Battisti entregue à Itália, em obediência ao Tratado. Trabalho e Saúde, previamente doutrinados pelo infatigável Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de Battisti e representante de um pequeno grupo de pretensos esquerdistas nativos, pretendiam o asilo. O -secretário-executivo de Genro votou a favor da extradição. Decisão -tomada? Nada disso, Genro disse niet.

Agora, vejamos. Em nome de atilada visão histórica e jurídica que o Estado e os magistrados italianos, tadinhos, não têm? E será que o ex-presidente Lula realmente acredita nisso? E por que se deu que esperasse até o último segundo para tomar a decisão final? Não teria sido na esperança de que algo acontecesse pelo caminho para não obrigá-lo a um papelão? E isso tudo se deu para contentar um punhado de amigos em vez de cuidar dos interesses internacionais do Brasil? E então, que país é este?

Não faltam as vítimas do engodo, os próprios cidadãos dispostos a enxergar em Battisti um herói da liberdade e a invocar a soberania verde-amarela em busca de uma razão, de um escasso resquício de lógica. É aqui que começa a irresponsabilidade, a confiar na ignorância e na infantilidade da plateia.

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