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Política

Impeachment

Fator Cunha e apoio do Nordeste concentram esperanças do Planalto

por André Barrocal publicado 12/04/2016 15h52
Excessos de Cunha e Temer, resistência no Nordeste, cargos para o 'baixo clero' e apoio de artistas contrabalanceiam receio com Lava Jato
Lucio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados/Fotos Publicas
Congresso na sessão solene de abertura em 2016

Parlamentares reunidos na sessão solene que abriu o ano legislativo de 2016

Chegou a hora sonhada pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Sob o comando dele, na sexta-feira 15 o plenário da Câmara começa a examinar a cassação de Dilma Rousseff, uma votação que deve terminar dois dias depois. Apesar da derrota na comissão especial do impeachment, o Palácio do Planalto acredita numa vitória no domingo 17, por várias razões.

Aposta em deputados do Norte e Nordeste, redutos lulistas nas três últimas eleições. Acordos com o “baixo clero”, privilegiado com cargos como nunca e como talvez não seja em uma gestão Michel Temer. A cobiça pública do vice-presidente pela cadeira de Dilma, a reforçar o discurso de que há um golpe em curso. Atos de artistas e intelectuais contra o impeachment. O “fator Cunha”.

Tudo isso deixa o Planalto esperançoso, a ponto de Dilma ainda não ter dado sinal verde para ações no Supremo Tribunal Federal (STF) a contestar o relatório favorável a sua cassação aprovado na comissão especial. Nesta, a aprovação ocorreu com 58% dos votos, proporção que se for mantida no plenário, sepulta o impeachment, a requerer 66,6%.

Não é um cenário congelado, no entanto. Até a hora da votação na Câmara, podem surgir fatos capazes de bagunçar o ambiente e empurrar ao voto “sim” ao impeachment parlamentares hesitantes. Seria o caso, por exemplo, de alguma notícia dramática nascida da Operação Lava Jato, investigação vista no Planalto como decidida a derrubar Dilma, prender Lula e fechar o PT.

Se alguma notícia do tipo despontar, haveria pouco tempo para reações. Foi assim na eleição de 2014, quando uma revista semanal antecipou sua chegada às bancas para difundir por mais tempo uma reportagem a dizer que o doleiro Alberto Youssef teria dito que “Lula e Dilma sabiam de tudo” - “tudo”, no caso, seria sinônimo de corrupção na Petrobras.

Na seara “Lava Jato”, há quem se preocupe também com a atuação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. É o caso do deputado Henrique Fontana (PT-RS), ex-líder do governo na Câmara e membro da comissão especial de análise do pedido de cassação. “E se ele denunciar alguém, pedir inquérito sobre alguém?”, pergunta-se.

Surpresas à parte, os governistas têm se esforçado nos últimos dias para machucar a imagem da proposta de deposição de Dilma, na tentativa de salvar o mandato presidencial. “O impeachment tem maioria hoje na sociedade, mas os nossos 30% são formadores de opinião e ajudam a minar a legitimidade social do impeachment”, diz Fontana.

Uma pesquisa recente mostrou uma alta perceptível, em um espaço de três semanas, da resistência ao impeachment. O apoio à queda da presidenta era de 68% nos dias 17 e 18 de março e caiu para 61% entre 7 e 8 de abril, conforme o Datafolha. No mesmo período, a rejeição à ideia subiu de 27% para 33%.

Um cenário modificado, em boa medida, graças a mobilizações como as desta segunda-feira 11 no Rio, onde artistas e intelectuais participaram de um ato com o ex-presidente Lula. Um evento a contar com personalidades como Chico Buarque, Beth Carvalho, Gregorio Duvivier, Leonardo Boff e José Celso Martinez Corrêa, no qual foi lançado um manifesto contra “a ameaça à democracia”.

Atual líder do governo na Câmara e membro da mesma comissão especial, José Guimarães (PT-CE) aponta um dos fatores que, para ele, contribuíram para o recuo do apoio social ao impeachment: “O Eduardo Cunha colou neles”.

O mesmo Datafolha que apurou o tamanho do apoio à deposição de Dilma constatou: 77% querem a cassação do deputado peemdebista. Nos últimos dias, por ação de governistas e do Conselho de Ética da Câmara, a vingança de Cunha ao aceitar o pedido de afastamento de Dilma ressucitou como assunto no Congresso e no noticiário.

Para emplacar sua vingança, Cunha capricha. Ele programou a votação final do impeachment para o domingo 17, um dia em que o País terá mais condições de prestar atenção a Brasília. Inclusive por que emissoras de TV pretendem transmitir tudo ao vivo. Um quadro desenhado pelo deputado para constranger apoiadores de Dilma, mas que se voltará contra ele mesmo.

Muitos deputados governistas usarão o microfone na hora da votação para atacar Cunha e lembrar as encrencas éticas do peemedebista. Coisas como ser réu em um ação penal aberta por corrupção e lavagem de dinheiro e manutenção no estrangeiro de contas não-declaradas. Tudo exibido pela TV quando também está na reta final o processo de cassação de Cunha no Conselho de Ética.

Em Brasília, há quem veja um alcance limitado do poder de influência da mídia no dia da votação do impeachment. “Nem todos os parlamentares se movem pelos mesmos motivos. Se no Centro-Sul a pressão da opinião pública pesa mais, no Norte-Nordeste, não”, afirma Guilherme Campos, presidente interino do PSD, partido médio cuja direção segue governista.

Na porção geograficamente superior do País, o fator Lula talvez conte mais do que a mídia, segundo algumas avaliações do Planalto. Apesar de ter perdido ibope, o ex-presidente ainda é forte na região. No Datafolha, Lula lidera a intenção de voto para presidente em 2018 com 21%. No Nordeste, atinge 37%. Nenhum outro pré-candidato alcança desempenho melhor em qualquer outra região.

Sob o comando de Lula, o Planalto usou e abusou nos últimos dias de um outro elemento capaz de contrabalançar as pressões da opinião pública sobre os deputados: distribuição de cargos. Negociações dirigidas em especial ao “baixo clero” da Câmara, formado por parlamentares inexpressivos e de poucas aparições midiáticas.

Um veterano negociador de Brasília, destes que nunca aparecem na TV, explica por que acha que pode dar certo a tentativa do Planalto de atrair o “baixo clero”, uma operação da qual ele participa.

Na eleição de 2018, diz, não haverá doação empresarial. Cargos e emendas parlamentares, usados na montagem de qualquer governo desde o ex-presidente Sarney (1985-1990), serão mais importantes do que nunca. E tudo o que um deputado quer é se reeleger. Em um governo Temer, o “baixo clero” não terá vez, pois não terá cargo, será tudo ocupado por grandes partidos e aliados do Temer que não têm voto para se eleger para nada, como o Moreira Franco e o Eliseu Padilha.

O vice-presidente Michel Temer já fala como sucessor de Dilma, conforme se ouviu em uma gravação a circular pela internet desde a segunda-feira 11, e este também é um fator a animar o Planalto na luta contra o impeachment. Segundo dito em entrevistas pelos ministros Jaques Wagner e Ricardo Berzoini, a gravação mostrou Temer como um “golpista”.

Na comissão especial que aprovou o relatório pró-impeachment, houve quem tenha definido seu voto com base no episódio. “Acredito que o áudio provou o que o PT vinha dizendo, que há um golpe em curso”, diz o deputado Aliel Machado (Rede-PR), cujo partido decidiu formalmente apoiar a deposição de Dilma. “Quem está indeciso até agora sabe que não houve crime de responsabilidade por parte da presidente mas está suscetível às pressões. Eu votei com a minha consciência.”