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Política

Lava Jato e governo Temer

Delação da Odebrecht na Lava Jato. Agora vai?

por André Barrocal publicado 08/10/2016 13h40, última modificação 09/10/2016 07h14
Negócios com Petrobras nasceram junto com a estatal. Temer apressa agenda impopular
Cicero Rodrigues

A Odebrecht, maior empreiteira brasileira, está prestes a fechar um acordo de delação premiada por força das investigações da Operação Lava Jato. Parceira constante da Petrobras desde a criação da estatal nos anos 1950, dona de obras de norte a sul, uma das principais financiadoras de campanhas eleitorais, tem tudo para causar um terremoto político com a colaboração de seus executivos.

As negociações com o Ministério Público (MP) aproximam-se do fim ao mesmo tempo em que o governo Michel Temer tenta acelerar a votação no Congresso de medidas impopulares desejadas pelo empresariado, como congelar por vinte anos os investimentos públicos em educação e saúde. Corre também para propor idade mínima às aposentadorias via reforma da Previdência.

Há quem não veja coincidência entre a pressa do governo e a proximidade da delação. Se usar sua “metralhadora de (calibre) ponto 100”, conforme o ex-presidente José Sarney definiu o potencial de estrago da Odebrecht, acertará governistas. Talvez até Temer. Caso o presidente conquiste o coração do poder econômico com sua agenda, talvez não seja abandonado se a delação ferir seu governo.

De início relutante, a construtora acabou por aceitar negociar a delação, com o objetivo de aliviar as punições judiciais contra dirigentes e funcionários. Seu presidente, Marcelo Odebrecht, por exemplo, foi condenado em março pelo juiz Sergio Moro a 19 anos de cadeia. Motivo: corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Ele estava preso desde junho de 2015, em caráter preventivo, sob a acusação de a empreiteira ter pago 137 milhões de reais em propinas a dois executivos da Petrobras, em decorrência de onze contratos com a petroleira de 2004 a 2011. Sua delação e a de até 60 funcionários devem ser seladas com o MP ainda em outubro e submetidas no mês seguinte à homolgação judicial.

Histórias para a empreiteira contar não faltam. Mantém intimidade com o poder e a Petrobras desde sua fundação na Bahia pelo engenheiro Norberto Odebrecht, em 1944.

Na campanha para deputado, senador, governador e presidente em 2014, doou quase 50 milhões de reais a uma penca de candidatos e comitês eleitorais, de partidos variados. Uma fortuna, certamente, mas equivalente a apenas 0,1% do fauramento anual da empresa, de uns 50 bilhões de reais, obtidos em operações no Brasil e em várias partes do mundo.

Seus negócios com a Petrobras nasceram junto com a estatal, em 1953, ano em que participou das obras de um oleoduto na Bahia. Foi a Odebrecht quem ergueu a sede da petroleira no Rio de Janeiro, na virada dos anos 1960 para 1970.

As duas são sócias, inclusive. A Braskem, maior petroquímica das Américas, foi criada por elas em 2002. A Odebrecht possui 38% das ações da companhia e a Petrobras, 36%. Sociedade nascida de um “escândalo”, no relato de um ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, já então um executivo da estatal em 2002 e, em 2015, condenado por Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

“A Braskem é um dos maiores escândalos, criada na época do governo Fernando Henrique”, disse Cerveró em depoimento à força-tafera da Lava Jato, um vídeo disponível na web. “Essas coisas não foi o Lula que inventou, mas essas coisas não são investigadas, isso que eu fico impressionado. A Braskem é um escândalo, mas tá lá, firme e forte, feita com a Odebrecht.”

Outro trecho do depoimento: “A Odebrecht tem uma profunda influência [na Petrobras]... Aliás, sempre teve, desde a época do Rennó”. Joel Rennó assumiu o comando da estatal em novembro de 1992, nomeado pelo então presidente Itamar Franco. Ficou no cargo até o fim da gestão Itamar e em todo o primeiro mandato de FHC (1995-1998). Saiu em março de 1999, último mandato do tucano.

Em sua trajetória, a empreiteira corrompeu até tribunais, na opinião da juíza baiana Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça de 2010 a 2012. “Não é possível que a Odebrecht levasse 30 anos de intimidade com o poder público, com o governo, sem a conivência do Judiciário”, diz.

Pelo visto, assunto para investigar não vai faltar. Já interesse...

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