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Da democracia à teocracia

por Carlos Juliano Barros — publicado 20/04/2016 04h05, última modificação 27/07/2016 11h14
Na narrativa da queda do PT como solução única da crise, um capítulo crucial tem sido relegado à periferia do debate: as forças ultraconservadoras
Nilson Bastian/ Câmara dos Deputados/ Fotos Públicas
A mesa da Câmara dos Deputados na votação do impeachment

Centenas de parlamentares usaram o nome de “Deus” e os valores da “família tradicional” para justificar o voto pelo “sim”

A votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, transmitida em cadeia nacional com requintes de final de Copa do Mundo, abriu os olhos de muita gente que ainda não havia se dado conta de um fato tristemente consumado na cena política nacional: a corrosão da laicidade do Estado.

Centenas de deputados – dos mais diversos partidos, de Norte a Sul do país – usaram o nome de “Deus” e os valores da “família tradicional” para justificar o voto pelo “sim”. Tudo vigiado de perto pelo crucifixo católico pregado na parede do plenário da Câmara, um singelo adorno para o trono do evangélico Eduardo Cunha.

Na narrativa que martela o afastamento do PT como solução única da crise econômica e política, um capítulo crucial tem sido relegado à periferia do debate político: as forças ultraconservadoras – formadas por fundamentalistas religiosos e fanáticos militaristas – talvez sejam as grandes vitoriosas desse processo.

Consumado o impeachment, não há dúvidas de que seus representantes vão cobrar a fatura, pautando retrocessos que afetam direta e cotidianamente a vida de milhões de brasileiros. E não se trata apenas de temas “polêmicos”, como o direito ao aborto.

Até mesmo campanhas de prevenção aos vírus da Aids e do HPV já enfrentam a oposição cerrada de religiosos que não acreditam na camisinha, mas na castidade, como política pública de prevenção a DSTs.

A queda de Dilma Roussef vem sendo patrocinada por um amplo leque de forças que vai das tendências centristas à extrema direita. Muitos dos que apoiam o impeachment se sentem ofendidos – com toda a razão, por sinal – ao serem comparados a Jair Bolsonaro ou a Marco Feliciano.

Em outras palavras, nem todo opositor do PT é um fascista convicto ou um obscurantista cristão. Em nome da honestidade intelectual, é preciso reconhecer que há, sim, massa crítica e inteligente no front dos que advogam a abreviação do mandato de Dilma.

Porém, num sistema político completamente apodrecido por legendas de aluguel, em que a coalização e o fisiologismo são imperativos em nome da governabilidade, a derrubada de um governo ainda identificado com valores de esquerda traz um componente simbólico que não pode ser subestimado.

Portanto, o que está em jogo não é apenas o retorno da política econômica que reabilita o livre mercado e abre os dedos da mão pesada do Estado para salvar a combalida economia brasileira.

Na baciada das reformas econômicas liberalizantes também estão embutidas reações a “ideologias esquerdistas”, o que representa um grave retrocesso na pauta dos direitos humanos e das liberdades individuais.

As principais vítimas são os movimentos sociais de negros, de mulheres e de LGBTs. Não à toa, os ministérios construídos pelo governo do PT para cuidar especificamente dessas causas devem ser os primeiros a sumir do novo mapa do Planalto.

Os advogados do diabo podem até rebater: o PSC de Marco Feliciano já fez parte da base aliada do primeiro governo Dilma. Aliás, a presidenta até renegou a discussão sobre direito ao aborto – bandeira histórica das esquerdas – para se eleger em 2010. De fato, tudo isso é verdade. A era petista nem de longe foi o paraíso prometido aos movimentos sociais que sempre lhe deram sustentação.

Porém, ao mesmo tempo, não é segredo para ninguém que o PT jamais se bicou com Bolsonaro, Feliciano e companhia limitada. No frigir dos ovos, as gestões de Lula e Dilma foram mais simpáticas aos movimentos progressistas do que aos conservadores.

O sequestro do debate político por dogmas religiosos e valores conversadores é um efeito colateral inevitável do impeachment – queiram ou não os defensores mais bem intencionados do impeachment da presidenta.

Talvez, num futuro não muito distante, eles se deem conta de que a vida não se resume a um extrato de conta bancária. Ela é vivida no dia-a-dia das escolas que silenciam sobre a homofobia, nos hospitais que não salvam a vida de mulheres vítimas de abortos clandestinos, nas batidas policiais e nas penitenciárias superlotadas que têm cota preferencial para negros.

*Carlos Juliano Barros é jornalista e documentarista. Diretor dos documentários #Eu_JeanWyllys, Carne Osso - O Trabalho em Frigoríficos e Jaci - Sete Pecados de Uma Obra Amazônica