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Política

Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social

'Conselhão' é uma escola de cidadania, diz Tânia Bacelar

Veterana do órgão de consulta da Presidência chegou ao grupo, que retorna após 18 meses, um ano após seu surgimento, em 2004
por André Barrocal publicado 27/01/2016 13h16, última modificação 27/01/2016 13h41
Marcos Oliveira/Agência Senado
A economista e professora da UFPE, Tânia Bacelar

A economista e professora da UFPE, Tânia Bacelar

O governo está prestes a retomar as reuniões do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, grupo com quase uma centena de personalidades, acadêmicos, sindicalistas e empresários que serve para aconselhar o presidente.

Para um de seus integrantes mais antigos, o “Conselhão” nunca foi tão necessário. “Vivemos um clima de muita intolerância, ali a gente aprende a dialogar, a ver o outro com interesse”, diz a economista e socióloga Tânia Bacelar. “É uma escola de cidadania.”

Professora de pós-gradução em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ela chegou ao Conselho em 2004, um ano após seu surgimento. Dos 90 conselheiros, só dois têm mais mais tempo de casa.

Tânia é testemunha do abandono vivido pelo grupo desde julho de 2014, obra de um traço de personalidade de Dilma Rousseff. “Ela fez muita coisa sozinha. Tem apanhado tanto que talvez tenha resolvido ouvir. Vale a pena acreditar e pagar para ver”, diz.

O colegiado deve sofrer um ligeiro aumento de tamanho em sua reinstalação na quinta-feira 28, dia da posse dos novos conselheiros. Dos atuais componentes, só ficam cerca de 30%, Tânia Bacelar entre eles. Será a maior taxa de renovação desde 2003. 

O domínio empresarial vai desaparecer. A bancada patronal responde por aproximadamente 60% das cadeiras e baixará a algo em torno de 50%. Responsável por ressuscitar o Conselhão, o ministro Jaques Wagner, da Casa Civil, quis ampliar a diversidade, com mais gente da sociedade civil.

Entre as caras novas, o ator Wagner Moura, embaixador da Organização Internacional do Trabalho (OIT) contra o trabalho escravo, o neurocientista Miguel Nicolelis, já cogitado a um Prêmio Nobel, o escritor Fernando Morais e a presidente da federação das domésticas, Creuza Maria Oliveira. “O Conselho junta pessoas muito diferentes que trabalham pelo país sem ganhar nada. É um exercício muito interessante”, afirma Tânia Bacelar. 

E não é uma jabuticaba. Uma associação internacional de Conselhos já presidida pelo Brasil conta hoje com 75 membros. No último dia 18, o presidente da França, François Hollande, reuniu seu Conselhão, apontou um estado de emergência na economia e lançou um plano de uns 9 bilhões de reais contra o desemprego. “O Conselho bota o termômetro em cima de temas importantes. Olha o futuro, mas também a conjuntura”, diz a professora da UFPE.

Segundo ela, o ex-presidente Lula “usou muito bem” a dupla função do Conselho de mirar o hoje e o amanhã. Na crise financeira global de 2008, recorda, Lula montou um comitê menor do Conselhão, com o qual se reunia toda semana. Algumas medidas do governo adotadas na época contra a crise saíram deste comitê, como a isenção da cobrança de IPI na venda de geladeiras.

Um dos erros de Dilma ao lidar com o Conselhão teria sido limitá-lo à discussão de longo prazo. Ao assumir em 2011, ela mudou a área do governo responsável pelo grupo. Passou-o à jurisdição da Secretaria de Assuntos Estratégicos, uma pasta sem peso no dia a dia do governo.

Apesar disso, Tânia Bacelar acredita que discutir o futuro ganhou importância na atual situação econômica brasileira. “Não vamos sair dessa encalacrada sem olhar para a frente, para daqui a dez anos.”