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Política

Eleições 2016

Crivella eleito no Rio: a vitória política da Universal

por Nivaldo Souza — publicado 30/10/2016 18h35, última modificação 31/10/2016 12h50
O prefeito é o primeiro da igreja a ganhar terreno para o "projeto de nação" defendido pelo bispo Edir Macedo
Crivella

Crivella em campanha no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, com o senador Romário (Facebook)

O senador Marcelo Crivella (PRB) foi eleito prefeito do Rio de Janeiro com 59,36% dos votos válidos, contra 40,64% de Marcelo Freixo (PSOL). O “não voto” (abstenções, brancos e nulos) somou 46,93% do eleitorado carioca. Crivella recebeu 1,7 milhão de votos, numa eleição em que mais de 2 milhões de eleitores optaram por se abster ou apertar branco ou nulo na urna eletrônica. Ele é o primeiro prefeito do partido da Igreja Universal do Reino de Deus a vencer numa capital brasileira.

A estratégia eleitoral da igreja foi esboçado pelo bispo Edir Macedo, tio de Crivella, em livro publicado em 2008, quando defendeu um “projeto de nação” para os evangélicos e a defesa do engajamento dos fiéis na conquista de espaço no terreno político nacional. 

O líder da universal lançou naquele ano o livro “Plano de Poder”, obra obra que servia ainda como capítulo ideológico à parte do estatuto do PRB, partido criado por lideranças da Universal em 2005, com o apoio do então presidente Lula e seu vice, José Alencar, primeiro presidente de honra da legenda.

Enquanto o estatuto do PRB apresentado à Justiça Eleitoral se concentrava em questões pragmáticas - como determinar o repasse de 5% a 10% do salário de filiados da legenda ao ocupar cargos públicos (comissionados ou eletivos) -, o texto de Macedo se apresentou como um testamento político para o alicerce de uma militância político-partidária vocacionada “para que o plano de Deus se realize” sem “pudor de mexer com a política”.

Macedo afirmava que "tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos” para viabilizar candidatos alinhados com a Universal. “Nunca, em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional", defendeu o bispo.

Neste domingo 30, o senador e bispo licenciado da Universal Marcelo Crivella conseguiu o feito de se eleger prefeito do Rio de Janeiro e, com isso, concretizou parcialmente o projeto político de sua igreja.

Polêmicas

No decorrer da campanha, Crivella assumiu uma postura moderada. Evitou se apresentar como representante da Universal. A estratégia foi importante para acessar o eleitorado de outras correntes religiosas, como o catolicismo, e para fugir de polêmicas.

O prefeito eleito não conseguiu, porém, evitá-las, como a divulgação pelo jornal O Globo de trechos de seu livro “Evangelizando a África”, em que atacou a homossexualidade e chamou o catolicismo de “doutrina diabólica”.

A resposta de Crivella a cada crise foi uma bem elaborada estratégia de marketing que o apresentava como um homem falho, não imune aos erros, mas que havia mudado de pensamento e defendia “o Rio sem preconceito”. O mote virou jingle de campanha:

A cientista política Isabel Veloso acredita que Crivella deve governar moderadamente para ampliar o espectro de eleitoral da Universal e evitar a rejeição ao PRB, cuja meta é colocar na Presidência da República um líder religioso. “O objetivo da Igreja Universal é muito maior do que alcançar a prefeitura do Rio de Janeiro”, avalia.

De acordo com Isabel, que desenvolve doutorado sobre o avanço evangélico na política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Universal mudou de estratégia para eleger Crivella. A igreja utilizava a estrutura partidária do PRB até essas eleições com foco no Legislativo, em apoios a candidaturas de vereador e deputados. “Essa estrutura se concentrou nesse ano em Crivella".

A campanha aberta também ficou de lado para evitar processos, como ocorreu em 2014, quando a Justiça Eleitoral notificou a Universal após circular pela internet um vídeo no qual um pastor pedia em um templo votos para Crivella, então candidato a governador.

A pregação direta foi substituída por campanhas de orações. "Uma coisa que vi na pesquisa de campo foi uma oração antes da eleição pela política, pelos candidatos (evangélicos)", relata. "Isso ocorre de forma bem sutil".

A militância discreta, conforme dados trabalhados por pela doutoranda da UERJ e pesquisadora da FGV-Rio, ajudou o PRB a crescer 33,64% em número de vereadores em todo o País, de 1.207  em 2012 para 1.613 em 2016. "Houve um crescimento de 66% em número de votos do PRB para prefeito e 69% para o cargo de vereadores", contabiliza.

Onda liberal
Para o estudioso das raízes políticas e religiosas na economia Valter Duarte Ferreira Filho, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da UERJ, a pregação crescente de uma menor participação do Estado na vida das pessoas nos últimos anos potencializou a ascensão política de candidatos evangélicos.

Segundo ele, o viés liberal ampliado pela crise econômica experimentada desde 2014 tornou mais eficiente o “corpo a corpo” das igrejas com os eleitores. “No Brasil se tem uma pressão para quebrar a presença governamental em todos os níveis, quebrar a proteção social”, diz. “Essa ausência do governo dá margem para esses empreendimentos comunitários de arrebentamentos coletivos, que oferecem a proteção que o governo não dá, com uma sensação de acolhimento”.

Ferreira Filho aponta a fragilidade do discurso da esquerda no Rio como outro vórtice da transformação do “arrebatamento” religioso em votos, restaurando uma versão do “voto de cabresto”. “Está faltando à esquerda do Rio uma teoria. O que se tem agora são alguns apelos morais, que não estão vingando por causa das acusações morais aos petistas”, avalia. “O PT prejudicou toda a esquerda no Brasil".

A rejeição à esquerda, representada por Freixo, favoreceu Crivella quando este decidiu adotar o estilo Moreira Franco de recusar participar de debates na reta final da campanha, emenda o professor da UFRJ e da UERJ. O hoje secretário de Programa de Parceria de Investimentos do governo de Michel Temer se ausentou dos debates na campanha ao governo do Rio em 1987.

Ao perceber que venceria a disputa, Franco evitou os debates para não ser atacado e, com isso, ver sua imagem arranhada. Venceu a eleição. “O Moreira tinha perdido para o Brizola em 1982. Ele saiu, então, do PSD que apoiava a ditadura e foi para o PMDB. Ganhou com 48% dos votos”, recorda.